Traumatismo ucraniano. Estamos todos no mesmo barco?

Ça, ce n'est pas les Black Blocs

Ça, ce n’est pas les Black Blocs

A Ucrânia é a Rússia sem Putin, e isso não é uma boa notícia. Quando do desmoronamento da União Soviética, e dos regimes comunistas do Leste Europeu, no fim da década de 1980, uma espécie de padrão foi seguido, tendo, por modelo mais “acabado”, a Rússia: os chefões locais dos antigos partidos comunistas se apropriaram, como compradores ou como vendedores, de praticamente toda a riqueza dos seus países. Em lugares onde o Estado era “proprietário” de quase tudo, grandes fortunas foram erguidas da noite para o dia, a partir da “onda de privatizações” (na verdade liquidações) de simplesmente tudo: fábricas, direitos de prospecção de petróleo, de gás natural, e até de imensos prédios de apartamentos. Esses antigos chefões, agora chamados de oligarcas, tornaram-se grandes empresários, ou políticos, ou políticos-empresários, estabelecendo entre si e com o que restava desses Estados toda sorte de ligações perigosas. Para se ter uma ideia, na Rússia, no período pós-transição, sob o comando de Boris Iéltsin e de diversos consultores entusiastas do “livre mercado” contratados no ocidente, todos tão inexperientes quanto irresponsáveis, em pouco tempo apenas 36 novos bilionários se apropriaram de um quarto do PIB, isso na oitava economia do planeta (um descalabro até para padrões brasileiros de concentração de renda). Surgia assim uma estranha classe capitalista, que não produzia coisa nenhuma e apenas rapinava os espólios daquilo que um dia haviam sido economias nacionais, às vezes de forma coordenada, às vezes em feroz competição. Esse padrão reproduziu-se no Leste onde quer que houvesse muito o que roubar – petróleo, gás, minério, metais preciosos, oleodutos – e nenhum impedimento para o roubo. Esse modelo tornou-se conhecido na literatura especializada pelo pouco lisonjeiro nome de “cleptocracia”.

Na Rússia, o processo foi estancado por Putin, que controlou as máfias dos oligarcas, colocou os mais recalcitrantes na prisão e subordinou aos interesses do Estado os que sobraram. Nada parecido com esta segunda etapa passou-se na Ucrânia.

O país, que nos últimos cem anos foi, antes de ser Ucrânia, União Soviética, Polônia e Império Habsburgo, foi dividido por sangrentas guerras civis que começaram ainda durante a Segunda Guerra, entre ucranianos, russos e, principalmente naquele momento, poloneses, assim como entre os muitos apoiadores do nazismo e os apoiadores da União Soviética. As atuais diferenças entre o oeste (grossíssimo modo pró-ocidente, pró-Alemanha) e o leste do país (grossíssimo modo pró-URSS, depois, pró-Rússia) ainda são fortemente marcadas por esse passado.

A situação com que a Ucrânia encerrou a década de 1990 não podia ser mais desesperadora: altíssima inflação, salários baixos até para os padrões do Leste Europeu do período, imigrações de jovens para o oeste, especialmente do sexo feminino, para abastecer o mercado do sexo na metade rica da Europa. Para a população ucraniana (assim como para várias outras na região), a entrada no capitalismo significou o fim das garantias sociais do comunismo (como emprego e moradia para todos) em troca do espetáculo escabroso de assistir à degradação total do país e do seu nível de vida, na mesma proporção do enriquecimento imoral de uns poucos. O cenário político-partidário também não poderia se mais desalentador. Não vou esmiuçar neste espaço as relações perigosas entre política-patrimônio público e pessoas de nomes impronunciáveis. Resumindo muito, o último secretário-geral do partido comunista ucraniano, logo depois primeiro presidente eleito da nova república, Leonid Kravchuk, foi o “organizador” da cleptocracia (na posição de vendedor). Governou em favor do ocidente e dos grupos nacionalistas do oeste do país. Quando saiu do governo foi trabalhar em um poderoso e cleptocrata grupo empresarial conhecido como “Kiev Holding” (sem surpresa alguma para ninguém). Seu sucessor foi Leonid Kuchma (foi antes primeiro-ministro de Kravchuk), de orientação pró-Rússia. Deu continuidade às privatarias e teve um governo envolvido em todo tipo de escândalo de corrupção (uma empresa imobiliária em seu nome aparentemente lavava dinheiro do tráfico colombiano e vendia armas para Saddan Hussein). Diversos jornalistas “desapareceram” durante seu governo (alguns tiveram os corpos encontrados, com sinais de mutilação e de tortura), coincidentemente os que denunciavam seus negócios escusos. Chegou a ser condenado pelo assassinato de um deles, mas a sentença nunca foi cumprida. A ex-primeira-ministra e ex-presidiária que agora periga voltar ao poder, Julia Timoshenko, tornou-se nos tempos da privataria uma poderosa empresária da área do gás. Viktor Ianukovitch dispensa apresentações, e este resumo objetivava apenas mostrar que ninguém presta e que as coisas têm muito baixas possibilidades de terminar bem. Todos são oligarcas, ou representantes de oligarcas, que disputam entre si apenas a defesa do seu melhor interesse, ora tendendo para o Oriente, ora para o Ocidente, não segundo qualquer tipo de alinhamento ideológico, mas pelo puro e simples “quem dá mais” (tanto que todos eles oscilaram de um lado ao outro nos curtos espaços de seus governos).

