O cabelo, o sexo e a viga

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“Olha a cabeleira do Zezé… Será que ele é? Corta o cabelo dele”.

“Nega do cabelo duro que não gosta de pentear/ Quando passa na baixa do tubo/ O negão começa gritar/ Pega ela aí / Pra quê?/ Pra passar batom/ Que cor?/ De violeta, na boca e na bochecha/ Pega ela aí / Pra quê?/ Pra passar batom/ Que cor?/ De cor azul, na boca e na porta do céu”

Analisado e sentido de um ponto de vista romântico, o carnaval reflete a igualdade entre as classes, a democratização dos espaços, de tal forma que no mesmo bloco, no mesmo baile, na mesma escola de samba, encontrem-se pessoas cuja diversidade tem como mesma paixão a folia.

Diferente desse sentimento de inclusão, o que vemos de sobra pelas ruas é a violência associada à depreciação do outro. O nosso igual, aquele que se irmana na cerveja e no suor, no samba no pé ou na dança dos dedinhos indicadores, repentinamente teme ser apontado, agredido, esculachado.  O bebê de tarlatana rosa, que horripila por ser simplesmente gente.

As agressões seguem brutais. O outro é a lésbica, o gay, a prostituta, o negro. O outro é o bêbado ou a bêbada, cujo cu, segundo o dito popular, não tem dono. O outro é o menor infrator acorrentado a um poste no pelourinho revisitado.

Na música de Luís Caldas, a nega do cabelo duro, que cantada por Elis e por Elza Soares tinha cabelo que serpenteia e que estava na moda, que o Planet Hemp afirmava ser “minha nega, meu amor”, passa a ser perseguida e vítima de violência. Tal qual o Zezé com sua cabeleira cortada pelos foliões intolerantes. Mais ainda, a reparar a rima omitida nas combinações possíveis com as palavras “violeta” e “azul”, o que se tem é violência sexual mesmo. Quem seria essa nega sem batom? Relembro episódio recente de namoradas que foram agredidas em saída de bloco no Largo de São Francisco e na night da Lapa Boêmia sem acolhimento da Lapa Presente (do Paes), agredidas porque mulheres, agredidas porque exercem sua liberdade sexual.

A mulata Globeleza encarna o estereótipo de brasilidade. O Brasil tipo exportação para  inglês ver, ou qualquer turista de outra nacionalidade.  Saia curta e decote merecem comentários jocosos, olhares entre libidinosos e reprobatórios. Mas pelada na avenida é outra coisa. Ali a nudez é liberada, como se um contrato silencioso entre as partes fosse respeitado dessa forma. No fundo, apenas mais uma forma de coerção, de domesticação dos corpos e das expressões de liberdade.

Porque resisto,  busco a agenda dos blocos de rua, cantarolando a campeã do concurso de marchinhas: “Senhor prefeito, não é intriga/ Onde foi que enfiaram aquela viga?”.

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Categorias: Crítica, Cultura, Reflexões, Sociedade | Tags: , | 6 Comentários

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6 opiniões sobre “O cabelo, o sexo e a viga

  1. Será que ele é Bossa Nova?

  2. Dá pra sentir o ritmo, a melodia de teu texto. Eles estão no conteúdo/forma musical, excitado, impertinente, arredio. Perfeito.

  3. Pingback: Pra tudo se acabar na quarta-feira… | transversos

  4. Aline Silva

    Pois é, Anderson, identificação do “diferente”, cerceamento, agressão. É demais numa marchinha só.

  5. Aline Silva

    Obrigada mais uma vez, Dinah. Seus comentários sobre a forma dos textos que produzo me levam a crer que estou no caminho certo.

  6. Pingback: Nós, os outros e a moral | transversos

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