A dúvida do futuro, ou a certeza do passado

* por Jefferson Andrade

Futuro, passado, presente. Nada e tudo ao mesmo tempo. O “ser” sem “ter sido”, ou o “não ser” que “está porvir”.

Dizia eu, anos atrás, que “o futuro nada mais é do que um reflexo do passado e uma conseqüência do presente”. Estava errado! Primeiro, porque o futuro não “é”. Também porque o passado não se reflete, nem em aparência, em nada do futuro, sobretudo em sua condição anterior de presente, que apesar de construir o futuro, não o define de forma lógica ou determinista.

E pra que dizer tudo isso?

Houve um tempo em que eu possuía mais certezas do que dúvidas. E sei que a maioria de nós passou por isso, dependendo da idade, está a passar, ou passará. Mas o ponto é que hoje possuo mais dúvidas que certezas. Aliás, nem mesmo sei se tenho certeza de algo, essa pode ser mais uma dúvida minha. E credito esse pensamento, a inspiração para esse questionamento, a meu grande amigo e camarada Anderson Ulisses, com seu O que será o amanhã? (parte III).

De onde surgem tantas e tamanhas dúvidas? A incerteza do futuro foi construída no passado, ou a é feita no presente? Aprendi com Sun Tzu que devo conhecer meu inimigo como a mim mesmo, sendo essa uma condição quase sine qua non para que eu tenha chances de vencê-lo. Mas como posso combater a dúvida, essa incerteza aterradora que parece nascer da morte das certezas, ou que é sua causadora, se nem mesmo consigo entender onde é que começa sua construção.

Podem alguns pensar que estou a elaborar sobre os problemas da vida, mas não é isso. Estou apenas a pensar sobre o problema específico, se é que se trata de um problema, que é a dúvida em si. Se fossem “os problemas”, já haveria desistido, pois que Leminski já me alertou a muitos anos que os problemas se reproduzem de forma autônoma, como grande família, ou sua figura seria impossível.

(…)”mas problemas não se resolvem,

problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas”(…)

Há muitos anos atrás tentei escrever sobre o grande segredo da vida, texto esse que perdi e não lembro sequer uma linha. Mas lembro que o primeiro obstáculo que enfrentei foi definir qual seria o grande segredo da vida. Foi hilário o desafio, que transpus todo em papel, algo que provocou algumas gargalhadas em grande amigo e xará, de sobrenome Tramontini. Mas hoje jamais tornaria a escrevê-lo, pois já possuo uma quase certeza de que não há maior segredo do que a morte das certezas e o nascimento das dúvidas.

Veja bem, não falo da dúvida curiosa, aquela dúvida que nos leva a busca pelo conhecimento, a dúvida que leva a todas as grandes descobertas. Falo da dúvida vacilante, medrosa, aquela dúvida que nos leva a inação, à paralisia completa, ao medo.

Relembrando os tempos das certezas, recordo-me de que tantas certezas tiveram origem, em sua ampla maioria, na falta de experiências próprias, ou na falta de conseqüências de experiências próprias. Se observarmos, esse é um ponto curioso de nossas vidas, pois erramos muito e aprendemos com nossos erros. Mas quando ainda não temos erros o suficiente, aprendemos muito pelas experiências alheias. Mas quem conhece realmente as piores experiências alheias?

Não me lembro de em minha juventude ter lido algum livro como “O que não fazer”, ou uma narrativa do fracasso de uma empresa, ou como não ser um líder, ou algo sobre como viver infeliz, como fracassar no amor, histórias sobre a primeira “brochada”, ou como falhar na cama com estilo, ou qualquer outro fracasso e erro que acontece com quase todos. Daí que tomando a experiência alheia como critério, temos uma coleção de sucessos, pois apenas o sucesso é divulgado.

Iniciemos uma campanha, pois, “Divulguem seus fracassos e fiascos!” ou “Seus erros ficam melhores em público”. Isso poderia tomar as certezas de um bando de adolescentes chatos por aí. Mas e a dúvida?