Para um passado sinistro, um futuro nada promissor


Quem são, afinal, os manifestantes de Maiden? As avaliações podem variar segundo as fontes. Para alguns, trata-se de uma frente ampla, que vai da esquerda à extrema direita, passando por nacionalistas de todos os matizes. Segundo páginas de movimentos de esquerda europeus, trata-se preponderantemente de um movimento fascista. Há fortes indícios de que os segundos estão com a razão. Primeiro, um dos partidos à frente do movimento é o Svoboda, que já respondeu pelo nome de “Partido nacional-socialista ucraniano”. Segundo, há um bloco, majoritário, que é conhecido apenas como “A Direita”, que reúne variados grupos nacionalistas (inclusive o Svoboda), que parece ser o grande organizador dos protestos. Esse bloco conta com um braço político e um militar. Em algumas cidades do oeste, como em Lviv (antiga capital regional do Império Habsburgo), eles já assumiram as funções de segurança pública, substituindo as forças policiais convencionais, que desapareceram. Nada pode parecer menos alvissareiro do que isso em um país que forneceu voluntariamente pessoal para a Waffen-SS (Divisão Halychnya, temida em todo o leste europeu) e que tem uma longa tradição de conivência com o fascismo.

Até hoje, mais de um quarto da população da Ucrânia vive abaixo da linha da pobreza (uma aberração para padrões europeus). Com toda a degradação acima descrita das condições de vida e em vista desse histórico, é claro que se há de temer que a opção pelo fascismo seduza parte significativa da população. Os recentes apelos de rabinos e da representação diplomática de Israel, para que os judeus evitem as ruas ou, se possível, saiam do país, só acrescenta ainda mais desconfiança em relação ao processo em andamento.

Aparentemente, a “estabilização” após a renúncia de Viktor Ianukovitch está sendo arranjada por grupos de oligarcas, que teriam usado os nacionalistas (ultras ou não) para alcançar seus objetivos circunstanciais de aproximação com a UE e afastamento de Moscou. Outro grave erro histórico. Na Alemanha, a alta burguesia ligada aos setores industriais e bancários também insuflou o nacional-socialismo, acreditando que poderia manipular ou domesticar Hitler (visto por eles como um camponês simplório). Deu no que deu.

Seja como for, o sangue é ruim para os negócios, e agora, ao que tudo indica, eles tentam refrear o processo por eles próprios fartamente insuflado – um dos grandes financiadores e entusiastas do movimento Maiden é Viktor Pinchuk, um dos empresários mais ricos do país, que enriqueceu durante a privataria com a compra da Kryvorizhstal, uma das maiores usinas de aço do mundo (ele era genro do presidente da Ucrânia na época da compra, nada surpreendentemente).

A reação mundial também não poderia ter sido mais desconcertante. Americanos, europeus e russos deixaram há muito qualquer sutileza e se digladiam abertamente na defesa dos seus próprios interesses na região. A imprensa mundo afora parece “ignorar” a gravidade dos eventos e dos riscos que os desventurados ucranianos correm, como cair em uma ditadura fascista ou em franca guerra civil. No Brasil, parte da imprensa saúda os “manifestantes”, gastando com eles os elogios que tão sovinamente economiza em relação aos nossos próprios movimentos organizados, que estão nas ruas pedindo reformas políticas, mais participação, mais voz, melhores serviços, entre tantas outras pautas, todas imprescindíveis para a sociedade brasileira romper de vez com a sua estagnação social secular. A mesma imprensa saúda também a nova tentativa de golpe na Venezuela. Pelo visto, para cair nas boas graças dos grupos brasileiros de mídia, é necessário que você seja financiado pelos grandes agentes econômicos para derrubar governos eleitos democraticamente (nunca é demais lembrar que tanto Maduro quanto Ianukovitch chegaram ao poder via urnas, gostem ou não).

