Acabou o champanhe

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Sou, por princípio, contra balanços de fim de ano. Sou assumidamente um dos chatos da astronomia, que de maneira geral não entende todo esse alvoroço em torno à passagem do planeta por um ponto aleatório qualquer do sistema solar, mas realmente este ano foi ao mesmo tempo incrível e nefasto. Ano estranho, ano rápido. Mudaram muitas coisas no mundo, mudaram muitas em mim, em ambos os casos tanto para pior quanto para melhor.

Foi o ano em que decididamente voltei a escrever. Sem firulas, digo logo, meu maior talento, e aquele no qual devo mesmo investir. Tem tanta gente medíocre com coluna em jornal e em revista, publicando livro, sem ter nada a dizer e sem talento nenhum. Eu tenho. Ambos. Com tudo que eu trabalho, cuidando de filha e com todas as obrigações que todo mundo tem em uma vida adulta, não foi um processo fácil, e considero uma grande vitória o esforço que empreendo para escrever todas as quartas-feiras em um blog, para retomar o meu livro (parado há séculos) e para preencher outras funções. Esforço que me demanda um tempo que, infelizmente, muita gente próxima a mim não consegue entender. Pois preciso disso para respirar, para ser feliz e para voltar a ser quem eu sou, quem eu sempre quis ser.

Foi também o ano em que voltei de sola à militância, que andava meio parada nos últimos anos, não apenas devido às já citadas imposições da vida adulta, mas também devido à falta de motivação para me comprometer mais a fundo com qualquer projeto político, uma vez que todos estavam, de um jeito ou de outro, adormecidos, deturpados, traídos, domesticados  ou apenas nem sequer mais existiam. Atendi ao chamado das ruas e mesmo com todos os erros, todas as limitações e todas as críticas que eu próprio faço aos eventos e movimentos que se formaram este ano, tenho um imenso orgulho de ter estado na frente dessas “barricadas” e de ter feito parte disso, tanto quanto possível, a despeito de trabalho, de projetos pessoais e etceteras. A minha vontade era estar presente em cada ocupação, em cada protesto, de morar em cada uma das barracas, enfim, de ter testemunhado plenamente todos os eventos que se deram desde o início das chamadas “jornadas de julho”. Queria que tudo isso tivesse ocorrido quando eu tinha menos de 30 anos, quando eu poderia ter me dado mais. Invejo, assim como admiro profundamente, todas as pessoas que estiveram desde o início à frente desses processos.

O corolário infeliz de tudo isso foi a escalada da repressão. Em termos de memória pessoal, não tenho lembrança de período mais sombrio do que este que vivemos. Não sou dos exagerados e sem noção de história que dizem “está pior do que ditadura militar”. Não está. Graças a deus. Porém, é nítido que a chamada democracia burguesa está dando sinais de endurecimento. A invasão estúpida, ilegal e violenta da Aldeia Maracanã agora em dezembro é uma evidencia sólida disso. A polícia invadiu, a mando da Odebrecht e do governo nazifascista do Sérgio Cabral, a Aldeia, e desalojou seus ocupantes, mesmo a despeito de uma ordem judicial garantindo aos indígenas e aos ocupantes o manejo daquele território. Na democracia burguesa, uma ordem judicial é uma ordem judicial. Quando o executivo atropela decisões do poder judiciário, isso revive lembranças recentes e funestas. Isso, sim, remete a tempos de ditadura. As prisões arbitrárias também. Assim como a lei contra os mascarados e a lei endurecendo contra os manifestantes, aprovada às pressas durante o governo da ex-vândala Dilma. O Brasil é uma grande democracia, contanto que você não seja pobre. Nem negro. Índio, então, de jeito nenhum. Homossexual ainda vai, se você for discreto e ninguém ficar sabendo, ou se você for estereotipado e ridículo. Mas, sobretudo agora, o Brasil é a melhor das democracias se você ficar em casa vendo jornal nacional e achando tudo ótimo. Sai pra rua, que você pode ser preso, pelos crimes inomináveis de porte de máscara, ou de “porte de escadaria”, como definiu Renato Cinco em discurso recente na câmara dos vereadores.

 

Xxxxxxxx

Como já disse, sou dos chatos da astronomia e blá e blá e blá. Infelizmente, escrevo este texto, mais uma vez, atropelado pelos fatos. Enquanto tento brincar em paz, com minha filha, depois do meu exaustivo de trabalho, acompanho as remoções na Mangueira. O ano passado não terminou. O ano passado dura, na verdade, há décadas, quiçá séculos. Ele voltou, em pleno janeiro, rápido e assustador, igualzinho a quando o deixamos em dezembro. Boa copa das remoções para todos.

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