Que fim levou Robin?

Retomando nossas terças de músicas, poemas, cinema, quadrinhos e congêneres…

Não, a pergunta do título não se refere aa lamentável banda de canção homônima, de passagem meteórica pelos anos 90.

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Mas sim ao companheiro do Cavaleiro das Trevas, do Cruzado Embuçado, do Homem Morcego: o ajudante de patrulheiro de Gotham City, o garoto-prodígio.

Uma curiosidade que passa despercebida em geral é a do significado de Robin, que, afinal, lhe explica as cores espalhafatosas, em princípio, incongruentes com a função de vigilância das ruas e becos sombrios de Gotham.

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Batman e Robin: Homem Morcego e Rouxinol.

Alguns aspectos precisam ser esclarecidos sobre o personagem em questão aqui. Há muita desinformação sobre ele. Chamam a atenção, os cursos midiáticos, em que um personagem envolto na típica ingenuidade de seu período, anos 40, tenha servido a tantas reflexões maliciosas até o presente bastante pronunciadas.

Robin surge na edição 38 da revista Detective Comics, em 1940, a mesma revista que trouxera ao mundo, pelas mãos de Bob Kane, Batman em 1938. A importância dessas publicações e suas sequências foi tamanha que, metonimicamente, as iniciais da revista, DC, batizariam a editora que traria ao mundo as aventuras de toda uma safra de míticos personagens: Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde, Aquaman (abaixo o preconceito aos atlantes!)…

O garoto-prodígio surge para atenuar a aura sombria e dura do Homem Morcego e, assim,  ampliar seu público. Robin e sua roupa clássica nascem diretamente da tradição dos showmen de circo, vindo daí a marcante caracterização da cueca por cima da roupa, marcante sobretudo nos super-heróis dos anos 30 e 40 (temática já discutida em Cuecas vintage).

Robin é o que se convencionou chamar sidekick, um parceiro do personagem principal,  já tendo assumido distintas caracterizações. Muitos sidekicks prestaram-se a ser manifestações de domínio étnico, inclusive. Basta lembrarmos de Mandrake e Lothar (ora, o africano era um príncipe, a serviço do mago. Aliás, eis uma dupla de total apelo circense) ou o Cavaleiro Solitário (não confundir com Zorro!) e o índio, sugestivamente, Tonto.

Mandrake&Lothar-Davis

Preconceituosíssimo, não?

Vale lembrar que até animais já foram sidekicks. Krypto e Capeto que o digam, juntos, respectivamente a Superman/Superboy e Fantasma.

Robin faz parte duma concepção de sidekick um pouco diferente: o do pupilo, aprendiz de herói. Na editora DC, que remonta aa passagem dos anos 30/40, esse tipo de personagem proliferou: Kid Flash, Aqualad, Moça Maravilha, Ricardito, etcetera e tal, muito mais gente… Na DC, inclusive, esses sidekicks levaram aa formação duma equipe só pra se dar vazão a tais personagens: a Turma Titã, mais tarde Novos Titãs (em versão brasileira; no original, Teen Titans).

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Moça Maravilha, Ricardito, Aqualad, Kid Flash, Robin: a Turma Titã original.

Gosto de pensar na definição desse sidekick como “alguém que acompanha(ria) o parceiro num sidecar”:

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Sidecar.

A Marvel, editora bem mais jovem, também teve seu sidekick: Bucky Barnes, parceiro do Capitão América.

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Voltando ao Robin, na verdade, ele não é um personagem, mas diferentes personagens:

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Dick Grayson, Jason Todd, Tim Drake, Stephanie Brown, Damian Wayne: os cinco Robins, ao longo do tempo.

