Lugar Comum

Alice de Carroll

Alice de Carroll

O bar se chamava Lugar Comum, Kawé ainda se lembra. Das várias vezes que esteve lá, apenas duas não lhe saíam da memória: quando foi machucada para sempre por aquele marido, ainda por cima ajudado por sua melhor amiga, e quando quase fez amor com o garçom. Era quatro de novembro de 1988 e ela fora arrastada pelo marido e sua melhor amiga para aquele bar. Estava apavorada. Você sabe quando o seu mundo desaparece de um dia para o outro? Já viveu algo assim?

Pois Kawé foi sequestrada para um outro mundo, paralelo, parecido e totalmente outro. Sentia-se caída em um túnel  Lewis Carroll, abandonada nua em um mundo onde ela não existia, não era reconhecida, cheia de gente estranha em volta, gente enfiada nos corpos de seu marido e seus melhores amigos, antes um mundo tão sedutor e confortável, agora ela sem chão voando no medo.

Fazia aniversário, redondos trinta anos naquele dia. Foi quando a amiga perguntou, diante de seu silêncio paranóico: será que tu estás na crise dos trinta e com medo de ficar velha? Kawé pensou que tenho de sair daqui, fugir dessas pessoas, ir embora porque aqui eu vou morrer. Ela vendo o seu partido político/família, esse lugar para onde ela fugiu em plena ditadura militar, se desmantelar, virando uma correria de gente querendo cargos e poderes vazios de sentido. Fugira de uma cena na qual um pai enfurecido gritara coisas de que ela nem se lembrava mais, coisas como puta, virou puta e coisa e tal. Tornara-se menina musa de manifestações feministas estudantis. Casara com um lindo jovem de cabelos negros, lisos e compridos, pele clara, olhos negros e aveludados. Saiu dali, e enlouqueceu de vez, largou o marido e todos os amigos e foi vagar solitária durante anos e anos em uma cidade tomada pelo delírio, bandeiras vermelhas feitas em casa penduradas em janelas que pareciam todas as janelas. Parecia que todos os homens eram membros do governo, fora os deprimidos, alcoólatras e cafajestes de todo o tipo.

bruegel

Um dia, Kawé andava pelas ruas, depois da meia-noite, quando caiu uma chuva torrencial, súbita. Foram as duas, ela e a solitária e cética amiga, bater na porta daquele bar chamado Lugar Comum, tentando um abrigo. Um garçom abriu a porta, sorriu, falou está fechado, entrem. Elas duas pingando água da chuva. Era um lindo garçom, ela não se lembrava de nada dele, um pouco maior que ela, cabelos escuros e revoltos, pele clara, olhos amendoados e cor de mel, boca carnuda; certamente lembrava-se do que desejava que ele tivesse sido, mais do que dele mesmo. Com certeza não fez sexo com ele porque estava com aquela sua amiga tão rígida e frágil lá embaixo, em uma mesa do bar. Aquela amiga que mantinha Kawé se fingindo de normal naquele mundo louco e vermelho. O garçom perguntou se ela queria se secar um pouco lá em cima, em uma peça onde os funcionários do bar se trocavam e guardavam suas coisas. Ela foi, feliz e querendo. O garçom lindo olhando pra ela, lá em cima, naquele quarto. Lembra-se de ter tirado a blusa, de que ele a olhava com olhos de liberdade.

Não se lembra de mais nada. Crê ter se secado um pouco com uma toalha oferecida por ele. Crê ter descido e comido alguma coisa que eles arrumaram para elas. Deve ter ido embora, meio bêbada, como já estava antes de entrar no Bar.

dama da noite

Deveria haver mais gente tentando encontrar algum sorriso sincero naquele tempo, naquela cidade assombrada por desejos vis. Eles pareciam os vampiros da música do Michel Jackson, toda a cidade assim. Deveria haver mais gente querendo fazer amor de verdade, naquela época, mas só os vampiros estavam se mostrando em público.

Kawé lembra de ter tido tanto medo que achou melhor deixar aquele garçom lá, naquela imagem perfeita e bem guardada em uma de suas garrafas para jogar no mar, para comunicar com outros sobreviventes um dia, em um novo bom dia.

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