Da série: quantas vidas vivendo por aí (sem família)

A cidade de São Paulo tem 11 milhões de habitantes em uma área de 1.522.986 km2 resultando na  densidade de 7.383 pessoas por km quadrado. A gente lê isso e pode pensar que é quase impossível ficar sozinho na metrópole. Pelo menos até ler que pelo menos 300 mil pessoas moram sós. É uma cidade de tamanho médio, dentro da outra. Como será cada um desses cotidianos? Quantos vivem sós apenas por opção? Uma cidade dentro da cidade ou quase a população de Luxemburgo, o menor país da Europa, comento com o poeta “Se essa gente fundasse um país chamado Solidão”, ele emenda, “a capital bem podia ser o meu coração…”

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É só ir perguntando por aí pra descobrir que gente vivendo sozinha é mesmo coisa comum, de quase entediar.

“Eu moro só há muitos anos”.”Eu morei acompanhada, não foi sempre assim, não, mas é melhor, né ?”. “Eu gosto de morar sozinho, prefiro”. “Eu não sou sozinha, tenho Deus no coração, sempre”. “Não moro sozinha não, vivo com meu filho de 4 patas”. “Sou tão ocupada que não sei o que é solidão. Minha profissão ajuda a conhecer gente nova,tenho muitos amigos, visito a família nas férias. Morar sozinho não é solidão”. “Eu nunca estou sozinho, estou sempre me fazendo companhia”.

Ou seja, a maior parte das pessoas diz que não se importa de morar ou que sentir-se só é um problema menor, como a dona C., uma das poucas dispostas a esbanjar explicação:

“Tem uma coisa que eu considero que dói mais que solidão, que viver sozinha, essas coisas. Você vai achar engraçado quando eu disser, então eu tenho de explicar. É guardar segredo. Eu percebi isso muito novinha, naquele tempo as pessoas achavam que as crianças eram bobas mas elas entendiam tudo, isso não é coisa só de hoje. O que tem é gente que não entende nada, quando é criança, nem depois de velho. Eu tinha uns cinco anos e um tio me levou para passar uns dias na casa da família, no interior. Ele ia conversando com um amigo, eu deitei no banco de trás do carro e cochilei. Quando acordei ouvi sobre uma moça que ele gostava, que ele estava fazendo um apartamento, que ia passar alguns dias da semana com ela em São Paulo, os outros com a minha tia. Eu não lembro do que ele disse tim por tim tim mas entendi sim, perfeitamente, que ele tinha uma outra mulher. Então uma hora lá o amigo dele, tinha de ver o sujeito, fumava feito chaminé, lembrou de mim :

–          Cuidado, olha a menina.

E o meu tio disse

–          Ela está dormindo.

Eu estava de olho fechado, isso estava. Só que não demorou nada ele me chamou e perguntou se eu tinha ouvido alguma coisa. Eu disse que não mas, como não sabia mentir, ele insistiu:

–          O que foi que eu falei?

Eu disse que não sabia e ele só disse assim : é bom mesmo. Não tem nada que escutar conversa de adulto, adulto têm segredos, criança não entende nada. Foram o resto da viagem em silêncio e eu senti uma coisa. Uma coisa aqui dentro do peito, senti que tinha ouvido uma história muito séria mesmo, uma coisa assim, de morte, que não podia contar de jeito nenhum. Quando a minha tia veio receber a gente na porta fiquei olhando pra ela e com medo que ela lesse na minha cara. Posso ver ela direitinho, o rosto, o cabelo, o perfume, ela era muito perfumada. E eu não podia contar aquilo, eu não podia contar um segredo daqueles, ainda mais que eu tinha mentido que estava dormindo. Minha mãe era muito rigorosa, aquelas mães de antigamente, que educavam com mão de ferro,mentir de jeito nenhum, que o inferno era pouco para quem mentia. Ah. Mas esse não foi o primeiro caso de segredo, porque um pouco antes, eu era ainda mais nova, tinha só uns 4 anos, sei porque não estava na escola ainda, e meu pai me levou para a chácara de um casal amigo, para brincar. Ele disse pra minha mãe que ia me deixar cedinho e no final da tarde voltava para me buscar. Acontece que na hora do almoço ele apareceu. A gente almoçou numa área externa, todo mundo, a dona da casa, os filhos dela, nós todos suados de brincar no sol. Depois a dona da casa mandou a gente ir brincar no pomar e os dois ficaram na mesa tomando café. Acontece que algum tempo depois aconteceu alguma coisa, não lembro, acho que eu briguei com os outros e fui lá. Entrei pela sala e vi meu pai saindo do quarto dela. Ele disse que só tinha ido dormir um pouquinho no quarto dela mas no final da tarde, a gente voltando para casa, ele me avisou que não era para eu dizer nada para minha mãe. Que aquilo era segredo, que não podia contar se não iam acontecer coisas muito ruins.

Então foi muito nova que eu comecei a pensar que o mundo não era fácil. Eu lembro de começar a pensar que ia crescer naquele mundo em que os homens sempre escondiam coisas das mulheres, coisas que eles faziam com outras mulheres. Fiquei com um pouco de medo, tive assim, como se fosse uma desilusão com os homens, acho. Meus pais não brigavam, nunca, mas não era um casal de conversar muito. No fim da vida, minha mãe foi antes, meu pai seis meses depois, certinho No fim da vida deles, eu chegava do trabalho, ela estava vendo TV, ele mexendo, sempre consertando alguma coisa da casa. Depois a gente jantava, ficava vendo novela, ia dormir, fim de semana visitava uma tia ou outra, fazia compra no supermercado, depois veio o Shopping no sábado para comprar roupa, sapato, o normal. Mas eles não eram de conversar muito e eu também não. E olha: minha mãe morreu, meu pai morreu e eu não falei disso com eles nunca. Os homens da minha família eram todos cafajestes, acho que naquela época todos eram. Ou eles são assim mesmo? Eu não entendo nada de homem. Agora essa história toda não faz diferença mas teve uma época que eu sofria muito pensando: conto ou não conto pra minha mãe? Depois ele teve um outro caso que ela ficou sabendo, chorou tanto, tanto. Chorava escondido. Eu não contei para minha mãe porque fui adiando, adiando e chegou uma hora que nem tinha mais porque contar. Tudo muda na vida. Mentira muito velha perde a importância. Muita coisa perde a importância com o tempo. Não vou dizer que foi só por isso que fiquei sozinha. Tive uns namoricos mas… segredo é uma coisa que faz sofrer mais, eu acho.”

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Por último me contou que o pai teve um fim besta, besta. Estava sozinho em casa comendo um sanduíche, engasgou, e acabou morrendo sufocado. Deus me perdoe, completou, mas olhava para ele no caixão e pensava : tanto segredo entalado na garganta e olha só. Depois que eles morreram eu fiquei mais falante.Antigamente, não podia falar, não era bonito falar, tinha muita coisa que era proibido falar.

http://www.youtube.com/watch?v=jJj6JS7XLZY&feature=kp

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Categorias: Sociedade, Verso & Prosa | Deixe um comentário

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