Da série : tantas vidas vivendo por aí

Na porta da padaria o aposentado de chinelos zomba do vizinho apressado a caminho da Faculdade de Direito. Esse cara é maluco, ele diz. Peço que explique o que quer dizer maluco neste caso. Um cara nesta idade passar tanto tempo quebrando a cabeça , e tem mais, nem precisa de dinheiro. Dá uma cuspida discreta na calçada. Mas pode ser que estudar lhe dê prazer, pondero. Estudar é chato pra caralho, ele me informa. Desafio. Não acho, é das coisas que mais me dá prazer. Ele me olha de esguelha e sacode a cabeça. Você é mais maluca que ele, conclui, lavrando a sentença definitiva sem direito a contraditório. Você morre e fica tudo aí. O tribunal da sua consciência é infalível.  Atravesso a rua e volto às minhas maluquices. Para escapar da sentença de juiz tão implacável, quantos advogados seriam necessários?

Essa outra Simone é jovem, negra, quase franzina e mora na rua. Me aborda na mesma avenida onde, há poucos dias, encontraram o corpo daquele outro. Kaique, jovem, negro, sorriso largo, morador do centro da cidade onde estudava e trabalhava num lava-rápido. Ela exibe cicatrizes. Caíque está morto, estava machucado e perdeu os dentes. Suspeita-se que tenha sido executado por quem odiava seus amores mas a versão oficial é que foi levado por um coração partido a desistir da vida. Simone foi levada às ruas pela cachaça e diz que não se importa de morrer por ela. Eu gosto da pinga, ela diz. Lamento não ter dinheiro para lhe pagar uma mas ofereço um farelo de atenção.  Ela aceita mais do que depressa e narra fragmentos da sua história de coração partido, da infidelidade de uma mulher que amou e ainda ama. Depois fala de um filho que declara não gostar dela e me pergunta: isso é possível ? um filho não amar sua mãe ? Digo que sim, pode acontecer, a vida é complicada e o amor é só uma palavra para nomear uma coisa que todo mundo quer mas ninguém ensina como conseguir. Ela concorda e me sinto à vontade para ir em frente com minha filosofia de botequim. Nem todo mundo sabe dar, recebemos de quem não esperamos, daqueles que esperamos às vezes vem o contrário. Amor é só uma palavra, difícil de dizer, mais difícil ainda de viver. O problema é a raiva, ela me diz, mostrando as cicatrizes nos braços. Quando a dor aqui dentro é muito grande, eu faço doer o corpo porque alivia, e mostra a falta de alguns dentes. Acredita que eu mesmo arranquei, de raiva? Assombrada pela coincidência mórbida e pela revelação acredito. Pergunto se ela perdeu o amor aos dentes e por isso quis jogá-los fora. Ela faz cara de dor. Especulo que talvez tenha ainda algum amor perdido dentro dela mesma, precisando de ajuda para ser encontrado. Me encara, atenta. Passo a falar de centros de ajuda, pergunto se ouviu falar do projeto na Cracolândia, explico onde está a tenda azul, falo de agentes de saúde, de cama, comida, banho, porque não tenta encontrar ajuda, garanto-lhe que não dá pra encontrar amor no mundo se a gente já não tiver um pouquinho dele dentro da gente. Ela faz cara de choro, desvia o olhar, volta a me encarar, abraça o próprio corpo com força, parece querer ocupar menos lugar no espaço mas súbito afirma que vai procurar a tenda azul na Cracolândia, que vai tentar conseguir ajuda. Depois me encara suavemente e parte apressada após uma declaração misteriosa: além de tudo, a senhora é elegante. Sei que é muito difícil ter nascido qualquer coisa desta troca de migalhas de tempo e palavras. Fiquei pensando que Simone perdeu a capacidade de obter amor mas ainda sabe dizer palavras amáveis. E além de tudo, habitamos esta bendita língua pátria na qual o amor rima, tantas vezes, com dor.

Quando tinha 10 anos, se pudesse, compraria todos os livros das suas séries americanas prediletas de best sellers e comeria sorvete sempre que tivesse vontade. Mas tinha vindo ao mundo no papel de filha de trabalhadores pobres: o roteiro mandava era estudar sem reclamar e se esforçar, se esforçar e estudar, mais, sempre mais, mais que todo mundo, superar a preguiça, superar qualquer dúvida, tristeza, cansaço, superar a si mesma, superar os outros. Agora os pais andam com o orçamento mais folgado e além de um extra para o lanche, ganha sapatos da marca z, a camiseta Y, as calças  x  para que não fique para trás na corrida de superação, para que possa superar os colegas que não têm nada disso. Eu mereço, ela diz. Quando crescer quer ter orgulho de ter se esforçado sempre para alcançar esta felicidade que vai ter quando tiver superado esta fase. Mas isso são apenas planos para o futuro. No presente, detesta mesmo é quem se faz de coitadinho e gostaria que os superados por ela não fossem tão invejosos. Recalcados, sabe como é ?    Imagem

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Da série : tantas vidas vivendo por aí

  1. Lourdes Campos

    Nem todo mundo sabe dar…Mas vc amiga sabe bem, muito bem. Só tenho a agradecer por poder ler e compartilhar essa sua disponibilidade…Não nos deixe a sexta sem ela.

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