Em tempos de Fru-fru…

histerica

Um alvoroço geral! A rodada derradeira(?!). Tá lá um corpo estendido no chão! Uma pisada na bola daqui, um jogo escondido de lá… Fez-se a cera e, enfim, encerado ficou o campeonato! E a notícia estampada, alimentada, retroalimentada, requentada e servida de bandeja, com e sem firula país afora!

Não, não pretendo esmiuçar debates STJDescos, sob a batuta do pueril sr. Zveiter, sobrenome de largo vínculo politiqueiro, no sentido mais chinfrim possível que se possa atribuir a esse termo. Então, noves fora a discussão parafutebolística envolvendo os rumos do campeonato brasileiro de futebol jurídico, evento-instituição de unidade e inconteste identidade nacional, marcações cerradas aa parte, tratemos dos efeitos midiático-societários do ludopédico ópio do povo.

A notícia/informação mais veiculada da semana parece ter se referido ao que se rotulou denominar 39ª rodada do Brasileirão [cabe informar aos desavisados que o campeonato consiste de 38 rodadas em disputa] e suas consequências, claro. Piadas em ritmo vertiginoso! Afinal, o espírito brasileiro de afeição ao balípodo, incorpora invariavelmente a jocosidade e fanfarronice, inscritas no código genético do aficcionamento pelo referido esporte. Falando sem firula, faz parte.

futebol alienação

Nessas horas, sempre há quem conclame a “suprema alienação” do futebol. No mesmo dia em que se institucionalizou a modalidade de bullying popular contra os tricolores, os indígenas, mais uma vez, eram massacrados pela truculentíssima polícia do desgovernador Cabral, que impunha mais um gol contra no cruel jogo de vida e morte dos povos nativos- de tímida e cada vez mais diminuta torcida- jogando duríssimo nessa massacrante disputa.

E o patrulhamento ideologicamente correto entra em campo: futebol é alienação!

futebol alienação 4Será preciso chutar o gosto pelo esporte bretão pra escanteio? Penso e torço pra que não. Repetindo uma ideia que nada tem de nova, o futebol arraigou-se aa alma brasileira, fazendo-se presente em nossa cultura de forma universal: do linguajar desavisado- mesmo dos futebolófobos- até o acompanhamento diuturno e acrítico de todo o mercado, em forma de caixa preta, amplíssimo, inda mais in terra brasilis. Somos incomensuravelmente mais do que futebol, mas também o somos, sem dúvida.

Ah… o doce e sábio poder de se dizer do que se deve gostar ou não.

Não gosto de telenovelas. Sequer sei o que nelas acontece e me sinto um tanto alienado em épocas de capítulos finais ou mesmo quando percebo a circulação desenfreada de piadas que possivelmente sejam oriundas deste contexto noveleiro. Mas, óbvio-claro-evidente, reconheço o profundo papel cultural delas, há uns 150 anos, desde os folhetins românticos, pra constituição, pro bem e pro mal, duma série de características daquilo que denominamos Brasil.

Futebol, telenovelas, religião, cerveja… tudo isso e um pouco mais pode servir de meio de alienação, ora. Em verdade, tudo aquilo que se populariza pode cumprir essa função. Me parece um pouco arrogante e muito usucapião da verdade dizer o que se deve ou não apreciar, vivenciar, permitir-se paixões exasperadas!

Censurar a paixão é ignorar que a indignação, sua contraparte, é matéria-prima de transformação. E viver paixões, com a inexpugnável marca do arrebatamento, é enfim viver, mesmo num mundo de tanto desviver, em que tanto se silenciam impulsos vitais, sejam sopros ou vendavais.

O que aliena é inconsciência social. Essa é forjada de dentro pra fora e também de fora pra dentro e se valerá do futebol, da religião, de qualquer instrumento ao seu alcance. Não há contradição- ao contrário do que intui o senso comum futebolófobo- entre se devotar a um time de futebol e viver ativamente uma experiência de ativa participação social. O pensamento em contrário a esse acaba por ser bem próximo ao da subestimação  de quem delineia dominações. Bola fora!

Penso, inclusive, que num momento em que o futebol se apresenta como oásis do capital é bem oportuno à conclamação de indignação gestada de paixão.

moneydestroyedfootball 2

Não é uma equação matemática, claro. Mas, também não é o desprezo aa Lima Barreto pelo futebol; até porque Lima tinha, naquele momento, todo o sentimento de rejeição ao que considerava uma imposição estrangeira. Mas, se se quer conclamar mudança e conscientização social, não há de ser pela via duma arrogância nefelibata de quem prefira tirar o time de campo aos dribles, com todo o risco que envolvem, do dia a dia.

Parafraseando Brecht, privatizaram tua paixão, tua diversão, teu estádio…

Privatizado (Bertold Brecht)
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento,a sabedoria,
o pensamento,que só à humanidade pertence.

Por fim, se o futebol serve como campo fértil até pra expressão poética em alto nível, quem seremos nós para o escantearmos?

Em tempo, não nos esqueçamos que o índio teve que ir pra copa na luta pra não ter Copa, luta que não é antifutebol, mas anticapital mesmo. Dialética sempre, também no campo das paixões.

índio na copa

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Categorias: Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Em tempos de Fru-fru…

  1. Luiz Constantino

    Excelente!

  2. Valeu, Luizinho! 😀

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