O beijo de Judas

O beijo de Judas i

Não sou consumidor de novelas de tevê, acho esses folhetins televisivos uma grande mistura de tudo com coisa nenhuma, vendedoras de uma anacrônica moral romântica salpicada de qualquer coisa que valha o aumento da aceitação do produto. Entretanto, é inegável que qualquer forma de arte retrata a sociedade que a consome de alguma forma (viva a ambiguidade!).

É uma relação quase esquizofrênica em que a influência de um mistura-se a do outro e ambos são levados a caminhos que nem sabem bem se escolheram. A ficção impõe uma visão ideológica de mundo, constrói alguns estigmas, levanta outras discussões. Por outro lado, a massa que assiste à obra, aceita ou rejeita inúmeros desses temas e acaba por alterar rumos de personagens e enredos na tela.

Fui tocado não pelo capítulo final da novela, mas por sua enorme repercussão nas redes sociais. Todos comentavam o “beijo gay” que haveria (e houve) em plena tevê brasileira. Li até que seria um “momento histórico” e coisas parecidas. Achei interessante pelas inúmeras reações nas mensagens sobre como a questão da homofobia transformou-se em tema de discussão na sociedade.

Entretanto, é necessário ir além. Em primeiro lugar, a primazia do tratamento da questão homossexual na tevê brasileira não cabe à Rede Globo, que dificilmente é pioneira em quaisquer discussões sociais relevantes. Também importa pouco dizer a quem pertence esse troféu, já que a mídia brasileira é comandada por um punhado de famílias que nada tem de compromisso com as questões que possam ser levantadas. O Beijo no Asfalto já havia causado furor no auge do teatro rodrigueano…

Assim, as discussões que cabem são as motivações – deixemos para o final – e a forma com que as coisas são apresentadas nesse produto enlatado. Se, de fato, a Globo acertou ao apresentar uma relação homoafetiva concretizando-se por meio de um beijo em seu horário nobre; por outro, demonstrou perversidade no tratamento de uma série de outras questões (obriguei-me a pesquisar o enredo da novela…)

O folhetim global busca de todas as formas – como em uma fábula – passar lições de moral e padrões de comportamento. Isso se torna esdrúxulo quando se observa que tipo de pensamento sustenta a história. Por exemplo, o mesmo protagonista das duas cenas mais populares, o beijo e a reconciliação com o pai, foi o personagem que, na trama, mentiu, enganou, desviou dinheiro, roubou, sequestrou, internou a irmã sã em um sanatório, jogou uma criança em uma caçamba de lixo (até onde vai isso?!) entre inúmeras outras condutas criminosas ou reprováveis. Entretanto, foi perdoado por toda a sociedade por conta de um beijo de amor. Será que se Dirceu beijar Genoíno, William Bonner defenderá a absolvição de ambos no Jornal Nacional?

Há outros personagens que cometeram outros crimes, incluindo assassinato, mas que gozam da impunidade reservada à classe alta. Na novela, apenas a secretária que tentou dar o golpe no dono do hospital foi parar na cadeia (com justiça, diga-se de passagem), junto de seus comparsas pobres. Afinal, onde já se viu tentar roubar o patrão? O truque que encobre os crimes dos poderosos é o beijo. Tal qual o beijo de Judas.

As novelas hoje em dia buscam levantar inúmeras questões de forma a tentar identificação com um ou mais grupos e impactar toda a massa telespectadora. O folhetim que terminou esta semana apresentou personagens com lúpus, câncer, aids, autismo em busca de maior visibilidade para as pessoas portadoras dessas doenças. No geral, todos esses personagens foram estereotipados, ajudando mais o preconceito que o esclarecimento.

Tome-se o caso da obesidade, que, de denúncia inicial passou à galhofa e à incoerência. O mesmo vale para o alcoolismo, para o racismo, incesto e o sadomasoquismo. O tema das dificuldades da adoção foi ridicularizado, apresentando uma adoção rápida e sem burocracias. Assim, o folhetim buscou “atirar para todo o lado” em busca de acertar um alvo no público.

O “beijo gay” coroa a necessidade da audiência, mas coloca também a ideia de que, em busca desse público, a Rede Globo deve ceder às pressões dos temas que vão às ruas. Não esqueçamos de que tudo é calculado para nada perder. A mesma novela da “inovação” do enlace homoafetivo apresentou o primeiro casamento evangélico da emissora. Uma no cravo, outra na ferradura.

Por isso, não há nada de animador nos folhetins que justifique a comemoração dos setores preocupados com a construção de uma sociedade melhor. Apenas indica o que sabemos: as lutas vêm ganhando força e já não podem mais ser simplesmente ignoradas. Mas a mídia fagocita o que enxerga como lucro e pode coptar o tema para si, diluindo-o da forma como quiser.

