Faltam guilhotinas em país onde sobra Maranhão

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Eu tinha prometido a mim mesmo (e a Ana Souto) escrever algo na linha do feminismo esta quarta, mas o assunto “Maranhão” me trouxe à tona algumas considerações que há tempos ando fazendo. Falar do Maranhão evitando termos como “feudalismo” é algo difícil de se formular. A indecência da licitação da lagosta e do “bacalhau de primeira qualidade” em meio a um escândalo de proporções dantescas, com uma população presidiária à beira do canibalismo, é muito mais do que algo simbólico ou uma representação “pitoresca” do que há de pior na política e na sociedade brasileira.

Os dados dos últimos anuários estatísticos do IBGE já rondavam minha mente há certo tempo. Lembro que quando eu era criança, o estado brasileiro sinônimo de abandono e miséria era o Piauí: terra onde coronéis se locupletavam em piscinas azul-caribe enquanto a população miserenta e flagelada se arrastava na lentidão da esquistossomose, tudo isso às custas dos desvios milionários de recursos da Sudene, teoricamente disponibilizados para obras de combate às secas. Esse cenário era mais ou menos comum a outros estados do nordeste, mas o Piauí, especificamente, apresentava os piores resultados em desenvolvimento humano do país (bem, não existia o IDH na época, mas já existiam os diversos índices que o compõem).

 

A vergonha de uma nação

 

Essa situação, no entanto, mudou, e não necessariamente em benefício do Piauí. O que houve foi a piora desenfreada nos índices de dois outros estados, que são respectivamente, segundo o IBGE, os dois que se revezam entre a pior e a segunda pior posição em qualquer um dos índices que tradicionalmente apontam o flagelo social  brasileiro: Alagoas e Maranhão. Você pode pegar, por exemplo, desnutrição infantil ou analfabetismo, e você verá que, quando o Maranhão é o pior colocado, Alagoas é o vice, e quando o Maranhão é o vice, Alagoas é campeão, o que leva qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade estatística à pergunta: afinal, qual é o problema desses estados? A questão fica ainda mais obscura quando lembramos que cada um deles produziu nas últimas décadas um presidente da república e ambos são “fornecedores” de alguns dos políticos mais influentes desta pobre e miserável Terra Brasilis. Os presidentes foram os indigníssimos José Ribamar Sarney, cuja carreira de poeta foi menos nociva do que a de presidente, embora igualmente infeliz, e Fernando Collor de Melo, cujas credenciais falam por si e dispensam apresentações. Além desses desinfelizes, Renan Calheiros, aquele que “rouba, mas devolve”, veio de Alagoas.

Sarney, além da presidência de triste memória, foi senador de maneira ininterrupta desde então, além de ter sido presidente do senado por quatro vezes. Ele, sua família e seus paus-mandados governam o Maranhão há décadas que pouquíssimos interregnos. Renan Calheiros, além de ser o homem que de fato manda em Alagoas, também foi presidente do senado, embora modestas duas vezes. Quanto a Collor, conta a mitologia política que a sua candidatura à presidência foi uma invenção do Renan, em uma viajem oficial durante o governo Sarney à China, em uma comitiva de uns trezentos políticos e empresários, enfim, em um “aviãozinho da alegria” desses que saem do aeroporto Juscelino Kubitschek de vez em quando (com tais bases, não admira o resultado).

Então, como dois estados que produziram figuras tão influentes no centro nevrálgico do poder decisório político encontram-se em tão más pernas? Não seria de se esperar que essas criaturas, ao menos, cuidassem dos seus próprios conterrâneos (ainda que apenas em busca dos cobiçados votos)? As imagens recentes de cabeças cortadas em presídios imundos e superpovoados demonstram impiedosamente que não. Então, como essa camarilha se perpetua no poder há meio século?

O que se passa é que a democracia brasileira é um fracasso. Não vale aqui a corroída tese de esquerda de que o povo é burro e manipulado pela Globo ou por quem quer que seja. Nem a de direita, que diz que o povo é burro e vota em bolsa família e etc. Enquanto não houver distribuição de renda e elevação mínima dos padrões de vida das pessoas (educação, saúde, a cantilena que infelizmente ainda somos obrigados a repetir), elas continuarão reféns de sistemas eleitorais farsescos e de currais que elegem crápulas que só agem em função dos seus próprios interesses, em detrimento dos da população. Fazendo uma comparação mais ou menos imprecisa, os lideres políticos desses estados são como esses Baratas e professores Washingtons da vida, que podem votar frontalmente contra os interesses da cidade na câmara dos vereadores do Rio de Janeiro, pois eles usam para se reeleger currais eleitorais controlados por milícias e, portanto, estão se lixando para a opinião pública. Por fim, sobra ainda a inescapável observação de que essas famílias Sarneys e afins têm um nível moral tão aviltante e são tão corruptas, incompetentes e irresponsáveis que elas levariam até a Suécia à falência.

Uma observação final, antes da guilhotina. A mídia parece, em momentos como este, ser contra o Sarney. Não é. Ambos têm um histórico repleto de favores um ao outro. Quando Tancredo Neves morreu e Sarney estava prestes a assumir, ele, Antônio Carlos Magalhães (ministro das comunicações de Tancredo, mantido por Sarney) e Roberto Marinho, em um almoço em Brasília, definiram toda a política de concessões da área de comunicação da década que se seguiria, favorzinho que, certamente, não foi esquecido.

 

Das vantagens da guilhotina

 

À medida que envelheço, torno-me cada vez mais romântico. Acredito cada vez mais que o que falta para mudar a história do Brasil é uma boa guilhotina. Uma guilhotina bem alta instalada, digamos, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, pode ter um poder de persuasão fora do comum. Acreditem, a guilhotina foi inventada como forma de humanização das execuções. A sua ancestral, a machadada nua, era um método falível. O carrasco podia errar o golpe, às vezes com consequências bem desagradáveis, dependendo do seu estado de embriagues (bem, se eu tivesse esse emprego, eu viveria embriagado), ou então ele podia ser “zarolho” mesmo. O machado podia, ainda, não estar afiado o suficiente. Todas essas imprecisões prolongavam desnecessariamente a agonia das vítimas, acarretando, muitas vezes, a necessidade de machadadas suplementares para concluir a execução. Pode-se dizer o mesmo sobre a invenção do cadafalso em relação ao enforcamento. Subindo aquela escadinha, o condenado tinha a certeza de que o peso do seu próprio corpo partiria o seu pescoço na queda, gerando uma morte quase instantânea em comparação com a lenta morte por asfixia do método tradicional (que podia chegar a se prolongar por cinco minutos). Fica a dica.

Obs., quem me der uma única boa razão para não pendurar o Sarney na ponta de uma corda ganha pirulito. Sem brincadeira, esse tipo de monstruosidade me faz sempre pensar que o número de pessoas que é preciso matar para mudar as coisas é muito menor do que o número de pessoas que morrem todos os dias para manter as coisas como estão.

 

 

Obra exposta no salão de arte de São Luís

Obra exposta no salão de arte de São Luís

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