Homens

Cândido Portinari, Guerra e Paz.

Cândido Portinari, Guerra e Paz.

Há em todo conjunto os ordinários, os comuns (claro que também outros comunas – de bem comum). Comumente ordinários, uns poucos com mais, outros muitos com pouco, uns muito poucos com muito mais, mas muitos mais com muito pouco. E assim deveriam perceber, mas nada recebem, são apenas rês, são somente reses. Quem concebe a vida do jeito como se apresenta, determina como deve ser para todos. Deter é mais importante. É mina, opulência que se opõe a toda e qualquer carência.

Riqueza que coage. Mas alguém reage. Ou deveria reagir. Falta ação, em um cenário ávido por novos atores. Atávicos, às vezes. Alguns impostores, outros vandalizados em sua denominação. Na luta pela verdade, há uma máquina de produzi-las e disseminá-las e massificá-las e acreditá-las e fazê-las verdadeiras, ainda que estejam longe de sê-las.

Este é o homem. É isso o que faz. Escravo de metais, ávido por decidir o destino de iguais. Os quais não considera como tais. Raça, cor, sexo, opção, roupa, local, não interessa, se os interesses são outros. Mas nunca os dos outros. Outrora declararam que nasciam iguais. Bastou o poder para poder diferenciar a todos.

A terra põe, o homem dispõe. E, em terra, enterra sonhos e esperanças com pás de picaretas forjados em ganância, vestidos em elegância. E vestirão todas as cores, falarão de amores… Pregarão a ajuda ao próximo, ao menos favorecido. Assim, algo se faz para nada se mudar. Um alívio sem atingir qualquer dos poderes que nutrem a vergonha do homem. Um pouco de caridade, para que tudo continue caro, mas com menos culpa. O homem, velho lobo do homem.

Há homens de todos os tipos. Inclusive aqueles da margem. Exclusivos. Alguns excluídos. Outros, por opção, querem forçar ao rio um novo curso. Um novo discurso. Ainda que velho. Uma evolução. Ou revolução? Esses somos os que queremos ser. Que ousam pensar diferente, que desafiam as verdades impostas, que transversam a vida. Há, claro, os que cumprem metas, buscam objetivos. Estes conseguem no horizonte de anos, décadas. Não nós, que nos declaramos sonhadores – nós lutamos por um ideal. Atravessando séculos, um ideal não tem outro horizonte senão o futuro.

Sabemos que não veremos o fantástico que propomos em nossas vidas. Mas lutamos. Lutamos há gerações. E não assumimos ser revolucionários por conta de qualquer tradição. A luta não é uma herança de nossos pais, mas um empréstimo que tomamos de nossos filhos e netos. Lutamos porque é necessário lutar. É necessário resistir.

É necessário mudar não a sociedade, pois a sociedade é mero retrato da imperfeição humana.  É preciso mudar o homem. Pois só o homem pode ser preciso. Precisamos de um novo homem, de um modelo de homem coletivo. É preciso que se mudem os dias. E mudaremos em cada minuto. Chegará o tempo em que o homem poderá confiar em outro, assim como uma criança confia em outra criança.

Enquanto isso, tudo o que pensamos, tudo por que lutamos não cabe em nós mesmos. Paira por sobre cidades, estados e países. Brilha nos olhos de oprimidos. Escorre no suor dos opressores. Mas só há um lugar onde se pode fazê-lo existir verdadeiramente: as ruas. E é lá que nos encontraremos todos. Algum dia. Um dia, todos. Uns dias para lutar por todos os homens, outros todos para celebrar os homens por quem lutamos.

 

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Categorias: Reflexões | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Homens

  1. O Marx dizia que o ser humano (eu não uso a palavra “homem” para o genérico da espécie humana porque realmente me sinto excluída junto com todas as mulheres, não por um feminismo tacanho – detesto a palavra “Presidenta” além de detestar ela própria-, mas, nesse caso, por uma sensação imediata e sincera), ele dizia que o ser humano é histórico, essa sendo sua essência, natureza. Assim, estaríamos vivendo uma fase da história, depois dos líticos (paleo, neo, etc) que findaria um dia e começaríamos um novo acontecimento humano natural. O que nós não estamos conseguindo descobrir é como fazemos para que o mal não seja mais forte e mais consistente do que o bem. Por isso, não raro temos a impressão de que é da natureza humana a maldade. Mas pode ser que não seja. Por isso somos seres humanos, nós comunas, que tentamos encontrar o bem dentro de nós todos os dias. Bj. Lindo texto o seu.

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