O que será o amanhã? (parte III)

“Ela está à deriva,

ambulante na vida…

Cem paixões adormecidas!

Ela não gosta de bonecas.

Nunca teve tempo para niná-las.”

Esse é o início dum poema nunca continuado. Começou a ser escrito em 1998, a uma menina que conheci vendendo balas nas ruas de Belo Horizonte- cidade estupenda- chamada Carmen Patrícia Caetano de Oliveira. Ela tinha se não me engano 8 anos de idade. Estava com alguns companheiros do PCB aa época, após uma atividade partidária da qual não mais me lembro. Perguntei-lhe porque não estava aaquela hora a brincar de boneca. Ela me disse, de pronto, que achava sem graça fazer isso. Comprei um de seus produtos- atitude que em geral não tomo, mas há vezes em que sou instantaneamente sensibilizado, sabe-se lá por que- anotei-lhe o nome e carreguei a reflexão sobre ela. Chegando ao Rio, pensei em poetizar esse pensar, mas nunca consegui lhe dar consequência. Travei.  E lá se vão 15 anos… Tenho poemas que demorei mais de uma década pra escrever. Receio que esse tenha sido engolido metafórica e concretamente pelo mesmo apagamento de que Carmens Patrícias são sempre possíveis vítimas. Hoje, ela esta(ria) com 23 anos. Será que está? Como estará? Não creio que, naquele momento, ela fosse capaz de se pensar 15 anos depois. E não só pela idade…

Nos textos homônimos anteriores, parte I, do início de agosto, e parte II, do fim de setembro, busquei problematizar sobre uma alteridade que pudesse se projetar em tempo e em espaço. Precisava de tempo entre um texto e outro e de espaço alongado pra construir pra mim mesmo essa ideia em forma de texto. Creio que começar por essa lembrança da Carmen Patrícia é uma forma de fazê-lo.

Não sei onde está a Carmen, sequer se está ou mesmo se é, mas que nos seja,,, ao menos um ponto de partida/continuidade dessa reflexão.

Trata-se duma reflexão que se propõe a entender a ideia intuitiva de historicidade para além de seu senso minimamente comum. É entender a história em envergadura pré-histórica. Compreender um nível de comprometimento que é existencial, não em acepção filosófica ou metafísica, mas biológica e física. Pra exemplificar, o conjunto da história do homo sapiens nos deveria comprometer, a cada um. Há 20 mil anos, aproximadamente, o homem teria domesticado o gato [e o cachorro, ao dobro do tempo]. Ter domesticado o gato selvagem e tê-lo tornado pedinte e dependente de nós deveria ser algo a comprometer todo e qualquer homo sapiens, penso, com o bem-estar dessa nova espécie gestada a fórceps por nós mesmos, isto é, por mim, por você, por nossos ancestrais, por nossa espécie. Claro que isso é semihistórico. O que chamamos de história remonta, grosso modo, há 10 mil ano ou um pouco mais. É aquilo sobre o que se tem registro e que é minimamente reconstituível em termos de cronologia mais ou menos clara e direta.

proailurus

Proailurus, o ancestral de todos os felinos, vivente há cerca de 25 milhões de anos.

Mas é de notar que a própria ideia de homo sapiens é pós-construída. É um dado recorte sobre o que separa as espécies, o que somos nós, os animais e demais homos. Supostamente, surgimos há 100 mil anos, segundo nossas próprias especulações e critérios de o que seja o dito homo sapiens- para total terror do Homem de Neanderthal, em princípio extinto impune e talvez desnecessariamente por nós. Aliás, esse conceito aqui levantado de semihistória pensa em história como aquele período em que não há datação. Nesse sentido, estou a falar dum período em que não há datação possível; só estimativas vagas demais!

Homo sapiens: arrogância desde a autodenominação. O ser humano, nascido há 100 mil anos mulher, possui uma célula de eternidade: espermatozoide ou óvulo. Haverá seres humanos que venham se eternizando desde sempre na face da Terra, reproduzindo-se ininterruptamente há 100 mil anos? Eis a imortalidade.

Voltando ao oprimido sexo feminino, ele é o básico do ser humano moderno. Segundo o Luizinho, biólogo, o cromossomo Y é uma degeneração do X. Isso explicaria muita coisa, além de subverter a Bíblia, claro. Uma boa reflexão de passado pro futuro, de curto, de médio e de longo prazos!

Minha amiga e parceira de blogue Aline Silva, a respeito do primeiro O que será o amanhã?, disse que era um texto em formato de pensamento-constelação, ou algo muito próximo disso. Gostei da ideia. Ela me remete a um dos pontos nesse exercício de alteridade espaço-temporal que ultrapassa o senso histórico social/societário comum. Peguemos a constelação e vamos a sua base: a estrela. É lá que tudo começou! Somos filhos dalguma delas, incógnita, desconhecida, órfãos de sua potente energia que aqui nos arremessou há, 4,5 bilhões de anos, a idade da Terra.

Todos nós, tudo o que existe a nosso redor, foi fabricado num núcleo estelar. Os carbonos que nos formam colidiram nessa estrela que nos semeou aqui há 4,5 bilhões de anos. Parafraseando o chavão cristão: ela morreu para nos dar a vida! Como diria Carl Sagan, somos poeira de estrelas.

poeira estelar

O universo em poesia viva.

