Uh, uh… é o Terror!

bonitão 2 c

Tremei, ó desajustados, baderneiros, atormentados, vândalos, manifestantes de toda a ordem, indignados de todos os tipos e mazelas, insatisfeitos de quaisquer causas: o Terror, cadavericamente, se aproxima. Brutalidades temerárias, castigos atormentadores, uso e usufruto dos manifestantes a um bel prazer que regozijaria Satanás. O inferno aqui, em carne ensanguentada e osso triturado, a preços módicos, tudo no padrão Rio de (e)qualidade. Administrado diretamente pelo virtuoso mercado imobiliário carioca.

Vem aí a mais temerária legislação antiprotesto já vista no velho oeste e no novo ocidente. O dano aa propriedade acarretará condenações capazes de ultrapassar mesmo um homicídio, afinal, coisas são vitais; sobretudo as coisas chamadas negócios os quais- isto tá mais que claro, em que pesem as trevas galopantes horizonte adentro- são inegociáveis.

É algo de, sem exageros mesmo, deixar viúvas da ditadura, cães bastardos do ontem, babando. Só falta serem oficializadas as práticas de tortura. Se bem que já há setores da sociedade cuidando disso com tanto denodo, que nem vai carecer. “Queimem a bruxa! Enfiem a porrada no crioulo safado! Espanquem o viadinho! Porrada nos vândalos!” Sem saída!

Decididamente a Copa do Mundo (tal qual o lombo) é nossa! Como a ditadura brasileira foi de visão. Só não anteviram um governo representado por ex-militantes oriundos de manifestações articulando uma legislação dessas. Como declarou a dita cuja presidentíssima, se for necessário, o exército, inclusive, coibirá protestos.

Franco (com e sem trocadilhos com o maldito fascista) foi o processo da Revolução Francesa: é o Terror! E pronto.

O fantástico e polivalente medo. Responsável pela nossa própria sobrevivência, tanto cotidiana, quanto como espécie. Ao mesmo tempo, uma força-motriz mobilizadora de tenebrosas reações. Quanta barbárie já não se praticou e se pratica em nome do medo? Dona Duarte, imperatriz suprema do medo, que o diga…

O medo irracional, primário e vociferante que prende, espanca e arrebenta. Medo de classe: o mais dilacerante e reativo dos temores. Daí reacionarismo.

O medo do que ronda, do que rola, dos rolés. O medo intestinal carcomido e selvático. O medo armado em defesas. Medo, medo, medo! O tão celebrizado medo do fantasma do cinegrafista, tornado amedrontador para proliferar  medo voraz.

medo

Congresso Internacional do Medo (Drummond)

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Com a matéria prima do medo primaz, nutrido em fúria, decantado em vingança, ergueremos portentosas muralhas intransponíveis, impenetráveis. Para nos proteger, isolar, segregar. Enfim, venceremos o terror e seus terroristas. Amparados pelo medo, seremos, então, livres e democráticos, sem diferenças, divergências, dúvidas, questionamentos. Uma nação compartilhando um nobre objetivo: instaurar medo e senti-lo. Uma utopia de bem-estar!

macabro

Senhores da guerra a semear o medo! Medo até do próprio medo. Um bastião colonizado pelo medo.

Lá fora estão os Senhores da guerra

E cantam já hinos de vitória

Qual é a história desta terra?

É o medo

Ali mesmo

 

Cá dentro estão os homens à espera

Unidos no destino da terra

Já não há memória de paz na Terra

E o medo

Ali mesmo

 

Ó terra

Mais um dia a nascer

Ai, é menos um dia a perder

É tão pouca a glória duma guerra

E os homens que fazem as vitórias

Já não há memória de paz na terra

E o medo

Ali mesmo

(Letra: Pedro Ayres Ferreira Magalhães)

Pra ser coerente, até a camisa da seleção brasileira de futebol remete ao medo: amarelidão, a mesma que nutre a intrínseca e incontrolável bile.
Saudações a quem tem coragem! Sem medo do futuro…
Anúncios
Categorias: Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , | 4 Comentários

Navegação de Posts

4 opiniões sobre “Uh, uh… é o Terror!

  1. Affe ! Texto mais lindo !! Posso confessar que emocionou …confesso que chorei !
    Medo ? Nunca .

    Beijos ,
    Ana

  2. *-* Que declaração mais bela! 🙂 Obrigado por sempre prestigiar de peito tão aberto. Beijo!

  3. Pingback: Novos tempos! (Só que não…) | transversos

  4. Flávia Belo

    Tô com um nó no peito, um aperto… Maldito MEDO… sinto-o pelas feridas que estão impressas em algum canto mais sombrio do meu ser, coisas ocorridas no passado e que, embora eu insista em seguir em frente, o maldito medo sempre me faz parar de vez em quando… seu texto incrivelmente bem escrito me trouxe o TERROR de ter de olhar pra dentro de mim, onde não vejo a localização exata dele, mas SEI q ele está lá, paralisando minhas pernas… o MEDO! Seu texto me chacoalhou e doeu… agora vou pensar… quem sabe minhas pernas não voltem a se mover… Não podemos agradecer apenas pelas palavras fofas, né? OBRIGADA por suas duras, realistas e extremamente bem escritas palavras!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: