Dando um rolezinho

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O mundo é repleto de gente de todo o tipo e de todas as ideias. Confesso que acho muitas das coisas faladas e realizadas por seres humanos em geral absolutamente estúpidas. Entretanto, por mais que assim seja o mundo, as pessoas tem direito à estupidez. Sim, é livre o direito a ser estúpido.

E isso inclui uma série de coisas: programas de televisão, abertura de igrejas de fé duvidosa, criação de blogues (como este aqui, por exemplo) para tergiversar sobre os assuntos do mundo, gosto duvidoso para combinar roupas e cores que não combinam e por aí vai. Muitos vão imediatamente dizer que seria melhor que essas pessoas lessem um livro, mas, ainda assim, não haveria qualquer unanimidade: que livro? Que autor? De Paulo Coelho a Machado de Assis, passando por uma miríade de autores de autoajuda (viva o fim do hífen!), a quem cabe separar o que é idiota do que é genial?

Assim, somos todos potenciais vítimas de quaisquer rótulos. Meus autores prediletos, minhas preferências gastronômicas, meus divertimentos favoritos, tudo pode ser considerado simples idiotice e perda de tempo. Ok, tudo bem. Mas, pelo menos, resta-me a possibilidade de fazê-los. E, no fundo, é isso o que realmente importa.

Sonho em ver a juventude da periferia organizando-se para entender melhor a sociedade, perceber o quanto eles são vítimas da ideologia dominante e o quanto são impedidos de ampliar suas visões. Imagino grandes visitas a museus, a bibliotecas, uma explosão de saber e consciência. Mas, já deram as seis horas, acordei e a realidade não é nada assim.

A sociedade é extremamente competente ao vender seus peixes. A ideologia de uma sociedade de consumo foi extremamente bem-sucedida por estas terras. As massivas campanhas da mídia por vender cada vez mais um estilo de vida combinado a produtos e marcas, determinando comportamentos e ganhando mentes e corações lotam as lojas a cada data especial, incentivadas por generosas desonerações do governo.

O que talvez não tenha sido previsto é que a competência ideológica ultrapassou as barreiras sociais que foram levantadas ao longo de séculos de exploração. Os jovens da periferia, marginais como sempre, acabaram por ouvir os apelos da mídia e decidiram que não queriam crescer como simples bandidos ou traficantes – os papéis que lhe são destinados naturalmente. Não pensem que houve uma conscientização repentina, longe disso. Os jovens da periferia apenas compraram a ideia que lhes foi vendida: querem a vida de consumo.

De uma hora para outra, milhares de jovens espalhados pelo país, ousaram fazer o maior assalto que já se teve notícia: roubaram o espaço destinado a outra classe. Que absurdo, pobres e pretos nos corredores dos shoppings! Vão para a fila de um hospital público, organizem bailes funks em suas comunidades, um evento esportivo debaixo de um viaduto, mas passeio no shopping? As conservadoras piram debaixo de seus pancakes importados.

A classe média se horroriza com a companhia inusitada. A periferia não invade os corredores para fazer arrastões ou protestar contra a distribuição de renda. Exercem o direito a serem tão alienados quanto os filhos dos ricos, apenas isso. Dão “rolé” (“rolê”, em paulistês) no shopping, fitam vitrines, cobiçam produtos, paqueram, namoram, comem um Big Mac e vão embora, deixando um rastro de preconceito e vergonha nos que se estarrecem com sua passagem.

Sem entender como criaram esse “monstro”, os atordoados guardiões das pessoas de bem classificam os jovens com os únicos rótulos que têm: passam a marginais, rolezinho vira arrastão e por aí vai. Para quem só tem um martelo, qualquer coisa vira prego. Os shoppings, buscando proteger seu público, arrumam liminares, concedidas por juízes que, certamente (erradamente seria mais apropriado), ignoram a Constituição. Outros, criam espaços ainda mais privilegiados, com preços absolutamente inacessíveis, buscando a exclusividade, palavra eufêmica para “mantenha-a-distância-toda-essa-gente-feia”.

Mas, a classe média (como sofre, não?) não tem como ser tão exclusiva como os ricos de verdade e chia alto contra o roubo de seu espaço. As máscaras sociais caem e os princípios ideológicos entram em conflito: o que é mais importante, a segregação das classes ou o acesso ao consumo? A crise do capital dessa semana não tem a ver com a esquerda ou a reivindicação de qualquer divisão social mais justa. A perturbação (palavra originada de “turba”, uma multidão em “desordem”) vem do próprio capital e da sua incapacidade em lidar com as consequências de sua propaganda ideológica combinadas a qualquer aumento de renda sensível nas classes mais baixas.

Os jovens da periferia querem seu rolezinho. Alienados ou não, consumistas, vendidos ou simplesmente bobos, não importa. Eles têm o direito de serem como seus pares ricos. Tão bobos ou alienados quanto eles. Se os jovens da classe média vão ao shopping em grupos e fazem barulho lá dentro, é flash mob. Se são os excluídos, temos vandalismo ou arrastão. Ainda que nada se roube ou nada se quebre. A violência vem da repressão – Polícia, proteja meu patrimônio, meu espaço social, dessa gente sem classe! – e da oficialização do aparthaid socioeconômico via liminar.

Queria essa juventude lendo Marx, engajada na luta pela construção do socialismo. Mas eles não querem. Tudo bem, vou continuar buscando o diálogo para um dia convencê-los. Ou não. Por enquanto, defendo o direito que todos temos de ser babacas, estúpidos, parvos, consumistas, alienados e vendidos. Ou de não ser nada disso. Pobre ou rico, tanto faz. Que sejam o que quiserem.

O episódio só demonstra para que lado pende a balança. É mais importante o status quo  do preconceito, da discriminação, do ódio social, do que o próprio direito à alienação tão propagandeado pela própria sociedade. Bem-vindos ao admirável paradoxo novo do capital. Relaxem e, se puderem, deem um rolezinho por aí…

 

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Categorias: Sociedade | 6 Comentários

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6 opiniões sobre “Dando um rolezinho

  1. Tô em férias, lendo vários artigos desta revista, estudando o conjunto do tecido de ideias do Transversos. Observando as diferenças entre os textos dos homens e das mulheres, e deles entre si. Acho que faltou em teu texto um caminho de reflexão sobre a exclusão desses jovens do que eu chamaria de “consumo competente”, que é o consumo que realmente coloca o sujeito em um patamar de uso e apropriação de bens ligados à algo que talvez o marxismo chame de formação do Capital, não estudei o marxismo, não sei direito sua linguagem. Sabedores dessa real exclusão, os membros das classes incluídas, a tradicional classe média e os agentes diretos do Capital, que antigamente eram chamados de “burguesia”, conseguem antever que há muito mais um possível vínculo desse povo do rolezinho com as revoltas dos presídios, do que um impossível vínculo desse segmento social com as classes incluídas na cultura que têm circulação na produção e gerenciamento do Capital. Isto é, os tradicionais usuários dos shoppings não são idiotas e nem preconceituosos, como vc diz Wallace, eles têm é consciência das possibilidades insurgentes desse tipo de gente que se apropria de uma franja cultural aceita mas sob o controle de um agenciamento da marginalidade, das franjas da pirâmide social. O seu texto, Wallace, peca por aceitar a lógica do discurso sobre o preconceito, um discurso construído na Era Lula pela elite do gerenciamento, que faz as classes dominantes pareceram apenas conservadoras. Na verdade, é um discurso do novo gerenciamento do Capital que prevê a substituição de um tecido ideológico tradicional ( casamento monogâmico, heterossexualidade como norma exclusiva, etnias e culturas em bolsões preservados e diferenciados, gêneros e faixas etárias com posições definidas em estruturas normativas, estruturas culturais em pirâmide, com modelos culturais de difícil acesso para a maioria, concentração do conhecimento secundário – que não controla os meios de produção- etc) e pretende administrar a saída desse tipo de capitalismo para outro tipo de sociedade de controle e gerenciamento social.
    Na verdade, os rolezinhos são perigosos sim, e muito, porque os shoppings são a ágora da elite antiga, a que resultou do Capitalismo de 1500 até 2000, e não há ainda outra elite. Estamos em um momento revolucionário e o gerenciamento do Capital não permitirá que essa revolução saia de seu controle. Não vejo como uma análise qualquer, sobre qualquer assunto, no Brasil, possa ser consistente sem tentar, ao menos, explicar as degolas e dilaceramentos de corpos no Presídio do Maranhão.
    Escrevi correndo, espero que seja inteligível. Um grande abraço, Wallace, continue fazendo bons textos para o debate. Dinah Lemos

  2. Walace Cestari

    Dinah, obrigado por sua colaboração. Não pretendia, em verdade, aprofundar-me tanto em tantas vertentes – que são efetivamente ligadas ao tema – em um espaço curto como o do blogue. Comentei sobre Pedrinhas no domingo passado, mas ainda longe de teorizar de forma contundente e definitiva qualquer questão.

    O que pretendo aqui é exatamente o que você compreendeu em sua última frase: textos para debates. O Transversos é um espaço de início, de perguntas, de colocações fora do eixo, mais de desconstrução do que a proposição de soluções fechadas para quaisquer problemas.

    Por isso sua resposta é tão importante quanto o texto: acrescenta, discorda e mostra outras visões. É assim por aqui: os consensos não são bem-vindos!

    Amplexos

    • Eu sei que é um blog para debate, tenho textos meus publicados nele. Resolvi atiçar esse debate entrando na parte dos comentários. Vc foi minha primeira vítima (risos). Gosto muito do trabalho de vcs nessa revista. Desculpe ter escrito teu nome errado, com dois eles, estou escrevendo sem muito tempo e em um windows 8, que vive me pegando peças…Estou pensando os rolezinhos, os presídios e a copa do mundo. Daí que quis dizer a vc que nem de longe é um problema de preconceito, esse negócio de quem entra no shopping. Mas teu texto está muito bom, eu gostei muito. Qualquer texto poderá ser analisado sob o ponto de vista do que não foi colocado nele. Eu quis iluminar teu texto e não depreciá-lo. Preferiria que vc comentasse o meu comentário e não apenas afirmasse que o Transversos é um lugar para debates. Vamos ao debate então! Pergunta que fica: quais as possibilidades de final dessa história dos rolezinhos? Isso vai virar uma ôla de revolta a desaguar na Copa do Mundo de Futebol? Abração amigo!

  3. Interessante as duas visões. Interessante Walace a sua análise sobre a classe média e sua situação espremida entre os mais ricos e os mais pobres. Vou levar seu texto e o da Dinah para debate na escola. Trabalho em uma escola cuja clientela está entre ricos e classe média alta. Penso que vai polemizar e aí faço meu trabalho de conscientização, pelo menos dessa parcela social. Seus textos serão de grande valia para debater o tema sobre tempo histórico e cultura onde falo dos diferentes ritmos de vida e do ritmo de vida nos espaços urbanos. Muito grata!

  4. Preciso, exato… no ângulo, Dersão!
    Tudo que eu queria escrever mas…. mas tive muita preguiça para tal.
    Sorte&Saúde pra todos!

  5. Luciano Souza

    Engraçada sua visão, estava semana passada no JK Iguatemi, e o que chamam de “rolezinho”, deveria se chamar baderna,arruaça, ou algum outro nome mais adequado… A palavra da vez é sempre “vítimas de uma classe dominante”… Vítimas? Por que nasceram pobre? Nasci em uma família muito pobre, até comida dividíamos e hoje gerencio duas áreas de uma grande empresa, sabe pq? Pq me esforcei, não quis pertencer a classe dos “vitimados”(que chega a ser até ridículo esse rótulo)… Pq escolhi estudar, batalhar, e ser alguém. Agora, os famosos “vítimas”, não devem ter opção né? Ir para um local privado badernar (e sim, local privado), e não apenas para se encontrar, como os jovens de todas as classes na minha época faziam, não é direito constitucional, é infringir o respeito a todos que estão querendo exatamente o que eles não querem: Curtir um fds com a família ou amigos no shopping.
    E viva os “baderneiros”!

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