Fim da Estação?

Primeiramente, esse texto é meu último neste espaço, aas terças. No ano passado, tal espaço se destinou basicamente a poemas e a assuntar música, cinema, quadrinhos e congêneres. Neste ano, diante da necessidade de produzir menos textos no blogue pra poder produzir outra ordem de textos bem importantes na minha vida, vou ficar só aos sábados mesmo. Além disso, as terças passarão a ser ocupadas de forma mais regular, como cês verão em breve. No mais, vou tentar incorporar, quando der, essas temáticas aos meus textos de sábados, afinal Nunca se sábado e quem sabe volta e meia, num dia em que algum colunista não venha a publicar, eu não peça um espacinho emprestado.

A quem interessar possa, pra acessar esses textos, basta digitar, na busca do blogue, rock, cinema, quadrinhos ou desengavetando, para os poemas. Há ainda um único texto duma série não continuada sobre uma comunidade virtual intitulada Botequim Socialista.

Bem, mas vamos ao texto.

Nos últimos dias, uma postagem na rede espalhou-se largamente. O empresário Marcelo França Mendes, sócio do Grupo Estação de cinemas, declarou que a Rede Estação, cultuada por gerações de cinéfilos cariocas, pode estar a fechar suas portas, devido a uma dívida da bagatela de 31 milhões, em sua maior parte devidos aa prefeitura do Rio de Janeiro e ao grupo Severiano Ribeiro, apontado pelo próprio Marcelo França como parceiro do Grupo.

No mesmo dia, foi aberto um grupo no feice, em apoio ao Grupo Estação. Em menos de 24 horas, já eram cerca de 1500 participantes. Agora, conta com uns 7500 e crescendo. As postagens lá se dividem entre declarações de afeição e gratidão aa Rede Estação e questionamentos e proposições acerca da situação vivida pelo Grupo e suas salas de cinema. As propostas são bem variadas, desde campanha pelo perdão da dívida até rolezões nos cinemas da Rede. Independente de qualquer coisa, a comunidade vale a pena pelos registros fotográficos e depoimentos. É um registro de parte importante da vida cultural carioca.

rede estaçãoFalar do estação, pra mim, envolve, em primeiro lugar muito afeto. Parte considerável de minha formação de apreciação cinematográfica foi feita nos cinemas da Rede. Junto ao CineArt UFF, são as salas de cinema inesquecíveis de minha vida, onde assisti a muitos dos filmes que me ajudaram a ser quem sou, com as reflexões, paixões, forças e fraquezas que carrego comigo. Sei que um sentimento parecido ecoa no coração e na cabeça de muita gente quando se pensa na possibilidade de fechamento dessas salas de cinema, hoje seis:

  • o Estação Botafogo, o primogênito inaugurado em 1985;
  • o Estação Rio, o “segundo Estação Botafogo”, que deve ter em torno de uns 15 anos hoje;
  • o Estação Ipanema;
  • o Estação Gávea, um dos responsáveis pelo megaendividamento, com uma construção orçada em 6 milhões e custo de execução de quase o dobro;
  • o Estação Barra Point e
  • o Odeon Petrobras, talvez o único que pudesse se manter aa parte do grupo, por todo o empenho da Petrobras em sua recuperação.

A Rede já foi maior. Lá se foram o Estação Paço, uma saleta pequenina e aconchegante no acessibilíssimo Paço Imperial, o Estação Icaraí, que durou pouco tempo na verdade e acabou não sendo absorvido pela dinâmica cultural-cinéfila de Nikity, o saudoso Estação Payssandu, cujo fechamento já anunciara agouro na vida cinéfila carioca.

estação paissanduAlém dessas salas, o fechamento das locadoras é de chorar, a do Estação Payssandu e a do Botafogo, dois oásis de cinema alternativo, acervos soberbos que se vão/foram.

Isso sem falar, claro, que, sem a Rede Estação, talvez nunca tivesse havido o Festival do Rio, hoje motivo de orgulho para a cidade e que abriu caminho para a incorporação de uma cultura de festivais que, indiretamente, pode ter favorecido um Anima Mundi da vida, por exemplo, dentre outros eventos de formato similar.

Nas últimas três décadas, faça chuva ou faça sol, a Rede Estação faz parte da vida cultural da cidade, tendo incorporado eventos e iniciativas de divulgação de cinema, sessões voltadas a escolas e professores, por exemplo- é verdade que em horários que poderiam ser mais dilatados, flexíveis.

