Mandela rebiografado!

E assim se foi, em 95 anos bem lutados, Nelson Mandela, com certeza, um dos dez homens que definiram o século XX. Mais que isso, (re)definiu uma luta e suas conquistas não só para seu povo, mas para todo mundo.

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95 anos com a vida que teve é um feito a mais! Creio que o papel deste meu texto não seja revisitar a sua biografia ou explicar quem tenha sido Mandela. Como disse, creio que ele foi universal. Pode até ser que alguns com menos de 25 anos não tenham a dimensão da comoção mundial causada pela prisão autoritária e extensíssima dele.  Mas não foi por outro motivo que se deu a sua libertação em 1990.

Essa libertação foi objeto de construção de quase três décadas com a parceria da resignação em luta, embora aprisionada, do próprio Mandela e de milhares crescentes ao redor do mundo. Ele não transigiu. No início, Mandela não passava dum guerrilheiro pmandela3ra grande mídia. Ou nas palavras da Dama Enferrujada, “um terrorista”. Os grandes governos do mundo o ignoraram por bastante tempo, bem como sua luta. Quantas similares- talvez não na magnitude, mas sim na legitimidade de quem luta- não recebem os mesmíssimos tratamentos: a brutalidade, a arbitrariedade, o desdém, o rancor, a injustiça, o aumento da opressão? Hoje, ao vermos, a imprensa reconhecendo sua figura, um nó paira contrariado na garganta. Eis outro feito formidável: conquistar a dimensão midiática pra uma “simples luta” da população negra contra a elite dominante no país. Mandela teve de ser engolido, a fórceps, e agora, in desmemoriam, o grande aparelho midiático dominante mundial cobra seu preço. É preciso editar quem tenha sido Mandela. A manchete de O Globo, o diário da ditadura, dá bem o tom: “O Conciliador”. É preciso rebiografar Mandela.

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Em análise do discurso rasteira e vulgar, o verbo “insistir” já diz tudo sobre a posição editorial da matéria, não?

Não é a primeira vez e muito menos será a última. Qualquer personagem que se torne símbolo, por si só, precisa ser disputado ideologicamente em sua simbologia. Não foi diferente a pasteurização feita com Guevara, tornado um símbolo heroico de rebeldia romântica adolescente, dum tipo que possa ser até absorvido pelo departamento de marketing duma Coca-Cola da vida, por exemplo. Tal qual é gestado o Mandela Messiânico!

Até a denominação afetuosa Madiba, ao ser enunciada pela mídia, soa falsária de todo.

Mandela não construiu a revolução Socialista em seu país. Optou convicto, creio, pela construção dum país em unidade, quando pôde fazê-lo. De fato, o racismo [E diga-se que esse continha e contém como se dá em geral um profundo componente classista], naquele contexto, era a questão zero a se combater. Qualificar isso como abandono da luta em prol da conciliação ou é má fé ou uma inocência útil absurda.

[Hino do Congresso Nacional Africano, CNA]

Aqui, no país do racismo cordial, onde tanta gente é moreninha, também vivemos em meio aa elite historicamente branca. Ou não?! E as razões, grosso modo, não são muito distintas das da África do Sul ou doutros tantos países africanos. Tantos exemplos… todos sabemos que a dignidade e mesmo a vida são cotados em posses, em capacidade de consumo, mas também em cores e tons, num painel lastimável de sociedade.

No dia seguinte aa morte de Mandela, numa dessas ironias que mais parecem sarcasmo mordaz e ressentido, a Dona Branquinha “Não tenho nada a ver com isso” Fernanda Lima, mais digerível ao gosto europeu (?!), estampou sua derme despigmentada ao mundo no evento que sucede justamente o da África do Sul, após veto da Fifa a apresentadores negros (até onde sei Camila Pitanga- que pra boa parte da população brasileira nem é tomada por negra- e Lázaro Ramos). Essa é a mesma Fifa que excluiu a África do Sul de suas competições, devido ao Apartheid e que tem como estrelas de primeira grandeza Pelé, Eusébio e tantos outros. Sobre a atitude de Fernanda Lima, assino embaixo das declarações de meu querido Zé Renato: http://revistaforum.com.br/blog/2013/12/racismo-o-que-eu-tenho-a-ver-com-isso/

fernanda lima

Que tristeza humana.

