Um golpista chamado Noel

I

Não, não me refiro ao poeta homônimo da Vila, o Noel Rosa… A questão aqui diz respeito a seu xará, de renome internacional.

natal- noel rosa

O Natal, tal qual o vivenciamos em nossa sociedade, para além da concretização já sabida e inconteste do consumismo, é uma cabal demonstração dos níveis de autoritarismo com que lidamos. Ora, desde muito antes da Simone, sabemos já que essa é a “festa cristã”, suposto período de bondade e elevação do espírito humano. Uma aliança de sucesso entre igreja e capital!

natal- consumoPersonagem híbrido, nascido desse temeroso confluir de valores é o tal Noel, dito papai. Chamado “Pai Natal”, em vários lugares, como Portugal, França, Inglaterra; “Homem do Natal”, em outros; no Brasil, a denominação “Noel”, origina-se de influência francesa, língua na qual a palavra significa “natal”; já o “Santa Claus” estadunidense parece ser uma evolução fonética de “Saint Nicolau”.

A lenda e a própria caracterização do pretenso bom velhinho associa-se aa figura cristã de Nicolau Taumaturgo, bispo na Turquia, no século V, que ficou conhecido pela suposta ajuda que oferecia aas pessoas pobres.

natal- nicolauA associação entre São Nicolau e o velho Noel teria ocorrido no séc. XVIII na Alemanha. Talvez a partir do ponto de vista alemão tenha nascido a versão de sua residência, ora relatada como polo norte, ora como Lapônia, na Finlândia. É verdade que de nosso ponto de vista tropical, essas localizações soam como sinônimas; mas, enfim, são duas versões. A cor vermelha foi fruto de uma peça publicitária bastante exitosa da Coca-Cola, no século passado. Antes, a cor de Noel era o verde, típica de duendes- elemento mítico que sabe-se lá como veio parar nessa história- os subalternos, anônimos e despersonificados “ajudantes”, denominação mimosa dada aa relação de mais-valia mantida por Noel, em sua megaempresa, propagandeada como “oficina”.

natal- nicolau 2natal- coca

Desde a Coca-Cola, Noel passou a ser garoto-propaganda de uma infinidade de produto, maximizando sua fortuna.

Desde a Coca-Cola, Noel passou a ser garoto-propaganda de uma infinidade de produto, maximizando sua fortuna.

É desse contexto setentrional que vem também as 8 ou 9 renas, acrescentando a rena mutante do nariz vermelho (indício da associação de Noel aa pesquisa genética não autorizada) : Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago. Há de se atentar pra possibilidade não declarada de maus tratos a animais, afinal o esforço pela ruptura da gravidade, planeta afora, conduzidas pelo inclemente chicote do volumoso Noel, não parece ser uma condição boa, certo?

Também parece advir das terras glaciais  o elemento da chaminé. Em muitas moradas, em regiões de gelo eterno, a entrada das casas, similares a iglus, era por cima.

Voltando ao autoritarismo inerente aa celebração do natal, vejamos: o marco do suposto nascimento de Cristo, a imposição da celebração a toda a sociedade, inclusive, comercialmente, a uma larga fração da humanidade sem referenciais na cristandade, mas alcançada pelo mencionado entrelaçamento capital-cristianismo embasando o tal natal.

Outra questão que me intriga é o parâmetro de bondade, como critério aa presenteação- referencial máximo de consumo- das crianças. Ora, sabedores que somos das questões sociais, bem demonstrado pelo meu compa de blogue Walace Cestari, em seu texto de anteontem Grinch, penso cá eu se, na lógica de sustentação dessa historinha, as crianças presenteadas são tidas inerentemente como bondosas e comportadas e as que não o são, por extensão, como não bondosas, há, da parte do velho Pai Natal, um critério descarado de crivagem socioeconômica que penaliza os mais pobres e enaltece os mais afortunados, acentuando a divisão e estratificação social, além de rotular comportamentos quanto mais ligados ao status quo de mais adequados? Esse Noel…

natal- exclusãoAssustadora a face despida do “bom velhinho”, não?

natal- assustador

É assim que no tal natal se renova e fortalece, democraticamente, o critério mor de cidadania de nossa sociedade: o poder de consumo; quanto mais se o tem, mais respeitado, bem avaliado, incluído se é. Até a vida vale concretamente mais com mais poder de consumo. E o natal rende, pasmem, cerca de 30% do faturamento anual, só no setor lojista!

Uma última questão apoquentadora é por que há institucionalizada a mentira sobre esse tal velhinho presenteador somente para ser constatada adiante como inverdade? Qual é a necessidade de se criar essa lenda? É um primeiro pacto tácito em prol da farsa encobridora da face amarga do consumismo e de toda sua inerente desumanização? Ah, a irresistível magia do natal… A celebração aa bondade caridosa (e há quem julgue a caridade nobre gesto!), compensatória dos demais desvalores que nos estruturam.

natal- mamãe noelMas, pra não soar muito ranzinza, preciso reconhecer aqui o espírito bonachão ho-ho-ho do velhinho supimpa. Além disso, aquele que, possivelmente, é o traço mais meritório de Noel: ser gordo! Em tempos de geração saúde, de ditadura do corpo, ter um Pai Natal ainda gordo é um polo de resistência aa cultura lipofóbica circundante. Deve ser porque, afinal, é tudo mentira mesmo…

Ah, apesar de tudo, ele e o próprio natal têm a cor “certa”…

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II

Há uns anos, conheci o texto abaixo pela net. Desde então, considero-o um clássico, de leitura obrigatória, sobre o natal.

Papai Noel do ponto de vista da física

[Thiago Seixas, http://thiagoseixas.wordpress.com/2007/12/20/papai-noel-do-ponto-de-vista-da-fisica/, em 20/12/07]

Me perdoem por revelar isso… mas acho que vocês já estão na idade de saber… se preparem para a verdade:

Existem aproximadamente dois bilhões de crianças (pessoas com menos de 18 anos) no mundo. Porém, como Papai Noel não visita criança das religiões muçulmana, Hindu, Judaica e Budista, isso reduz o trabalho na noite de Natal para 15 % do total, ou 378 milhões de pessoas (de acordo com o Bureau de Referência de população). A uma taxa média (censo) de 3,5 crianças por lar, tem-se um total de 108 milhões de lares, considerando que haja pelo menos uma criança boazinha em cada lar.
Papai Noel tem cerca de 31 horas de Natal para trabalhar, graças à diferença de fuso-horário e à rotação da Terra, considerando que ele viaje de leste para oeste (o que parece lógico). Isso resultaria em 967,7 visitas por segundo, e significa que, para cada casa cristã com uma criança boazinha, Papai Noel tem cerca de 1/1000 segundo para estacionar o trenó, saltar, pular na chaminé, encher as meias, distribuir os presentes restantes sob a árvore, comer algum lanche que tenha sido deixado para ele, subir de volta pela chaminé, entrar no trenó e ir até a próxima casa. Considerando que cada uma das 108 milhões de paradas esteja distribuída uniformemente pelo mundo (o que, naturalmente, sabemos ser falso, mas será aceito para fins de cálculo),estamos falando agora de aproximadamente 1,25km por casa – uma viagem total de 121,5 milhões de km, sem contar idas ao banheiro e descansos. Isso significa que o trenó do Papai Noel move-se a uma velocidade de 1.046 km/s – 3.000 vezes a velocidade do som. Para fins de comparação, o veículo mais veloz já construído pelo homem, a sonda espacial Ulisses, move-se a acanhados 44,1 km/s, e uma rena normal pode correr a 24 km/h (no máximo). A carga útil do trenó representa um outro elemento interessante. Considerando que cada criança não receba nada mais que um Lego médio (907g), o trenó levaria mais de 500 mil toneladas, sem contar o peso do “bom velhinho”. Em terra, uma rena normal não puxa mais que 136 kg.Mesmo admitindo que renas “voadoras” pudessem puxar dez vezes o normal, o serviço não poderia ser feito com oito ou nove delas – Papai Noel precisaria de 360.000 renas. Isso aumentaria a carga, sem contar o peso do trenó, mais 54 mil toneladas, ou aproximadamente sete vezes o peso do Queen Elizabeth (o navio, não a monarca). 500 mil toneladas viajando a 1.046km/s cria uma enorme resistência do ar isso aqueceria as renas da mesma maneira que uma nave espacial ao reentrar na atmosfera da Terra. O primeiro par de renas absorveria (14,3×10 elevado a 19) joules de energia por segundo. Em resumo, elas explodiriam em chamas quase que instantaneamente, explodindo as renas atrás delas e criando estrondos sônicos
ensurdecedores em seu rastro. Todo o conjunto de renas seria vaporizado em 4,26 milésimos de segundo, ou quase quando Papai Noel atingisse a quinta casa em sua viagem. Porém, nada disso importa, pois o Papai Noel, com a aceleração resultante de uma parada brusca a partir de 1.046 km/s em 0,001 segundo, estaria sujeito a uma força de 17.000 G’s.  Um Papai Noel de 113 kg (que parece ridiculamente magro) seria imobilizado no fundo do trenó por 1.957.258 kgf o que esmagaria instantaneamente os seus ossos e órgãos, reduzindo-o a uma bolha trêmula de meleca pegajosa cor-de-rosa.

Conclusão: Se Papai Noel existiu, ele já está morto.

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III

BOAS FESTAS!

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