Por que somos tão racistas?

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Confesso que estudei em uma escola típica de classe média carioca, na qual mal havia alunos negros (“moreninhos”, como pessoas tentando ser educadas e não racistas falavam naquela época, imediatamente denunciando o próprio racismo). Nessa época, eu tinha um grande amigo, que se chamava André. Ele era bem alto, muito louro e de olhos azuis. Eu, naquela época ao menos, tinha os cabelos bem mais claros do que hoje. Éramos, enfim, dois perfeitos espécimens de humanos caucasianoides. Chegamos a nos encontrar em uma escola de zona sul do Rio por um daqueles reveses que só um evento da magnitude da Segunda Guerra poderia ocasionar. Eu, descendente de um sargento francês condecorado por bravura na Primeira Guerra, exatamente o tipo de francês que os alemães catavam para matar, para abortar tentativas de resistência. Ele, descendente de judeus húngaros, e todo mundo sabe o destino que os aguardava caso não tivessem conseguido fugir a tempo. Além dos nossos fenótipos, no entanto, tínhamos algo mais em comum. Éramos, para todos os standards de alunos de 13 anos de escolas, grandes cientistas, pois devorávamos cada uma das edições de uma recém-lançada publicação: a revista Superinteressante – que na época era, de fato, superinteressante, e não essa porcaria com muito gráfico, pouco conteúdo e que, aparentemente, só consegue vender publicando matéria de capa envolvendo “polêmicas” religiosas sem o menor interesse. Quem, no ano de nosso senhor de 1988, poderia imaginar um fim tão decadente para aquela revista! Eu gostaria de ter mantido algum registro dos intermináveis “debates científicos” em que nos envolvíamos, do alto da nossa sabedoria de efebos impúberes. E, sim, nós éramos nerds e sofríamos alguma cota de discriminação por sê-lo dentro da pequena comunidade que é um colégio. Um dia, porém, algo de muito mais grave aconteceu.

Sem razão aparente, começaram a surgir, todas as manhãs, cartazes (na verdade, folhas de A4 mimeografadas – o suprassumo da tecnologia oitentista) contendo piadas racistas. A cada dia que chegávamos, lá pelas 7h30, os cartazes estavam reposicionados, com novas “piadas”, cada uma mais infame do que a outra. Eu e André prontamente nos indignamos. Além do indigesto preconceito, saltava aos nossos olhos de cientistas-mirins a estupidez e a falta de base dos conceitos envolvidos na construção do racismo. Após alguns dias enfurecidos e de debates ampliados acerca da noção imprecisa e ociosa de “raça”, tomamos uma difícil decisão: iríamos à diretoria exigir algum tipo de providência. A ideia em si, é claro, nos repugnava, pois como qualquer criança de qualquer escola tínhamos uma espécie de alergia e medo pânico em relação a todas as autoridades escolares (éramos nerds, não estúpidos). Percebíamos a direção como fazendo parte daquele mundo visivelmente ordenado segunda a vontade de professores e adultos, e, portanto, não valia a pena esperar muito dele. Mas ante a gravidade da situação, vencemos medos infantis ancestrais e rumamos bravamente à direção da escola. É claro que a tal direção já devia ter muito discutido o problema, mas ninguém conseguiu disfarçar muito bem o espanto quando aquelas duas criaturas, que passavam a maior parte do ano completamente despercebidas, irromperam naquela sala a deitar reprimendas ao diretor e ao resto do corpo escolar e reclamando que medidas mais enérgicas fossem tomadas.

No entanto, a solução que a escola encontrou não poderia ter sido mais aplaudida: enfiaram todos os alunos em um auditório e convocaram um biólogo para explicar toda a inviabilidade do racismo do ponto de vista das ciências médicas e biológicas. Funcionou. Os cartazes desapareceram. Os seus coladores entenderam a mensagem (ou pelo menos as duas horas de palestra sobre ciência revelaram-se castigo o suficiente para que os criminosos não reincidissem). E desde muito cedo, portanto, formei uma convicção: quem tem preconceito está cientificamente mal informado. Ou então é burro mesmo.

Sempre achei muito significativo que um descendente de perseguição política e um descendente de perseguição étnica (no caso, antissemita) viessem a se encontrar em um ambiente racista e preconceituoso como uma escola carioca. Talvez tenham sido essas experiências familiares (pesadas) pregressas que nos tenham salvado de antemão de cair tão facilmente em uma asneira perfeitamente dispensável como é o racismo. Mas creio que não. Creio que o discurso científico, mesmo ainda incompletamente assimilado, foi o suficiente para nos tirar dessa esparrela que atravessa a sociedade brasileira de ponta a ponta. Mas não foi a ciência que produziu o racismo?