E citando o físico Neil deGrasse Tyson, estamos no universo, mas o universo também está em nós!

neil-degrasse-tyson

Além de meme popular, um dos maiores físicos da atualidade.

Vamos lembrar ainda que olhar pros céus é forçosamente vislumbrar só passado, em que pese nosso anseio de futuridade. Se bem que pra Física Quântica a distinção passado-futuro é, em geral, irrelevante. O mundo quântico prescinde de tempo. Mas não nós. Vivemos numa linha que avança invariável aa aparentemente paradoxal degradação celular. Vivemos numa reta unidirecional que avança pro fim certeiro, mas também pra possibilidades múltiplas que nos movem o viver.

Acho que ainda não mencionei isto no blogue, mas pesquiso, em Língua Portuguesa, justamente o futuro. Mais precisamente, a expressão verbal de futuridade. O futuro em linguagem é, no mínimo, fascinante! Nessa formulação, o futuro se faz inalcançável. É curioso que, intuitivamente, a percepção humana parece comprovar isso. Me refiro aa decodificação da expressão de futuridade nas línguas. E, antes, é bom deixar claro o que são os tempos verbais: recortes e interpretações que as diferentes línguas fazem do tempo cronológico. Isso explica porque mudam tanto de uma língua aa outra e porque, tão comumente, não possuem tradução segura ao se tentar suas transposições a outros idiomas.

Parece não haver, nas mais diversas e distintas línguas, um tempo próprio para a expressão de futuridade. O futuro é sempre a expressão de um desejo, de uma suposição, de uma necessidade, de uma obrigação que seja. Assim foi com conseguir hei, assim é com vou conseguir. O mesmo rola com diferentes verbos nas línguas afora. Ou seja, o futuro não pode ser apreendido diretamente. É como se ele fosse um transbordamento de tempo, uma extrapolação de nossa relação com essa poderosa força transformadora de tudo. Isso só pra falar bem genericamente.

[Ao abismo do vertiginoso futuro, desci]

Se juntarmos a isso, o fato de que há culturas que concebem o tempo circularmente, vamos logo nos dar conta de que a forma mais imediata de se pensar tempo não é absoluta mesmo. Acho que a impressão contrária tem muito a ver com a invenção/adoção do relógio e da jornada de trabalho, como controladores do tempo: tempo industrializado, capitalistamente retilíneo. Será isso então? Afinal, somos produto do pensamento que conseguimos vislumbrar como tal, circunscrito numa historicidade, mas também ultrapassando limiares em regiões e épocas em que sequer vislumbramos perspectiva histórica alguma. Mas viemos de lá, decerto, seja o que for esse “lá”.

Talvez enfim nem haja mesmo futuro, só um eterno, cíclico ou não, refazer de presente, ancorado em passado. O futuro é demais pra nossas consciências de reles, embora arrogante, homo sapiens. Talvez melhor seja deixar o futuro a Deus pertencer mesmo. E reduzamos esse tempo ao nada, dialeticamente tudo em potencialidade, um ponto zero que tudo pode, muito mais complexo e sofisticado do que o próprio conceito de zero.

Já não mais sei se “o futuro é amanhã, mais um dia”,,, sequer sei se creio, de fato, na existência do futuro, como ente temporal. Espero que, ao menos, Carmen Patrícia tenha tido e ainda venha a ter futuro e futuridades!

É melhor deleitarmo-nos com simplismos e simplicidades do que ousar o mergulho nessa jornada reflexiva extenuante e possivelmente enlouquecedora. Melhor seja pensarmos inocentemente, por exemplo, nos Jetsons; afinal, já somos nós mesmos meio que os Jetsons de ontem, não?

jetsons

Ah, somos enfim feitos no e de tempo!

tempo7

Aa Carmen Patrícia!

[Costumo imaginar que foi num desses incontáveis choques intranucleares há 5 bilhões de anos, em nossa estrela-mãe, ou mais, que, primeira vez, conheci a Música Andrea. E lá guardamos a lembrança enamorada no fluxo da existência dessa outra vida, a ser retomada em nossos carbonos aparentemente desmemoriados, mas ávidos por reviver a energia e potência daqueles momentos! A colecionar amanhãs; a gestar universos…]

Também aa Andrea Barbosa de Oliveira, bilionesimamente Música!

Anúncios
Categorias: Reflexões | Tags: , , , , | 5 Comentários

Navegação de Posts

5 opiniões sobre “O que será o amanhã? (parte III)

  1. andreabdeoliveira

    Belíssimo texto, Odisseu! Num exercício de volta ao passado, ou volta ao início, numa reflexão sobre o futuro e sobre nosso comprometimento existencial, biologica e fisicamente falando, você nos conduziu a um passeio histórico e lírico, mas não com a linearidade temporal a que estamos acostumados em nossas leituras habituais. Você, meu transamado poeta, viaja, navega, explora no espaço-tempo, vai às estrelas, e se descobre, NOS descobre… Sua sempre Música…

  2. Obrigado, Rita! 😀

  3. Que comentário sagaz e belo, Música! *-*

  4. Pingback: A dúvida do futuro, ou a certeza do passado | transversos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: