Veja como somos fascistas (ou “vamos dar um rolezinho?”)

 

O truque mais esperto do diabo é nos convencer de que ele não existe

– Charles Baudelaire

 

Contrariando todas as recomendações do meu homeopata, que me pede para evitar aborrecimentos a qualquer custo devido à minha já exacerbada irritabilidade e propensão ao enfarte, ao AVC e ao surto psicótico, fui ler a reportagem da revista (in)Veja sobre os rolezinhos. Vou precisar triplicar a minha ração de bolinhas brancas de açúcar para garantir o efeito placebo pelo menos pelos próximos seis meses, mas aqui vai o resultado desta minha última incursão pelo “cérebro” da direita nacional.

Em nítida mudança de direção, a revista criou (no sentido bem criativo mesmo) uma matéria que, ao invés de tentar criminalizar o rolezinho, como era de se esperar,  tratou de despolitizá-lo e desqualificá-lo como uma espécie de (não) movimento neorretardado-mental praticado por uma juventude pobre ávida por consumo. Reduziram os novos protestos em shopping a uma mera busca por roupas de marca e diversão decalcada dos moldes da classe média paulistana falida. Enfim, criaram personagens caricatos para esvaziar o rolezinho de qualquer consequência e caracterizá-lo como uma questão de insensatez juvenil e revolta bobalhona contra figuras de autoridade.

Ora, não é possível subestimar o fascínio exercido pela sociedade de consumo, especialmente sobre os jovens, sejam eles de periferia ou não. É certo que todos os seres humanos, em medidas bem gerais, querem as mesmas coisas: bem-estar e obter a sua parte de satisfação da sociedade em que cada um está inserido. No quesito geração de satisfação, o capitalismo mostrou-se sempre demoniacamente mais eficiente em mobilizar os desejos das pessoas do que qualquer outra alternativa de modus vivendi.

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Porém, mesmo não sendo possível desvincular a questão do consumo do rolezinho, é claro que há uma relação entre ele e os protestos do ano passado. Estão todos inseridos no mesmo ciclo de empoderamento popular, de redescoberta da reivindicação por ampliação dos direitos e de retomada do espaço público para a manifestação dessas reivindicações. Também, ao contrário do que a Veja sustenta, não são os movimentos sociais que estão tentando engrupir o rolezinho, e sim o rolezinho que surgiu “de carona” nas ondas de protestos que inflamaram o país nos últimos oito meses.

Não existe uma “verdade” sobre o rolezinho, mas é possível descrevê-lo em suas linhas de força, sem cair nos erros das “análises” dos “pitacólogos”, que tanto à esquerda quanto à direita parecem igualmente perdidos. Foi um movimento surgido espontaneamente, sem ter pauta ou direção precisas e vindo diretamente da chamada periferia. Confere. Rapidamente se alastrou graças às redes sociais. Confere. No entanto, ele não se difundiu apenas graças a estas últimas, mas também devido ao fato de os movimentos sociais, tradicionais ou não, ligados aos protestos do ano passado, com sua grande horizontalidade e flexibilidade, terem-no assimilado, repaginando-o e, sim, dando a ele conotações que talvez não tivesse inicialmente (ou, pelo menos, não de forma clara). E esse é um dos traços do horizontalismo tão característico dos dias de hoje: a capacidade de transição e de adaptação fecunda entre vários setores, mesmo quando não havia contato prévio algum entre eles. E a capacidade de se transfigurar em novas direções que muitas vezes surpreendem os seus próprios criadores (parece que o próximo rolezinho marcado é para doação de sangue no hemorio).

O rolezinho provavelmente não nasceu sob a égide do marxismo-leninismo, e nem sequer como forma de contestação clara à sociedade capitalista e de consumo, mas ele pode vir a se articular nesse sentido. E é isso que tem feito tanta gente tremer no alto das pernas. Mesmo que o rolezinho não tivesse conotações políticas, como querem alguns analistas, inclusive os expertos da Veja, mesmo que se tratasse apenas de um fenômeno associado à famosa ascensão da classe C, ocorrida durante a década de governo do PT, e à lamentável reação da classe média tradicional a essa ascensão, o fato é que em um país desigual e racista como o Brasil, quando um grupo majoritariamente pobre e negro entra em um shopping center isso já é por si só UM ATO POLÍTICO (como o spray de pimenta e as balas de borracha deixaram eloquentemente claro).

Sem isso, as diversas manifestações de intolerância a que fomos obrigados a assistir esta última semana se tornam totalmente incompreensíveis. Foi insuportável ver as imagens de jovens apanhando e sendo presos ou revistados apenas por ousarem entrar em locais aos quais, segundo a opinião das autoridades e dos ricos, eles não pertencem. Parece que o brasileiro conservador segue a regra dos highlanders, de que é proibido guerrear em solo sagrado. Que se mantenham os bárbaros apartados do Eden burguês na terra.

XXXXXXXX

Devo desculpas formais a Rodrigo Constantino. Caí em um troll desses de internet ontem e divulguei palavras que ele não disse. Seja dito em minha defesa, caí pois o troll envolvia declarações  perfeitamente coerentes com a demofobia característica desse, digamos, articulista. O ódio e o desprezo, por exemplo, com que ele se refere aos beneficiários do bolsa família, como se os verdadeiros oportunistas e vilões deste país fossem, é ilustrativo da iniquidade moral da elite da qual ele faz parte. Rodrigo Constantino vê a realidade brasileira através da lente distorcida do fundo do copo de uísque à beira da piscina. Esse negócio de caviar sobe à cabeça que é uma beleza.

Obs.: estou cagando para o fato de ter “enlameado” a “reputação” (rá rá rá) do RC. O problema é que eu sempre checo tudo que eu posto na internet e, dessa vez, deslizei. Eu tenho um nome a zelar.

 

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