Tenho teorias muito pessoais quanto a isso, e a vantagem de não ser um especialista é poder expô-las, mesmo sem fontes muito precisas, mas antes vindo de anos de curiosidade e leitura, aliadas a uma certa intuição, mais do sobre algum estudo decisivo. Então, vamos a elas.

Para mim, o racismo moderno nasceu a partir da resistência dos interesses econômicos ligados à escravidão em contraponto ao abolicionismo. Nos países anglo-saxões, dos quais fazem parte ao mesmo tempo a liderança do movimento abolicionista internacional e um dos países escravagistas mais renitentes, esse debate por vezes se tornou muito claro. De um lado, havia a corrente economicista, que seguia a argumentação smithiana de que a escravidão era contraproducente. A isso, fazendeiros do sul dos EUA facilmente respondiam: “Isso está errado, eis a minha contabilidade, sem os escravos eu vou à falência”. Então, o abolicionismo entrava com o argumento humanitário: “Como você pode fazer isso com o seu semelhante”. Ao que, uma resposta provável era: “Meu semelhante? Um negro não é meu semelhante”.

Surgiu assim no momento em que estruturas econômicas específicas estavam em plena debandada, para justificá-las, ou então, quando o desmoronamento destas já era inevitável, para justificar pelo menos a manutenção de novas estruturas sociais de privilégio.

O fato é que, da Antiguidade ao século XIX não há, até onde eu saiba, preconceito sistemático contra pessoas devido às cores de suas peles. O intercâmbio de gregos e romanos com povos negros (egípcios, por exemplo) foi constante, e a pele certamente não foi a tônica da relação. Na Idade média, as preocupações passavam menos pelas cores das pessoas do que pelas religiões que elas professavam. Dos relatos literários que consigo lembrar, tampouco há referências explícitas a peles, antes a origens, como o Otelo de Shakespeare, que era um mouro (logo, negro), e casa com a branca Desdêmona, filha do doge de Veneza.

Segundo a crença mais comum, a ciência do século XIX teria fortemente se engajado nessa “causa”. Porém, isso é muito questionável. Duvido muito que os maiores cientistas daquele século estivessem atentos aos debates sobre as questões raciais que vingavam então. Por exemplo, Louis Pasteur, que publicou um pequeno artigo chamado “Da natureza microbiótica das doenças” e revolucionou o mundo com o processo da pasteurização, que aplicada ao leite reduz imediatamente a mortalidade infantil (e por isso, em qualquer lista dos cinco cientistas mais importantes de todos os tempos, o nome de Pasteur sempre figurará). Alguém que estuda o “lado de dentro” das coisas não pode ter muitas ilusões de superioridade, quaisquer que sejam elas. Não vou ficar desfilando nomes de ilustres que tornaram a nossa vida mais segura, mais confortável e mais farta, que viveram e trabalharam naquele século. Mas gostaria de frisar que até uma ciência que já foi utilizada para justificar quase qualquer estupidez como a biologia não tem culpa das “interpretações” para lá de forçadas que a ela foram atribuídas. E foi nesse lado que o século XIX produziu uma ciência sabidamente de péssima qualidade, mas que, creio, funcionava mais como um discurso de poder do que como debate científico propriamente dito.

A ciência funciona a partir da ponderação de dados objetivos. Então, se a ciência dissesse que brancos são superiores intelectualmente, nós teríamos (com muito sofrimento) que engolir. Se ela dissesse que as mulheres são menos capazes que o homem para profissões técnicas, ou que os homossexuais são retardados como os estereótipos televisivos os representam, nós teríamos, a duras penas, que engolir. Mas o meu ponto é justamente que a ciência NUNCA disse isso. A ciência, a exemplo dos Black Blocs, é um método. Então, ciência feita a partir de dados mal coletados não é ciência. Ciência feita a partir de dados estatísticos frouxamente reunidos não é ciência. E, principalmente, ciência feita para confirmar preconceitos preestabelecidos não é ciência, é fraude.

Hoje os problemas são outros, como a aliança entre cientistas e capital (com resultados dramáticos, digamos, na indústria farmacêutica), ou a ampliação desmedida do consumo que o avanço tecnológico permitiu, ambos temas que tornariam este pequeno texto amplo demais. Porém, ainda creio que únicas coisas que podem salvar a humanidade dela mesma são a ciência e o socialismo. Ou, atualizando para os dias de hoje, quem sabe, a ciência e o vandalismo.

Notícia de última hora. Agradecimentos a Daniel Seidl pela boa dica:
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/12/miss-franca-sofre-racismo-na-internet.html

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Categorias: Sociedade | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “Por que somos tão racistas?

  1. É a primeira vez que te leio e estou feliz , satisfeita e ” ilustrada ” …risos…
    Obrigada !
    Beijão ,
    Ana

  2. sandraspaiva@oi.com.br

    paulo, li e adorei! bja

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