Originalmente o primeiro Robin, Dick Grayson era um artista de circo, tornado órfão e adotado por Bruce Wayne. O acróbata se tornaria um grande detetive, tal qual seu tutor. Já Jason Todd, um “trombadinha” redimido pelo Homem Morcego, seria mais tarde assassinado pelo Coringa, após votação feita pela editora, junto aos leitores, por margem de menos de 2% foi decidida a morte do então Robin. Tim Drake, por sua vez, é um hacker, superágil e astuto, tendo testemunhado in loco, quando criança, o assassinato da família de Dick, os “Grayson Voadores”. Stephanie Brown, a 4ª Robin e 1ª mulher no posto, ex-namorada de Drake, foi desaprovada por Batman por desobediência. Já o último foi Damian Wayne, filho de Bruce e Talia, filha de R’as al Ghul, com o perdão do Coringa, o possivelmente maior inimigo do Batman. A concepção do filho de Bruce e Talia é mostrada na Graphic Novel O filho do demônio, de 1987. Damian (nome bem apropriado ao “filho do demônio, não?) veio também a falecer.

Richard Grayson, de Robin a Asa Noturna.

Richard Grayson, de Robin a Asa Noturna.

Aliás, quem desfaleceu, e não porque tenha desmaiado, mas porque desesticou a canela foi Jason Todd. A DC e a Marvel entendem muito dessa história de desmatar (no sentido de desmorrer, não no de extinguir) personagens, afinal, cada um deles significa vendas e a chance de o fazer a novas gerações de fãs de hqs, né? Atualmente, Todd é o Capuz Vermelho, primeira identidade do Coringa, antes de se tornar o palhaço assassino que todos adoramos. Já Dick Grayson se tornou o Asa Noturna. Líder dos Titãs por muito tempo, abandonou Gotham e foi patrulhar sua própria cidade. Tim Drake, por sua vez, se tornou o Robin Vermelho.

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“Batfamily”: Caçadora, Batwoman, Robin, Batman, Asa Noturna, BatGirl, Red Robin, Red Hood.

Há ainda, no classicíssimo Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, de 1986, história passada num futuro alternativo próximo, uma Robin, a jovem Carrie Kelley, de apenas 13 anos, parceira dum já bem combalido e psicótico Bruce Wayne. Aliás, a idade inicial dos Robins é sempre muito nova: 13, 14, 15 anos. São, de fato, tutelados pelo Morcego, numa espécie de solidariedade órfã. Aliás, embora, segundo conste, Wayne nunca tenha servido aa causa cristã, na condição de oficial da fé, a maledicência vilipendiou sua relação de educação e formação dos meninos-prodígios.

Quando Robin não serve a essas piadas de gosto duvidoso, é tomado por tapado, bem aa moda sádica que tem se proliferado no feice por aqui e alhuresmente, mundo afora…

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Segundo consta, ao menos Richard Grayson, o mais popular Robin, embora já não o seja mais há bastante tempo, nada tem de tolo. É um detetive quase tão sagaz quanto o próprio Batman, igualmente ágil e fatal a seus adversários. Ao contrário da boataria, um tanto quanto inspirada na representação de Burt Ward, na famosa série dos anos 60, além de ser um experiente e intrépido líder dos Titãs por vários anos, manteve na equipe um envolvimento com uma das alienígenas mais desejáveis de todo este quadrante do universo: Estelar.

estelar

No cinema, Chris O’Donell viveu sofrivelmente o personagem. Realmente, se Batman carece de ser mais levado a sério pelo cinema (vide De como não é mole ser Batman), imagine-se Robin… Talvez seja o recorrente preconceito com o pupilo, com o aprendiz, tão disseminado e ancestral, em nossa cultura ocidental, tal qual houvesse mestres prontos que nada têm o que aprender. Ser Robin, não importa qual deles, deve ser dureza… É estar mais aa margem do que a imprensa burguesa, por si só, conseguiria expor.

robin

[Muito fanfilm merecia virar base de filme, viu?]

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Uma opinião sobre “Que fim levou Robin?

  1. Concordo plenamente com o texto. E sou avesso também a estes preconceitos contra o Robin (que o relacionam com o próprio Batman, qdo isso não tem o menor cabimento, visto que é apenas o preconceito básico de quem não aceita uma dupla masculina tão longeva na cultura pop).

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