Ao que tudo indica, ela desconhece que a responsabilidade pelo fim da opressão é responsabilidade maior de quem usufruiu das condições e valores que oprimem, não como concessão, mas sim dever. É disso que fala o texto de ontem de minha querida companheira de blogue Ana Souto.

Enquanto isso, vamos vivendo de “mendigos gatos”. Toda a saga de reabilitação dele foi acompanhada de perto pela mídia com sua insistente denominação de base amplamente racista, num país com a realidade social que o nosso tem e com o tratamento que moradores de rua recebem, com respaldo midiático: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/10/mendigo-gato-faz-ensaio-fotografico-apos-deixar-reabilitacao-veja-fotos.html. Asqueroso!

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Luanda, capital de Angola.

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Maputo, Moçambique.

Mas, lembremos que racismo não é só contra negros. Índios que o digam. Mas, voltando aos primeiros, quando vamos parar de pensar na África como um país e não como continente? Quando vamos admitir a identidade dos diferentes países africanos ou vamos por eles nos interessar? Quando vamos parar de pensar na África e ativar em nossas cabeças imagens tribais, de animais selvagens e coisas do gênero? Quando vamos parar de tratar e pensar colonialmente a África e sua contraparte a Europa, esta de brancos, aquela de negros?!

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Joanesburgo, África do Sul.

Julgamos deplorável que pensem que a capital do Brasil é Buenos Aires ou que nos imaginem em meio a florestas e por aí vai… O mesmo que consideramos lamentável em relação a nós é o procedimento padrão tomado com a África.

É no mínimo outra ironia bastarda que o homo sapiens seja originalmente negro e mulher [sim! o sexo masculino é uma mutação do feminino na espécie humana. Perguntem a um biólogo e ele explicará melhor do que eu conseguiria]! deve ser uma espécie de “pecado original”!

[Martinho da Vila, sempre com preocupações internacionalistas]

Mandela sempre será parâmetro de luta contra o racismo e pela liberdade. E ainda há tanto pra se fazer! Que o quase um século de Mandela continue nos auxiliando e liberte os próximos séculos mundo afora!

MANDELA PRESENTE!

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Categorias: Mídia, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , , , , | 9 Comentários

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9 opiniões sobre “Mandela rebiografado!

  1. Luiz Constantino

    Ótimo texto Anderson. Quanto à parte de biologia citada de passagem, se não me falha a memória, o cromossomo Y seria uma forma degenerada do cromossomo X, mas, de novo ressaltando, não garanto a exatidão da informação, visto que genética nunca foi meu forte, rs. E sim, já traçaram a nossa origem até sete mulheres, mas não eram todas da África. Estão revendo tudo de novo porque novas descobertas seguem sendo feitas, como espécies novas da nossa linhagem, que (quebrando um dos conceitos de espécie) aparentemente conseguiam ter relações entre si e por aí vai…

  2. Valeu, Luizinho! 😀 Me mantenha informado sobre tudo isso!

    Será por isso que os homens são tão degenerados?! 😛

  3. andreabdeoliveira

    Brilhante, Anderson! Como sempre!

  4. Obrigado! 😀

  5. Queridos Anderson e Andrea ,
    depois eu comento o texto , mas , por favor , façam as pazes , logo . Eu amo vcs .
    Esses comentários de vcs dois estão sem graça . Caso tenham terminado , avisem – me , por Deus .
    Beijos ,
    Ana

  6. Que nada, Ana! A Música segue inspiradoríssima!

  7. Textos e leituras polivantes as desse blogue… 😛

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