Foi curioso também ver a matéria desta semana da The Economist se referir aos eventos atuais na Ucrânia como “revolução”, e aos de 1917 na Rússia como “golpe bolchevique” (quem foi o professor de história dessas pessoas?) No leste do país, em Kharkiv, no dia 23 de fevereiro, dia do Exército Vermelho, vários velhinhos octogenários colocaram seus uniformes de ex-combatentes e foram para a frente da estátua local do Lênin, ameaçada de ser derrubada pelo “A Direita”. Fico do lado dos velhinhos.

Momento Zora Yonara e as previsões para o futuro


Todos os “previsores” de futuro que fazem previsões confrontáveis com a realidade quebram a cara cedo ou tarde (salvam-se os que usam aquelas técnicas manjadas desde Aristóteles, de só “prever” coisas suficientemente vagas ou ambíguas para serem aplicáveis a qualquer situação). Ainda assim, arriscaria “prever” que a Rússia de Putin não vai deixar a situação na Ucrânia correr ao sabor dos ventos ocidentais. Ninguém que fale sobre o que se passa neste momento ignorando a questão da base de Sebastopol sabe o que está falando. O principal interesse Russo na região de longe e disparado é a manutenção da sua base naval na Crimeia (seu único porto perene e sua saída para o mar negro), ainda mais nesse momento em que, cansado da estupidez da política externa americana, o país resolveu rearmar a sua marinha e recuperar a sua antiga posição de potência de alcance global (expliquei isso melhor aqui no blog, em “Tudo que você queria saber sobre a nova geopolítica” – https://transversos.wordpress.com/2013/10/09/7418/). Uma conveniente secessão da Crimeia não é uma hipótese fora do tabuleiro. No entanto, a Ucrânia não é a Georgia, e uma intervenção militar mais direta, como a que envolveu a Ossétia do Sul há seis anos, não parece o desfecho mais provável (embora, em se tratando de Putin, tudo seja possível). Ainda assim, um golpe de estado claramente em benéfico dos interesses dos EUA, da UE e da Otan (e com fortes evidências de ter sido orquestrado em capitais mais ou menos distantes de Kiev) não prosseguirá sem qualquer reação por parte de Moscou.

Que ninguém diga que falei bem do Putin, mas a comparação que iniciou este texto merece ser expandida. Existe um conceito bem perigoso que é o de “Interesse Nacional”. Tão perigoso que entre os seus maiores usuários constam as ditaduras militares (sobre)vividas pelos países da América Latina. O maior problema do conceito é que ele tenta confundir os interesses do país com interesses que na verdade são do Estado, ou das suas elites dirigentes econômicas e políticas, e que raramente coincidem com os interesses da população. Nesse sentido, Putin é um excelente defensor do “interesse nacional” russo. Ele, como dito acima, subordinou os oligarcas aos interesses do Estado, salvando este último da desintegração, e recolocou a Rússia em condições de enfrentar os ataques que ela continuou sofrendo do Ocidente, mesmo após o fim da Guerra Fria. A situação atual da Ucrânia é da falta de um Putin. É como se o país tivesse sido governado (sic) por uma sucessão de “Iéltsins”. Agora, o país está à beira da catástrofe, que possivelmente virá na forma do esfacelamento do território, da ascensão do fascismo ou da guerra civil.

Nada de novo. Nada de bom.

Links úteis:

Esse contém várias imagens de manifestantes fazendo saudações nazistas

Apelo dos rabinos (e da representação diplomática de Israel):
http://www.20minutos.es/noticia/2066536/0/rabinos-ucranianos/recomiendan-judios-kiev/abandonen-ciudad/

Contraponto. Isso é um apelo de uma manifestante por apoio internacional:
http://9gag.tv/v/3515

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Categorias: Política | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “Traumatismo ucraniano. Estamos todos no mesmo barco?

