Hoje não tem texto, hoje tem luto

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Hoje não tem análise, hoje não tem ironia. Será que abri um livro de História editado por um maníaco? Como pode uma mesma imagem gerar medo do presente e tirar a confiança no futuro? Não li sobre o que se trata, não quis, não consegui. Não preciso de mais isso no meu saco de lágrimas.

Os discursos de sempre, a classe média de sempre, o povo gritando “mata, mata”, os cidadãos de bem, “o horror, o horror…”

O político oportunista defendendo o indefensável em benefício próprio em busca de votos de nazistas recalcados.

Será que as pessoas não confiam mais nos seus tradicionais grupos de extermínio? Como se o Estado já não cometesse violência o suficiente, o genocídio de negros e pobres agora foi passado à iniciativa privada em regime de concessão, igual a pedágios, barcas e roletas de metrô.

Rodrigo Constantino (et al.), taí uma das maravilhas da livre iniciativa que vocês não comentam (ou, pelo menos, ainda não).

O “moinho de moer gente”, essa imensa casa grande e senzala que alguns querem país.

Não. Hoje não.

 

XXXXXXXXX

E viva a copa do mundo. “O Brasil é o país do futuro / em toda e qualquer situação eu quero tudo pra cima”

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Categorias: Sociedade | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Hoje não tem texto, hoje tem luto

  1. Ulysses Santana

    Apesar do horror que notícias como essa trazem, alguém realmente se surpreende? Alguém tinha alguma dúvida que o Brasil é um país racista e fascista? Nossa realidade é monstruosa – não resta dúvida – mas será que antes de termos essa imagem estampada em nossos jornais vivíamos um estado de negação absoluta – como crianças incapazes de lidar com fatos tão cruéis – e achávamos que isso não acontecia? Nos enganamos tanto assim? Precisava ser tão monstruoso? Precisamos ainda ter que ler os comentários de ódio que enaltecem esse monstruosidade como um justiça tardia, nas redes sociais?

    Não precisa voltar tanto na história de seu livro editado por um maníaco, Paulo Fred. Você pode colocar lágrimas mais frescas em seu saco de lágrimas. Volte 69 anos atrás, até 1945, quando o Estado brasileiro legislou através do decreto-lei 7.967 a sua política de branqueamento da população através regulamentação da imigração de europeus para o Brasil. O objetivo era atender a “necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia”, como está escrito no segundo artigo deste decreto-lei, hoje revogado.

    Imagine o cenário: final da segunda guerra mundial. O mundo inteiro dizia não querer mais o lixo fascista. No entanto o Brasil, através desse decreto e de outras atitudes não menos desprezíveis, abre os braços e diz aos fascistas: “Vinde a mim!”.
    Esse mesmo decreto tinha artigos para barrar a entrada de anarquistas e marxistas, tidos como baderneiros por promoverem agitação popular quando lutavam pelos direitos dos trabalhadores. E mesmo barrar “indigente ou vagabundo” que obviamente não atendiam ao interesse de criar uma raça branca e elitizada.
    O Estado não disse somente “vinde a mim” mas “vinde a mim o pior que vocês têm para oferecer”.

    Chegamos mesmo a pensar que esse lixo fascista, daquela época, havia desaparecido no ar como que por encanto? E que não estaria o tempo todo em baixo de nosso próprio nariz?

    Em outro texto teu, “A Globo e o genocídio do negro no Brasil”, há um trecho que me incomodou quando li. Não por não ter sido tão bem escrito como você o escreveu, mas porque dizia “racismo mata, machismo mata, homofobia mata”. O que me incomodou é que há uma diferença que precisa ser notada, Paulo Fred. Não é o racismo, o machismo ou a homofobia que mata. São os racistas, os machistas, os homofóbicos que o fazem. Pode parecer que não há diferença, mas há.
    Não é uma entidade chamada racismo que se junta com o machismo e com a homofobia numa página do Facebook para perseguir negros, mulheres e homossexuais e quebrar-lhes o crânio, violentá-los e acorrentá-los a um poste. São pessoas que fazem isso. Por mais monstruoso e insuportável que seja encarar essa verdade. Por mais que tenhamos o desejo de negar esse fato para manter nossa sanidade.
    Pode ser nosso vizinho ou mesmo um membro de nossa família ou ainda aqueles que elegemos “democraticamente” e que representam tão bem, ainda, os anseios fascistas do povo brasileiro.
    É luto, Paulo Fred. Parece que morre, dentro da gente, um pedaço de esperança no futuro.

    • pauloffred

      Olá, Ulysses, desculpe-me primeiramente por demorar tanto a responder. É que esse é um tema muito sensível, inclusive sobre o qual escrevo há certo tempo, e precisei meditar um pouco sobre as suas críticas. Não te conheço, mas lamento que você tenha ficado incomodado (pois você fez uma crítica não a partir dos suportes desses sistemas de dominação e de extermínio, como tanto vemos infelizmente por aí). Acho que você interpretou mal o meu saco de lágrimas: ele não tem a ver com negar a realidade, nem desistir da sua transformação, ele reflete apenas um cansaço temporário. O Brasil é provavelmente o país mais racista do mundo, e com certeza o que é mais cruel com a sua população, e eu cheguei aos 40 anos lutando contra isso, e nunca mais vou parar (já passei daquela idade do “incendiário aos 20, bombeiro aos 30”). Não ignoro nenhuma das leis que você falou, e sei do estrago que elas fizeram, não tanto pelo que estava escrito, mas pelo que não estava escrito: determinou-se que às populações negras seriam negadas as melhores oportunidades, os empregos, as vagas em boas escolas e etc., e isso estabeleceu raízes profundas nesse país mau em que vivemos.
      Quanto à distinção que você fez entre racismo e racistas (e daí em diante), é claro que ela é válida, é claro que existe responsabilidade individual em tudo que cada um de nós fazemos, mas não se esqueça que por traz dessa realidade, há as ideias. Outro dia tive a infelicidade de ficar preso perto de uma televisão passando “A praça é nossa”. É inacreditável que aquele tipo de humor ainda exista. Não vi um único esquete que não depreciasse de alguma maneira a mulher. É claro que os roteiristas daquele programa não estão matando mulheres, mas eles são muito responsáveis sim por difundir preconceitos, que se arraigam ainda mais nas pessoas, e que levam, sim, outros a matar (embora não exista nenhuma forma no direito penal de responsabilizá-los por isso). Espero ter respondido um pouco a contento, obrigado o feedback, obrigado a crítica, sempre é construtiva quando ela vem de pessoas como você, que pensam e são preocupadas com as mesmas questões que eu, abraços.

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