Grinch

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Certo dia, incerto como tantos outros, o Menino desce as ladeiras. Chinelos surrados revelam dedos sujos de barro e quilômetros. Pelo caminho, vitrines anunciam o Natal, oferecendo os mais surpreendentes produtos. Os olhos do Menino grudam-se nos lindos brinquedos que se movem, acendem e tocam músicas. Sobrou o desejo na obrigação de continuar o caminho.

O semáforo está lá, mudando suas luzes sem nada mudar. O automóvel desacelera e para ante à luz vermelha. No banco de trás, a Criança olha para o Menino que rapidamente joga água no vidro do carro, mesmo diante das negativas advindas de trás do volante. O vidro se abre até a metade e, com pouca satisfação, caem duas moedas na mão do Menino. A luz está verde. O veículo acelera.

Pai, por que você deu moedas ao Menino? Porque é Natal, meu filho. Mas, o que ele fazia na rua, estava brincando? Não, meu filho; há coisas que você ainda não entende. Eu vou ganhar moedas também no Natal? Claro que não, meu filho! que ideia! você não precisa de moedas. O Menino precisa? Filho, não pense mais nisso; damos moedas porque é Natal, para fazer o bem para as pessoas.

Depois de o sol baixar, o Menino volta para a casa, namorando as mesmas vitrines, agora iluminadas por luzes multicoloridas. No bolso, poucas notas e um punhado de moedas. Já é véspera para todos e o Menino só faz esperar um milagre.

Na manhã seguinte, a Criança corre para a sala e percebe que a magia do Bom Velhinho ainda vive: seus desejos expressos em uma cartinha materializaram-se e ele se diverte com os lindos brinquedos que recebeu. A mesa ainda repleta de fartura do dia anterior serve de cenário à felicidade que se estampa no olhar do pai ao ver sua Criança contente. Em paz, sente-se como se não houvesse problemas.

No outro lado da cidade, o Menino acorda e olha para os cantos do único cômodo de onde vive. Não encontra nada de especial. Sua mãe reclama da féria que o Menino trouxera no dia anterior. Na mesa, um ralo café combina-se a um pão dormido com pouca margarina. Como em qualquer outro dia, o menino calça seus chinelos e vai em direção ao semáforo.

Onde está a Magia? Não vai tudo dar certo? Não. Acabou assim mesmo. Só para lembrar que a farsa natalina só existe para alguns. É a semana em que percebemos que somos humanos e temos bondade no coração. Mas apenas para alguns escolhidos. Enquanto isso, o mundo continua a girar suas mazelas. Boas Festas.

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Categorias: Sociedade | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Grinch

  1. Tatiana

    Nunca li um texto tão cheio de amargura e de rancor…. Nossa! Que coisa mais pesada, mais forçada…. Há crianças que nada material têm sim, e que são pobres; mas há crianças que nada têm, ou pouco têm, em termos sentimentais, mas que são ricas. Tudo depende do que chamamos de “ter”. Há pessoas que acham que “ter” é material: carro, computador, celulares, apartamentos, motos, dinheiro e dinheiro….. Outras acham que “ter” é sentimental: ter carinho, ter afeto, ter harmonia, ter alegria, ter felicidade…. ter paz interior.
    Tudo vai depender do conceito do que é “ter”. Fato que nem todas as crianças têm a oportunidade de ganhar brinquedos, ou quaisquer outras coisas que tenham pedido na cartinha ao Papai Noel; entretanto, pode ocorrer de as mesmas crianças que ganham tudo isso , ao mesmo tempo, não terem afeto, não terem carinho, não terem presença familiar…. TUDO é relativo . E o que seria ‘”dar certo?” É o ter material? Ou é o ter sentimental? Ou é o ter tudo? E dar errado é não ter nada? Às vezes, não ter nada também é ter tudo. TUDO É RELATIVO. Radicalismo não levam a lugar algum. Natal pode ser magia para algumas e dor para outras crianças….. assim como o dia a dia pode ser magia para umas e um fardo para outras crianças…… independente de toda proteção e apoio que o entorno dê.
    A mãe que dá todo seu pão ao filho e passa fome é equivalente àquela que dá todo seu afeto ao filho e tenta, por si só, cumprir essa função. TUDO É RELATIVO.
    Todos somos “escolhidos”, só que para temas diferentes e dependendo do tema, somos escolhidos para sofrer ou para sermos felizes. As mazelas sempre existirão…. seja no Natal, nos aniversários, nos carnavais, nos campeonatos esportivos, nas festas de Páscoa, no dia dos Pais e no dia das Mães, no dia dos Avós… enfim…. a carência de um menino que pega dinheiro no sinal pode ser tão ruim como a carência de um menino que não tem pais presentes ou de um menino rico que ficou órfão. TUDO É RELATIVO. Natal não é farsa. Farsa é humana. E essas máscaras acontecem em quaisquer momentos ao longo do ano! Não é uma exclusividade do Natal! Boas Festas!

  2. Pingback: Um golpista chamado Noel | transversos

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