Lá se foi o Natal…

Natal

 

Ok, ok, já sei que outros deuses, entre eles o Isaac Newton, também fazem aniversário na data. Já sei que há todo um questionamento relacionado ao consumismo. Já sei que muitos dos enfeites de Natal são de uma cafonice assombrosa. Na portaria do meu prédio, colocaram um boneco de neve inflável que fica numa bolha em que se movimentam flocos de neve. Aff… Socorro!!! É de dar medo!!! Ano passado tentei deixar minha varanda iluminada. Algumas luzes piscavam, outras mantinham-se acesas todo o tempo, fora as que queimaram. Este ano desisti. Melhor apreciar as varandas alheias. Ou depreciá-las também, o que é de extremo valor.

Fora todas as caixinhas possíveis, do leiteiro, do padeiro, do porteiro, do carteiro, do lixeiro… A instituição da caixinha é algo tão sério, que a lista do prédio não é mais preenchida uma linha abaixo da outra, assim que os moradores colaboram. Não!!! A lista está nominal por bloco e apartamento, ou seja, ainda dá para ver se seu vizinho colaborou ou não e com quanto.

Consegui ser bastante antipática – era o meu sonho – e escapei de absolutamente todas as confraternizações profissionais de fim de ano. Havia, pelo menos umas três, mas (nada contra as pessoas) o que eu queria mesmo era um certo recolhimento, um esvaziamento mental após tanto tempo dedicado à tese.

Quando eu era mais nova, o Natal era diferente. Nunca imaginei que minha mãe fosse a maior responsável pelo sucesso de nossas festas de fim de ano. Logo ela, tão briguenta. Lembro da mesa farta, da casa enfeitada (com as cafonices habituais, sem dúvida). Lembro do primeiro ano em que comprei uma máquina fotográfica e não queria fazer os registros dos momentos com aquelas paredes de alvenaria sem emboço. Aí, na falta de outra coisa, cobri tudo com papel pardo. Hoje acho que teriam sido melhor os tijolos à mostra. Poderia dar um ar rústico.

A casa era invadida repentinamente por amigos do meu pai e dos meus primos, pelos meus poucos amigos, em busca de um abraço em troca de alegria. Feliz Natal para todos! Rabanada, peru, Sidra Cereser, Cantina da Serra, sangria. Dentes roxos. Frutas enfeitando a mesa. Pai fazia os recortes no melão e na melancia. Também era ele quem quebrava as nozes, as amêndoas, as avelãs.

Hoje minha mãe, com quem eu não consegui construir a afinidade com que sonhava, não está mais por perto para reclamar do trabalho e continuar bolando receitas culinárias de fim de ano. As paredes estão finalizadas, mas ela nunca teve o prazer de vê-las assim. Meu pai já não corta as frutas, já não quebra o que é duro para nos dar o recheio. Fogem-lhe as forças da juventude. Operou catarata, colocou um stent.

Não sei precisar o momento em que meu Natal passou a ter outra conotação. Meio triste talvez. Mas sei exatamente quando recuperou o que há de simbólico para mim. Com manifestações de alegria, companheirismo, união: há três anos graças às amigas, com quem dividi a data junto à família de uma delas e, nos dois últimos natais, em que tive o prazer de estar com a família do meu amor. Voltei a achar graça. Parece-me que, entre a morte da minha mãe e o Natal de 2010, houve um grande hiato. Nenhuma culpa daqueles que me cercavam, mas de uma certa tendência interior inconfessada de perceber ausências.

Para mim agora, o verdadeiro nascimento é o que se realiza no cotidiano e se estende para fazer da data mais um motivo de celebração da vida.

Boas celebrações a todos!

 

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Categorias: Reflexões | Tags: , , , , | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Lá se foi o Natal…

  1. Daniella Reis

    PERFEITO ALINOCA!

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