Pedrinhas no sapato

Pedrinhas

No beco escuro explode a violência. Até porque há muito pouca claridade em qualquer parte. A Capitania Hereditária do Maranhão entrou no mapa do mundo manchada de sangue. As cabeças sem os corpos foram mostradas por todas as câmeras sensacionalistas do país. Corta para a dezoito. Dá um close bem ali onde está o sangue. Mas não, dessa vez não foi exagero da imprensa. Dessa vez foi exagero de descaso. A culpa, no fundo, é mesmo de todos nós.

O que mais envergonha são as desculpas sem-vergonha. A donatária desta Capitania, representante do clã dos Sarney, teve ainda a petulância de afirmar que a violência aumenta por conta de o Maranhão ter ficado mais rico. O pai havia louvado, dias antes da explosão de violência ganhar as ruas, que os problemas se restringiam aos presídios. Como se presos não fossem gente, como se lá houvesse a permissão para matar e torturar qualquer detento. Ah, como seria mais feliz nascer ignorante. Ou surdo. Melhor que ouvir tamanha bobagem de pessoas que ocupam cargos de comando em seus respectivos feudos: o Maranhão e o Senado.

Perdem-se cabeças e corpos por conta do que realmente somos. Hoje, quando se fala em direitos humanos é apenas uma oportunidade para que uma parte da imprensa faça a média com organismos internacionais, já que nada noticiam ou opinam sem a existência de uma pressão estrangeira. Ou, por outro lado, os direitos humanos servem como base para que inúmeros programas de tevê – coloquem inúmeros nisso! – possam distorcer a realidade, apregoando as maiores atrocidades sob a ideologia, antiquíssima, de “bandido bom é bandido morto”.

Nessa linha – que parte da sociedade abraça com extrema facilidade – colocam-se os direitos humanos como algo que serve apenas para proteger bandidos, ao passo que as “pessoas de bem” ficam à mercê da própria sorte. Em verdade, a segunda parte da afirmativa é ainda mais grave: a sociedade não fica desprotegida por conta de uma desassistência estatal, pelo contrário, as políticas implementadas – e apoiadas por esta mesma sociedade – contribuem diretamente na escalada da violência.

Prende-se demais no Brasil – claro que muito pouco aqueles que tem alvura no colarinho – e sem o menor critério. Nossas penitenciárias misturam detentos condenados por crimes hediondos com outros de infrações menores, com outros provisórios, com outros que até já cumpriram pena. O sistema carcerário é medieval, com atrocidades mil que ocorrem em nome de um poder que reina absoluto à revelia do Estado, baseado em corrupção e ameaças.

Entretanto, a sociedade em geral apregoa em seu senso comum que o sistema prisional deve ser exatamente o que é hoje: uma forma de retirar da sociedade os elementos que lhe são indesejados. De forma alguma se pensa na cadeia como uma forma de punição proporcional e ressocialização do indivíduo, mas tão somente um lugar para depositar alguém que já causou algum mal à comunidade e que deve ser impedido de voltar a ela.

Nessa ideia puramente de vingança social – matou ou roubou, apodreça na cadeia – depositam-se todos os comportamentos indesejados como se fossem o mesmo ou que merecessem o mesmo tratamento. Incentiva-se assim a revolta, a corrupção e os privilégios dentro de um sistema que está fadado a explodir. De dentro das penitenciárias, continuam os chefes das quadrilhas organizadas a comandar a série de ataques à sociedade. Tudo sob supervisão do Estado, já que o sistema proporciona inúmeras formas de pequenas e grandes corrupções.

Do lado de fora, a política de segurança pública em momento algum visa proteger os cidadãos. Existe uma polícia ostensiva, que age como cão de guarda dos interesses do político que senta na cadeira do governo. Interessada apenas em ser o outro lado da violência, combate fogo com fogo, sem se preocupar com quem possa se queimar. Falta inteligência à polícia, à política e, por último, a nós mesmos.

Reduzir a população carcerária, separar presos por sua periculosidade e dar condições para que as cadeias sejam locais de ressocialização, com algum retorno à sociedade, são medidas que, longe de proteger bandidos, previnem as consequências da violência na sociedade. O Maranhão de hoje é o Brasil de amanhã. Não são fatos isolados, frutos de uma incompetência governamental marcada pelo sobrenome. A genética, nesse caso, ajuda (ou atrapalha, como a semântica permitir), mas não difere de outras tantas capitanias hereditárias existentes no país. Talvez o grande problema seja o fato de que esses sobrenomes frequentem pouco o presídio, um lugar que lhes cabe historicamente.

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Categorias: Crítica, Sociedade | Deixe um comentário

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