Massas e manobras. As cenas dos próximos capítulos serão as mesmas dos anteriores. Com mais ou menos pimenta, será sempre servido o mesmo prato. Doenças, polêmicas e uma mesma classe social sempre sendo perdoada. Entre beijos e abraços, sobram manipulações. No final, tudo vira produto para perder sua força transformadora. É a canga com a imagem do Che vendida em Copacabana… Querem reduzir a pó na tevê o que tenta se solidificar nas ruas. É o fim de mais um folhetim. Beijo no ombro para a sociedade.

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Categorias: Cultura | 7 Comentários

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7 opiniões sobre “O beijo de Judas

  1. Devido minha postura nas redes sociais, 90% falo de futebol, o autor sabe muito bem disso, sou criticado por inúmeras publicações polêmicas e as vezes agressiva, procuro respeitar os outros com suas idiotices, ostentações, etc..
    Mas tenho o direito também de não aceitar, me calo na maioria das vezes, como calei neste caso. Não acompanho novela, mas as redes sociais te deixam bem informados. Vi uma mistura de comentários, boa parte defendendo o tal beijo, pra mim é indiferente, o que importa é o resto, citado magnificamente pelo autor do blog, o cara mata, rouba, etc e etc e é absolvido pela sociedade por causa de um beijo, gay, por que se fosse um beijo hétero, iria para a berlinda.
    Parabéns ao contrário para a Rede Globo.

  2. Gustavo Fernandes

    “Será que se Dirceu beijar Genoíno, William Bonner defenderá a absolvição de ambos no Jornal Nacional?” e “É a canga com a imagem do Che vendida em Copacabana…” são de uma felicidade incrível. Parabéns Walace. Meu domingo é muito mais inteligente depois de ler sua coluna.

  3. Muito boa tua tentativa de abranger vários significados da novela e das intenções da Rede Globo. É por aí mesmo. E o fato de você publicar logo em cima do assunto quente é bem bom e corajoso. Mas entendo que o lugar da Rede Globo precisa ser pensado por nós em um foco não tão dual, digamos tradicionalmente maniqueísta, mas em um foco de transmutação do Império Capitalista em outro modo de controle de uma minoria sobre a imensa maioria dos seres humanos e a chamada “natureza”. Na verdade, temos uma espécie humana que, desde seu surgimento, tem um grupo que se apropria do poder de controle sobre todo o restante da sociedade e usa esse controle para obter vantagens materiais em detrimento do sofrimento ampliado dos que a esse grupo são submetidos. No caso do tema da homossexualidade (homossexualismo, comportamento homoafetivo, etc), a sociedade capitalista migra, faz décadas, para uma abertura em direção a um novo modo de ordenamento da moral em relação à família e aos costumes. Há várias características dentro dessa migração: aumento do isolamento entre os indivíduos, fragmentação do poder patriarcal, abandono das memórias arquetípicas milenares de poder feminino (doméstico, íntimo e dirigido às crianças, doentes e velhos), abandono do perfil patriarcal combinado às formas de guerra antigas, de confrontos corporais e de exércitos humanos para conquistas de territórios estrito senso. O que temos, hoje, é um mundo controlado por mecanismos de gerência da tecnologia da informação e da tecnologia biogenética; nesse novo mundo, o velho homem hétero em público e homossexual perverso em locais de exploração sexual de escravos sexuais, um homem pedófilo, coronel, mafioso, brutal e brutalizado, não serve mais: ele é burro, ignorante e mandão de um modo obsoleto. Novos padrões são absolutamente necessários. Entre esses novos padrões, está o do homossexual bem sucedido, que tem elevado conhecimento em áreas da neuro-linguagem para dominação apurada dos subalternos, e elevado conhecimento em informática e gerenciamento geral de empresas, línguas e psicologia positiva. Um pragmático, frio e insensível administrador de acontecimentos de um neohipercontrole social. Alguns dos principais âncoras da Rede Globo são assim. São novos Romanos, de um novo Império que tenta nascer em meio aos combates de ruas, aos blacks blocs, aos jovens militantes pelo passe livre, à resistência dos lutadores pela dignidade dos seres comuns, no Brasil e no mundo. São esses novos signos de representação de um novo Império que se beijaram no dia 31 de janeiro de 2014, na novela da Rede Globo “Amor à Vida”. Parece que tem “rolézinho” no Rio de Janeiro hoje, a greve dos ônibus de Porto Alegre está em 100% de adesão, eu ganhei um convite da Sininho para acompanhar um facebook dos black blocs de verdade e foi como um beijo para mim. Um beijo dos nossos. Nós da resistência. Héteros ou homos. Velhos ou jovens, homens ou mulheres. Nós.

  4. Marina S. K.

    Estou ouvindo de muitos que o personagem foi perdoado pelo público apenas porque foi protagonista do beijo gay, mas não é por acaso que nenhuma das pessoas que defendem essa ideia assistiu a novela!
    O personagem já havia sido perdoado há muitas semanas, houve um processo demorado no qual os espectadores observaram mudanças profundas em sua conduta e se afeiçoaram, por diversos motivos, por ele. O que aconteceu com o Felix foi o simples final feliz dedicado ao vilão que se redimiu – o que já aconteceu outras vezes em novelas.
    Quando o beijo gay aconteceu, Felix já era adorado pelo público, que não torcia pelo beijo só para assistir a um beijo gay, mas porque já desejavam um final feliz para o antigo vilão – e final feliz em novela pede um par romantico. Se o personagem fosse hétero, haveria também um par romantico e um final feliz para ele, e ninguém diria que ele foi perdoado apenas por uma cena qualquer no último capítulo.

    É perigoso comentar sobre algo que tem uma relação tão íntima com o público quando não se faz parte desse público, porque entender o que se passa depende de uma sensibilidade que um resumo do enredo não vai proporcionar!

    No mais: parabéns pelo texto!

  5. Walace Cestari

    Muito obrigado pelos comentários! Dinah, mais uma vez excelente seu aprofundamento na temática mais conceitual. Sinta-se convidada a contribuir com seus textos aqui nos Transversos, acho que você faz jus a um espaço seu por aqui para levantar essas e outras questões.

    Marina, o ponto não é o fato de que Félix seja perdoado por conta de ser homossexual ou por ter sido o protagonista do beijo: essa é a cereja do final do bolo. O que afirmo é que ele foi “perdoado” por conta de sua classe social, bem como sua mãe na trama. O fato de alguém ser carismático de alguma forma foi colocado como elemento para o perdão de crimes hediondos. Isso é ideológico, não uma simples coincidência.

  6. Excelente texto. Finalmente, encontrei uma análise do famoso beijo gay em novela da Globo que vai além da superficialidade interpretativa, que, ora comemora a cena como um pretenso avanço na moralidade social, ora a bombardeia em nome da velha moral e dos bons costumes. O texto vai adiante e enxerga os discursos implícitos por trás do enredo como um todo. Parabéns ao autor, espero ler mais coisas significativas por aqui.

  7. Antonia Neto

    Não há dúvida de que há clareza na interpretação e julgamento por parte do autor do artigo. E não há dúvida também que pela própria História vê-se que valores aceitos pela maioria ou não, por mais que deseje agarrar-se às suas raízes, as poderosas forças de transformação os arrastam para cumprirem sua trajetória evolutiva. (O início do fim de um Império?).
    Concordo (embora também não tenha assistido a novela) que as críticas ao perdão pelos crimes do personagem em nome de “pseudo-revoluções” foram justas, mas também entendo que, pela própria dinâmica da vida existem métodos e métodos para nos transformarmos; um acidente, imediatamente – um envelhecimento, longo prazo… E acho que qualquer contexto onde se possam discutir preconceitos, seja válido, (razões obscuras à parte- que é o que ele defende). A própria repercussão do beijo prova isso. Estamos todos a discutir, cada um sob sua ótica.
    Concordo com a postura em responsabilizar a mídia por descaradas manipulações e aí penso, não deveria se restringir à Rede Globo tão somente… Seria ingenuidade eleger qualquer outra como “amiga da massa”, porque não vejo como qualquer mídia possa vir a ser, algum dia, “amiga da massa”, pois (mais uma vez reportando-me à História) sempre estaremos (quando no mínimo temos uma página online bem visitada) defendendo nossas próprias ideias e ideais. E seremos sempre compreensivos com a massa até que alcancemos nosso próprio status, quando faremos os devidos acordos para a “sobrevivência” das mesmas e mesmos. Afinal não há idealismo que sobreviva quando somos arrastados pelo Sistema, como multidão enfurecida.
    Política foi, é e sempre será a ciência da negociação. A realidade é que SE esse nosso amigo com ideias tão claras achar que é o herói do “Zé povinho” trazendo à luz os bastidores da manipulação e arriscar a defender seus ideais de maneira concreta — NO PODER — com certeza seu discurso mudará. Mais uma vez, basta olhar a HISTÓRIA.
    Mas sem dúvida é uma boa dissertativa e olho para toda essa necessidade de revolução como algo salutar e transformador, mas sabemos que NUNCA será definitiva, em função da imperiosa essência da construção da Vida: A Mudança. Sempre, em algum momento. Pois não é assim que é? Hoje bom e ideal. Amanhã… Ah! Amanhã… E assim, como disse o poeta, caminha a humanidade. Bem é isso…

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