Aldeia Maracanã: “Porque eu odeio esse lugar”

1385354_417301765037640_396961149_n
E o absurdo continua. Mesmo com nova ordem judicial, reafirmando o manejo da Aldeia para os indígenas, os seus legítimos moradores, a tropa de choque se recusa a desocupar o local. Semana passada, a entrada da Aldeia foi transformada em estacionamento para as motos do choque, em uma provocação deliberada e sem sentido tático algum (e também uma bela antevisão do que a Odebrecht pretende fazer com o local em substituição à planejada universidade indígena). Agora, essa provocação continua, tendo as onze motos do choque sido substituídas por diversas picapes do mesmo Batalhão.

No dia 23, véspera do natal, os policiais de prontidão “autorizaram” os moradores a entrarem, um por um, sempre acompanhados pela polícia, para recuperarem seus pertences. Foi aí que o pesadelo de muitos começou. A primeira moradora a entrar, a militante indígena Carolina Reis, retornou do tour completamente indignada. O que ela descreveu foi um cenário de destruição: as barracas haviam sido inutilizadas, as roupas de todos haviam sido queimadas ou rasgadas (inclusive as das crianças), assim como a cozinha e a parte elétrica da casa, depredadas. A moradora da Aldeia, inconformada perante a depredação e a perda de todas as suas coisas, perguntou ao policial que a acompanhava: “Por que vocês fizeram isso?”. A resposta dele veio a cavalo: “Porque eu odeio esse lugar”. Tudo que foi descrito por Carolina pôde ser verificado em um vídeo feito logo em seguida, por Zé Urutau Guajajara, a segunda pessoa a entrar na Aldeia aquele dia:

A terceira pessoa a tentar entrar não conseguiu. Foi outra militante, mulher e nova, que ouviu de um policial, ainda na entrada da Aldeia, algo como “Pode entrar, gostosa, que eu vou te comer”, o que causou indignação generalizada. O advogado indígena Arão Araújo nesse momento não se conteve (perfeitamente compreensível) e iniciou um conflito verbal com os animais do outro lado da cerca. Enquanto isso, as poucas pessoas do lado de fora começaram a distribuir arco e flechas simbólicos. A tensão aumentou muito após a ameaça de estupro que a militante sofreu de um agente público, em público, e até onde sei ninguém mais entrou. Ela própria, é claro, desistiu, após ouvir isso, de entrar em um casarão com mais de dez policiais dentro.

Além desses relatos, uma oca construída nos fundos da Aldeia foi posta a baixo e uma subversiva horta comunitária, para aulas de agricultura familiar urbana, também foi destroçada pelos policiais. A biblioteca da aldeia, que se constituía em umas dezenas de livros voltados para os projetos educacionais lá desenvolvidos, foi rasgada. E nós é que somos vândalos! Se somos vândalos, eles são bárbaros.

“Aonde você vai cair hoje?”

Mas por que todo esse ódio? De onde vem toda essa raiva direcionada contra pessoas que não têm sequer onde morar? Em uma resposta simplista, isso pode se dever a uma estratégia. É a mesma lógica que leva esses policiais a queimarem cobertor de mendigo, roubando do pobre a sua própria pobreza: é expulsar para que não voltem. Existe algum raciocínio brilhante por trás desse tipo de operação, que torna todas essas remoções idênticas em qualquer lugar do Brasil, que diz algo como “destrua todo o pouco que eles têm, que assim eles não voltam”.

A pergunta que mais se fazia entre os moradores era onde cada um passaria a noite. Aquelas barracas eram tudo que muitos tinham na vida. Assim como durante parte da vigília semana passada (também registrada neste blog), tudo isso se deu ao largo do movimento de fim de tarde ao redor do Maracanã, com centenas de pessoas passando, fazendo cooper ou andando de bicicleta, fingindo não ver o que estava acontecendo, que é a postura da maioria, infelizmente. Olhar para o lado e fingir não estar vendo.
Sei que esse é um relato repetitivo. Que isso acontece inclusive de maneira muito mais trágica, embora nas mesmas molduras, em diversos lugares. Foi muito pior no “Massacre de Pinheirinhos”. E nem é preciso ir tão longe, nem recuar no tempo. Neste exato momento, ocorrem remoções ainda mais violentas na zona oeste do Rio, e sabe-se lá onde mais. Mas em razão de um desolador sentimento de impotência, o que posso fazer é compartilhar esta narrativa, que, se nenhuma outra, tem ao menos a virtude de ser de primeira mão. É o que posso, dentro das minhas modestas possibilidades, fazer.

Obs.: Não lembro mais quem eu ouvi dizendo isso, porém, faz sentido: “Se tem uma conversa que não entendo é esta do ‘orgulho de ser brasileiro’. Não tenho orgulho nenhum desse país mau, que trucida as pessoas. Quando a exploração do homem pelo homem chegar por aqui, vai ser um avanço. O que temos por aqui até hoje é a aniquilação do homem pelo homem”.

Obs.2: Até hoje, 25/12, nada foi resolvido. Os militantes permanecem acampados em frente à Aldeia, e precisam de doações de comida e água. Quem puder dar algum suporte, por favor, dê uma passada por lá.

Carolina indignada: até as roupas de sua filha de dois anos foram destruídas

Carolina indignada: até as roupas de sua filha de dois anos foram destruídas

Anúncios
Categorias: Política | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: