Coisas simples e insignificantes

Nesses tempos de cinema blockbuster, de filme pipoca, assistir a filmes doutra proposta cinematográfica já é ir contra a maré. Se bem que aí também há um modus operandi, ou melhor, “videndi”,  com nichos certos de aceitação. Mas, mesmo nesses espaços, há filmes que, além de despercebidos, são outside, mesmo nessa proposta “alternativa”. É um pouco sobre isso que quero falar nesta terça. E bem como sugere o título: coisas simples e insignificantes. Tanto que soam desimportantes.

Ora, peguem, por exemplo, um filme que, sabe-se lá porque, tornou-se um marco (pela simpatia da Audrey Tautou?! Não consigo crer que tenha sido isso): O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Pra quem não assistiu, não se corrompa com minha implicância resmungona com essa obra. Assistam! Mas, voltando ao que dizia, imaginem uma filmagem no mesmo tom do referido filme sem o ar pretensioso desse. Um filme que pretenda flagrar ninharias do cotidiano, mas sem lhes fazer épicas, sem lhes atribuir ares de grandes feitos/acontecimentos, como se tenta fazer no filme francês em questão.

amelie_poulain2

É de dois filmes assim que quero falar. Poderia ser de mais até. Porém, esses dois são duas obras que, como nenhumas outras tratam da simplicidade e do despropósito como nenhumas outras de que me lembre, levando seus títulos a uma verdadeira revelação não só da temática das obras, mas da própria propositura cinematográfica: Coisas simples da vida e Coisas insignificantes. Duas películas duma despretensão que chega a ser desnorteadora e que realizam, sob essa capa de prosaicas visagens, poesia em forma de imagem.

É um vínculo de todo improvável. Um filme é de Taiwan, o outro mexicano. separados por uma década em suas realizações e, tendo em comum, o vulto incógnito de ambos, mesmo junto ao público mais “especializado”.

Coisas simples da vida, como já dito, é de Taiwan (sempre será China!), ano de 1999, dirigido por Edward Yang. A história gira em torno de um empresário de computação e de suas relações cotidianas com seu núcleo familiar, suas parcerias de trabalho e com um antigo amor reencontrado.

coisas simples

É um longa que faz jus ao nome, com 2h53 de película. Mas, não tema! São quase três horas que, simplesmente, com e sem trocadilho, dão sentido ao cinema. O que se deveria buscar numa sala de cinema ou no aconchego dum dvd é mais ou menos o que esse filme realiza. Como diz um dos personagens em sua fala final: “Sabe o que eu quero fazer quando crescer? Contar para os outros o que eles não sabem… Mostrar coisas que eles não viram.”. Esse filme, pasmem, nos mostra coisas que não vimos ou que vimos, mas não nos demos conta adequadamente.

De quebra, se tem aquela oportunidade maravilhosa que só o cinema- além das agências de viagem, claro- confere: flagrar-se aspectos sutis doutra cultura, outras possibilidades de se ser humano.

Tudo o mais nele é despretensão, diante da revelação, via cinematográfica, que se dá. Ao subirem os ideogramas de finalização,, diante um olhar maravilhado, resta um suspiro de tantas reticências existenciais.

Quem poderia imaginar que, de Taiwan, viria uma revelação tão vigorosa?!

Já o segundo, Coisas insignificantes, é um mexicano de 2008; direção de Andrea Martínez. Órfão do grande momento de genialidade do cinema do México entre os anos 90 e início dos 2000, é uma espécie de filme-temporão dessa ótima leva que inclui obras como E sua mãe também ou Amores brutos, dentre tantas outras preciosidades produzidas no período em terras de Zapata.

cosas-insignificantes

Primeiro, preciso agradecer aa minha “indicadora” cinematográfica Aline Presot por esse filme. Vivemos a trocar indicações de achados que passam, assim, tantas vezes, despercebidos.

Como diz a frase-resumo do filme, “Às vezes o essencial passa despercebido”. É bem isso mesmo.

A fórmula já é até manjada: vários personagens têm suas vidas inesperadamente entrecruzadas, tendo um improvável vértice em comum, a personagem Esmeralda. Ela tem uma obsessão inusitada: coleciona objetos perdidos, desprezados, numa metaforização da própria questão central perseguida pelo roteiro. A partir daí, traça-se a surpreendente história desses objetos. Eles são, assim, possibilidades e, ao mesmo tempo, irrealizações. Esperança e angústia. A história trata de ausências e dos lapsos que as podem ou poderiam preencher. E isso tudo, no filme, trafega entre a importância e a desimportância. Cabe ao telespectador atribuir um valor a isso, afinal.

Dois primores, duas delicadezas pros olhos e pra alma. Assistam essas preciosidades. Mais que uma dica, uma possibilidade de recontextualização humana.

P.S.: outras dicas neste sentido são sempre bem-vindas!

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