  1. Muito bom, mesmo, o teu texto. Vou tentar contribuir com teu pensamento: não estamos no mesmo barco da Ucrânia e do Egito, e nem mesmo estes dois terão soluções idênticas. Exceto pelo fato de ser uma decadência planetária da civilização industrial, os desenhos de sentidos e densidades mórficas são diferentes de nação para nação. Soluções diferentes emergirão em cada território étnico, ou conjunto de etnias formando uma nação construída na modernidade. No Brasil, os sistemas de controle social estão vigorosos e tendem a se tornar cada vez mais eficientes. E eles, os controles, estão sendo costurados de forma estritamente legal. Há justificativas sólidas, no campo das teorias do Direito, para a hierarquia das normas em nosso país. O que a esquerda renovada não está conseguindo pensar diz respeito ao vício desta esquerda, ainda ligada à velha esquerda ortodoxa em sentido filosófico, em interpretar o mundo como infraestrutura material e supraestrutura ideológica. Isso é um erro fatal. A configuração das ciências jurídicas e administrativas é cada vez mais inteligente e com “programas” sofisticados. A esquerda terá de estudar o Direito no Brasil e encontrar fórmulas para não serem presos e maltratados os meninos e meninas de seus setores jovens. Isso vale também para os anarquistas, por mais incrível que pareça. O anarquismo tradicional é muito embebido no marxismo, como as religiões afros se misturam ao catolicismo, no Brasil. Os anarquistas vão fracassar se não estudarem o Direito brasileiro e não souberem construir algo inteligente, viral, desconstrutivo ao modo Derridiano.

    • pauloffred

      Dinah, eu não entendo muito de Derrida, e nem de direito, mas o que eu vejo aqui, é uma sociedade que esmaga as pessoas, de todas formas, pelo direito muitas, mas para além também, muitas outras. Eu não acho que a solução para o Brasil venha de mudanças de leis, infelizmente. Acho que os grandes grupos econômicos e partidários estão impondo um limite muito perigoso para as reivindicações populares. O limite da porrada e da criminalização. Ando muito pouco otimista com o que vai acontecer daqui para a frente. Só vejo acirramento, de todos os lados, e as esquerdas tradicionais abandonando cada vez mais os setores da população que precisam das respostas mais imediatas, por uma questão de vida ou de morte, como os índios, os sem teto etc.
      Obrigadão o elogio e a crítica 🙂

  2. rodrigo medeiros

    Você falou bem do Putin. O Putin consolidou seu poder e de seus pares, ele não ‘colocou a oligarquia sob controle’. Você fala que o principal objetivo é a defesa do porto, ignorando a causa real do início de tudo que ocorre hoje, e que de fato é o principal objetivo russo: a construção (ou finalização, não sei quem estágio anda) de um oleoduto para abastecer os parceiros Russos no oriente (e vice-versa, abastecendo refinarias de propriedade da agência de energia Russa de crude, para revenda para seu quintal). Como sempre, a lógica de que somente interesses ocidentais se utilizam das ferramentas tradicionalmente empregadas pelo serviço secreto do país é ignorada, como se o povo ucraniano fosse idiota, não soubesse que entre dois males, o mal novo é certamente o melhor. Não curti.

    • pauloffred

      Caro Rodrigo, agradeço a sua crítica e a sua contribuição, mas sou obrigado a discordar de praticamente tudo. Mas antes, gostaria de dizer que você está certo quanto à questão dos oleodutos. É o petróleo da região que explica a intervenção de Moscou em toda a sua área periférica, assim como é o controle das fontes energéticas que explica as desastradas intervenções de europeus e americanos nas franjas do país. Porém, se o petróleo é uma questão de sobrevivência econômica (sem dúvida importantíssima), não se esqueça que o acesso ao Mar Negro é uma questão de vida ou morte, que a disputa com a Turquia (na época, Império Otomano) pelo controle dos estreitos já gerou a guerra da Criméia, no século XIX, e foi o ponto mais evidentes da rivalidade entre esses Estados durante a Primeira Guerra Mundial. Para além disso, sou obrigado a reforçar o que já disse no texto, de que eu nunca falaria bem de Putin. No entanto, é fato, e eu desconheço qualquer analista que negue isso, que ele impediu o completo colapso da Rússia, enquanto Estado, enquanto Nação, enquanto qualquer coisa minimamente estável que seja. Suas observações sobre o povo ucraniano são pertinentes também. Eu sou sempre o primeiro a me opor às teorias de “o povo é burro”, “o povo não sabe votar” e etc., venham elas da esquerda ou da direita. Mas, nesse momento específico, estamos assistindo à ressurreição do fascismo (na verdade, do próprio nazismo). Então, não é um bom momento para sustentar teses do tipo o povo ucraniano não é idiota. Perseguindo judeus, formando milícias que aterrorizam qualquer tipo de opositor e começando a cometer atos de barbáries, nesse momento, o povo ucraniano (apenas parte dele, com certeza) é o povo mais débil-mental do planeta.

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