Mudanças

Sim, disse ele, e mudou-se. Roupas, livros, discos e confiança no futuro. Já tinha feito isso antes, mas agora era diferente. Estava certo disso.

Sim, ouviu ela, e mudou. Desfez-se de velhas lembranças, ganhou espaço nos armários e nas estantes. Tinha confiança no futuro. E medo. Já tinha feito isso antes, mas agora era diferente. Estava certa disso.

Saberes e sabores reunidos até que noites massacradas pelos dias. Trovejavam por tudo e por nada. Mas sabiam-se amados, amantes, errantes e náufragos do amor possível e ferino.

Ela chegava tarde em casa. Às vezes não chegava. Ele apavorado esperava a notícia da desejada das gentes. Nunca veio.

Outros dias, outras noites, outros amores. Ele incomodado “a casa não é minha”. Ela incomodada “a casa sempre foi sua”.

Até que um dia a casa passou a ser mera propriedade e eles resolveram construir um lar.

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Categorias: Verso & Prosa | Tags: , | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “Mudanças

  1. Vc escreve muito bem mesmo. Vou tentar me inspirar em você para criar diálogos com teus conteúdos…risos…O que seria um lar? E outra, das tantas reflexões que vc arruma nesse texto “caixinha”: esse negócio de sexo, sexo feliz, satisfação sexual, fidelidade, sinceridade e contratos, é um assunto que a grande mídia só veicula mimimis, como diz meu irmão…risos…complicado! Adorei!

    • Aline Silva

      Oi, Dinah! Quanta honra receber um elogio seu. Vc é quem escreve bem além da conta. Estou há algum tempo com algumas inquietações sobre as relações que se estabelecem entre os casais a partir da ótica de quem é o dono/ a dona da casa e o quanto isso é um assunto nebuloso que arranha profundamente os amores. Foi a partir de algumas reflexões que estive empreendendo que resolvi escrever o texto. Não quis nada argumentativo, com receio de ficar com cara de autoajuda. Bjs.

      • Eu vejo os amores serem arranhados, a medida em que evoluem. A vida parece só funcionar com atrito. Se um amor fica ileso, sem polimento dolorido, ele parece estático, vazio, parado e corre o risco de despencar subitamente. Os polimentos se sucedem, à deriva e imersos nas crueldades dos tempos, dos modos de ver, de ser, de parecer. Os amores não dependem da realidade desses atritos constantes, nem de suas específicas séries de “tipos de atrito” (o atrito do bem e o atrito do mal). Cada amor vive uma série específica e única de “tipo de atrito” como se cada dupla de amantes fossem um caleidoscópio impar. Você nunca vai saber se um amor sobreviverá a um ou outro atrito, ou a uma série deles. O amor nunca será um lar: a casa da gente é onde moramos, simplesmente. O amor é sempre um inesperado rolézinho, a casa da gente é uma pedra polida infindas vezes, uma caverna cavada com as mãos, as pás de nossas delicadezas, medos, mazelas, fragilidades, E um fogo abanado constantemente iluminando a entrada. Precariedades, sempre. Eu, mulher, penso se vale a pena ter um homem desse modo, rolando embolado em mim, tanto tempo de vida, esse para sempre que demora para acabar, esse fim que me apavora. Nunca sei a resposta e, por enquanto, adoro quando ele me diz bom dia só com um olhar, como se fosse mais uma minúscula primavera antes do fim do mundo.

  2. Aline Silva

    Que lindeza de texto, Dinah! Mas, ao contrário de vc, sou dessas que acreditam que esse bom dia pode não ter fim, que essa primavera pode ser infinita e que vale a pena que meu homem esteja embolado em mim até o fim da vida. Desde que o pacto maior seja com a felicidade, mesmo sabendo que os arranhões são inevitáveis.

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