Com tudo isso posto, fica mais do que clara minha visão e interesse em que as salas continuem aa disposição da cidade, de preferência com preços mais acessíveis. Dia 03 de abril é o dia D em que a justiça decidirá se o Grupo Estação encontra-se ou não em condições de fazer frente a seu endividamento. Se a resposta for negativa, essa página, ou melhor, rolo belíssimo do Rio estará cortado.

É verdade que a Rede Estação não é o único refúgio ao cinema blockbuster das redes Kinoplex e Severiano Ribeiro. Temos as salas do Laura Alvim, do CCBB, o Artplex (mais ou menos, né?), na praia de Botafogo [Pena demais a sala mais confortável da cidade, a da Casa França-Brasil, ter fechado!]… Mas, com certeza, a Rede Estação é um refúgio seguríssimo e já da total confiança e carinho do público cinéfilo da cidade, confidente de tantas emoções instantâneas, dalgumas mais longevas, enfim, dum sentir autêntico.

Isso tudo no Rio que viu tantas salas de cinema de rua fecharem nas últimas duas décadas. Fecha-se um cinema, abre-se uma igreja. E a cidade foi ficando mais circular e menos longa, em sua metragem.

Com toda a carga emotiva, em torno da questão, ainda assim, há de se atentar pra algumas preocupações sérias em torno da questão. A ideia de se anistiar dívida junto aa prefeitura, por exemplo, é pra lá de complicada. Afinal, trata-se dum grupo privado devendo aos cofres públicos. Essa observação tem em vista, claro, a própria sociedade carioca. Isso porque o imprefeito da cidade, com certeza, não tem quaisquer dilemas morais, éticos, políticos ou sociais em “doar” benesses aa iniciativa privada. Contudo, justamente por isso, não é papel de quem quer continuar a ter um espaço privilegiado de reflexão na cidade, propor essa indecência. Se houver solução no âmbito da dívida junto aa prefeitura, ela deveria pressupor contrapartida do Grupo aa cidade. Isso me lembra até a época da contenda pela posse do Canecão, envolvendo a UFRJ. Naquele episódio, houve, com bastante eco e mobilização, a proposição de se tombar a casa de espetáculo, assim imortalizando o lucro de seus donos, claro.

Aliás, o imprefeito Eduardo Guerra & Paes ® acaba de abrir o cofre da prefeitura pra custear estúdio de televisão em Copacabana destinado a canais privados. Enfim… por se tratar de quem se trata, as soluções também não são animadoras e nem devem incluir nenhum tipo de parceria pra popularização do cinema. Acho inacreditável, por exemplo, nunca ter havido uma sala do Estação na Zona Norte…

Voltando aa prefeitura, aliás, parte apreciável da dívida remonta ao ano de 2007, mesmo ano da construção do Estação Gávea, quando o então mandatário César Maia retirou um patrocínio, em cima da hora, ao Festival do Rio e, a partir daí, se iniciou uma bola de neve de gestão no Grupo.

Eu gostaria de, noutro Rio, pensar na possibilidade de municipalização das salas de cinema, sem mudança de sua atividade fim. Mas, na linha de governos que temos tido, isso me parece mais surreal do que o atual custo de vida na cidade.

estação-botafogo-2-final

A Rede Estação não é só um refrigério aas salas blockbuster do Rio (não confundir com blackbloc buster- seria ofensivo aos últimos). É um refrigério pra alma. Já fui tocado por tanto do cinema epifânico nas salas da Rede. Cinema, mais do que diversão,  entretenimento e cultura, é Vida! Existir pulsante…

Se o pior acontecer, só rogo pra que a gatinha (de quatro patas, bigode, rabo e tudo) do Estação Botafogo não fique desguarnecida. No mais, peço a Eisenstein, Fellini, Kieslowski, Bergman e tantos outros deuses que encaminhem uma solução que preserve os templos cinematográficos e agracie a cidade do Rio de Janeiro da forma mais ampla possível, inclusive, para além da perspectiva tantas vezes socialmente restrita que a Rede costuma abarcar.

gata estação

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Categorias: Cultura | Tags: , , , | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Fim da Estação?

  1. danisa

    Uma pena se a rede estação fechar… logo agora que estou mais perto e poderia ir mais vezes… 😦

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