Se…

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Se o jornalista usasse capacete… Se o manifestante não tivesse jogado o rojão aceso no chão… Se a polícia não usasse bombas de gás e balas de borracha indiscriminadamente… Se a passagem não tivesse aumentado… Se houvesse espaço de discussão na sociedade… Se as vontades de uma elite não impusessem uma nova cidade aos seus habitantes… Se… Se…

O pensador sentou-se no meio-fio em meio a explosões e comandos. Tinha sangue nas vestes e a respiração dificultada pela inalação do gás. O que vai ser agora? Pensava na vida do jornalista e torcia para o melhor desfecho. Olhou para o céu, viu abutres. A morte de uns sempre serviu para atender os interesses de outros. Enquanto aqueles choram, estes vendem seus lenços de ocasião.

Poucas vezes na história viu-se tanto canibalismo midiático. Uma cobertura nada jornalística, dolosa, com requintes de crueldade. Uma verdadeira torcida para a tragédia, pois ela serviria aos interesses mais imediatos das oito famílias. Não parecia importar que fora um deles a própria vítima. Era mais importante distorcer rapidamente os fatos.

Não mais que de repente, surgiram os dois maiores inimigos da nação. Alçados à condição de terroristas, serviriam como prova de que os Black Blocs são a versão tupiniquim do Talebã. A eficiência que faltou ao caso Amarildo sobrou quando o patrão mandou achar culpados. Independentemente de qualquer coisa, estavam lá, diante da tela, com algemas, em direção à prisão.

A imagem incita o desejo de uma classe inteira: prendam os vândalos! Amarrem-nos aos postes! Uma repercussão da qual não gozaram outras vítimas fatais das manifestações pelo país. Ou de tantas outras vítimas da violência policial. É que a polícia já está acostumada a matar nas suas incursões às favelas. Na leitura das manchetes, pobres são pretos, são bandidos, são todos sinônimos. E bandido bom é bandido morto, conforme chacoalham-se as joias empoeiradas em apoio ao bolsonarismo.

E segue o teatro, com seu roteiro que desafia a verossimilhança. Fogos de artifício para anunciar um defensor oportuno (para não dizer oportunista) que – voluntariamente – prontificou-se ao papel necessário à mídia: o acusador. Sem o menor pudor, acusou os inimigos de momento, envolveu-os em uma (frágil) trama de culpa e ganhou as manchetes. Um Joaquim Silvério para seus clientes: foi delator de seu paradeiro, incluiu-o como terrorista, criou entraves para a própria produção da defesa.

Inventou-se o Reality Show da notícia. E o que é mais espetacular do que fazer a prisão ser transmitida ao vivo? Não era uma divulgação da ação policial para a imprensa, mas a exclusividade de cobertura de uma emissora. Com direito a entrevista antes do depoimento – apimentada por seu próprio advogado. Enquanto um acusado responsabiliza o outro pelos fatos, o mesmo advogado faz a defesa das teses conflitantes. Saem os advogados militantes, entram aqueles milicianos.

Crescem os ataques à democracia e às liberdades. Faz-se um verdadeiro terrorismo sobre qualquer protesto. Quer-se a qualquer custo silenciar a voz das ruas. É necessário para os grandes eventos, para os grandes patrocinadores, para os grandes lucrarem. Vende-se o medo, a aversão e a mentira para uma classe reacionária sempre cooptável aos valores tradicionais da família e da propriedade. São as pessoas de bens.

E é assim, jogando povo contra povo, que pretendem sair dos holofotes os tubarões de comando, fazer a Copa acontecer e torcer para a festa lavar a memória da população. Querem criminalizar os partidos (alguém lembra agora que as manifestações que hoje são acusadas de financiadas levavam cartazes “sem partido” até pouco tempo?), ideias e quaisquer manifestações por nossos direitos. É o bolsa-protesto, a terceirização da mão-de-obra-militante-revolucionária. Alguém avisa a esses caras que estão me devendo um bom dinheiro, viu?

Dessa história toda, fica a lição de que o aumento da violência nos protestos não criará nada além dos argumentos tão desejados para a criminalização dos movimentos sociais. Por outro lado, não se pode deixar de dizer que, em última instância, é responsabilidade dos governos Cabral e Paes a morte do cinegrafista. Sim, Newton há muito já nos ensinava a diferenciar ação de reação. Mas isso nos leva de volta ao “se”. Uma morte estúpida e perfeitamente evitável. Como muitas outras.

Algumas mortes jamais saem nos jornais. Responsáveis jamais aparecem. Morrem e somem nas favelas, nos valões, aqueles que não merecem linha alguma no periódico. Morreram mais pessoas nos protestos antes do fatídico dia seis. Essas mortes parecem ter sido em vão. Diferente daquela de um trabalhador em seu ofício. Longe de servir como ponto de reflexão sobre o comportamento de nossa sociedade, presta-se hoje ao ofício ignóbil de garantir os lucros de poucos e servir de antolhos a um país inteiro. Desliguem a câmera, o show acabou.

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Categorias: Sociedade | 5 Comentários

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5 opiniões sobre “Se…

  1. Bela análise sobre o presente em nosso país. Falta isso hoje em dia: discussão ao invés de acusação; debate no lugar de torcida entre partidos; consciência política em troca de violência gratuita; Ponderação por justiçamento. Fiz algo parecido em meu blog semana passada. Se tiver curiosidade o texto está aqui: http://dhiancarlomiranda.wordpress.com/2014/02/12/o-brasil-e-o-pensamento-amoral-do-agora/

  2. Ray

    “… e torcer para a festa lavar a memória da população.” Triste verdade.

  3. Parceiro de blogueações, MUITO BOM!

  4. Alexandre Bollmann.

    Brilhante reflexão, como de costume. Pena que sua pena ainda permaneça invisível a uma grande maioria de mentes opacas desse país, onde a campeã de audiência e os campeões de votos, a se reelegerem com extrema facilidade, continuam dizendo às pessoas no que e como elas devem acreditar!

  5. Ulysses Santana

    Mais uma vez brilhante!

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