Somos criados para acertar. No futebol comemora-se o gol, nas artes comemora-se o sucesso, nas ciências comemora-se a descoberta, a invenção. Só o acerto tem vez, só o acerto. E o erro, não tem lugar em nossas vidas?

Pense-se na quantidade de erros que Da Vinci deve ter cometido em seus esboços, em suas tentativas de invenções, em seu helicóptero projetado, mas que jamais teve a chance de voar. Imaginem-se quantos erros não tivemos antes de chegarmos aos modelos binários dos dias de hoje, que fazem nossos computadores e demais eletrônicos. Basta lembrar, do primeiro exemplo, que o princípio de funcionamento da aeronave de Da Vinci é exatamente o mesmo que faz os helicópteros de hoje levantarem vôo, mas no mais do projeto havia o erro, ainda que o acerto estivesse nele contido. Mas apenas o acerto tem vez.

Lembro daquele “chavão” do pessoal de vendas de que “para cada “sim”, você recebe 10 “nãos””.  É o que os levaria a comemorar cada “não” como um passo a mais para o “sim”. Mas pergunte a qualquer vendedor o quanto ele comemora esses “nãos”.

O erro nos provoca medo, pavor, vergonha. Colecionamos decepções, tristezas, nos acabrunhamos a cada erro, a cada não, a cada insucesso. E passamos a ter a dúvida como única certeza, como companheira inseparável de cada ato, de cada ação, ou da falta de cada um deles.

Acredito ser daí que tiramos nossos mais profundos sentimentos de nostalgia, onde aqueles velhos tempos da primeira juventude, cheios de certezas e verdades absolutas, eram melhores, mais cheios de realizações e emoções, com mais recordações. É de nosso passado ou presente, com nossos erros e acertos, com nossas respostas prontas, que construímos nossa eterna dúvida.

Melhor seria se cultivássemos a sabedoria oriunda do aprendizado com os erros, mas mantendo acesa a disposição de transformar as dúvidas em perguntas, para as quais tenhamos a coragem necessária de buscar as respostas. A dicotomia real, entendo agora, não está entre as dúvidas ou certezas, mas entre a coragem de buscar respostas, ou a covardia confortável da inação e silêncio ante cada pergunta a ser feita.

jeff

*Nosso convidado Jefferson Andrade, por ele mesmo:

“Quem sou eu? Essa é a grande pergunta que, acredito eu, todos os grandes filósofos, que preocuparam-se com o ser individual, tentaram responder. Não sou grande, nem filósofo stricto sensu, portanto não tenho obrigação nem de tentar. Clássico curitibano apaixonado pelo guaco, roll-mops e o Coritiba Eterno, com extrema coerência em todos os meus gostos, como Chico Buarque e Slayer, Pink Floyd e Pena Branca e Xavantinho. Comunista, boêmio aposentado, trabalhador comum, apaixonado pelas palavras, ou mais pelos sentidos que trazem. Alguém que prefere assistir à TV Justiça, do que Domingão do Faustão, mas apenas se for obrigado a assistir TV aberta. Pai, antes de qualquer coisa. Fascinado pela espécie humana, pelo mundo, pela vida e pela mulher, razão da existência de tudo.”
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Categorias: Reflexões | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “A dúvida do futuro, ou a certeza do passado

  1. Esse tema é decisivo. A relação entre a dúvida e a certeza. Continue escrevendo e estudando sobre isso. Parabéns pelo texto. Ontem conversei com uma grande amiga que disse estar esse tema no centro dos estudos da Cabala e falei para ela que esse tema também estava no centro dos estudos de pensadores emblemáticos do século XX, tais como Gilles Deleuze e Félix Guattari e Derrida. Para não falar de Nietzsche que mergulha de asa delta em um despenhadeiro de desconstruções em séries, e afirma: “não me sigam”…risos…abç.

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