Reprodução

Nasceram João, os dois. Só foram se conhecer muitos anos depois embora as mães tivessem parido com intervalo pequeno. A mãe de um foi trabalhar para a do outro. Porque para uma amor rimava com mais dor e para a outra, reprodução rimava com mais pão. Uma delas nem teve resguardo porque tinha de trabalhar e a cicatrização do parto natural era mais fácil, que sorte, como disse a outra. Ela tinha feito cesariana porque o filho tinha sido planejado. Cicatrização longa e dolorosa.

Mas mulher dá jeito em tudo e depois que vira mãe então, fica um deus daqueles indianos, fica logo cheia de braços. Assim a  mãe de um João alugava os braços da mãe do outro João que, por sua vez, pagava um dinheirinho à vizinha para entrega-lo na creche quando abrisse, porque nesta hora já devia ter vencido as duas conduções e estar fazendo a primeira mamadeira.  A patroa ficava toda atrapalhada quando tinha de sair e a outra não chegava a tempo de dar o banho e trocar as  fraldas da noite.  Não ficava brava, nem xingava, como estas por aí,  porque era mulher cheia de compaixão. Sabia que o filho da outra, coitada, nem tinha sido planejado. E agora que era mãe, via quanto é dura a vida de uma mãe, quanto tudo muda no coração depois que vêm os filhos. E as duas se irmanavam também nas aflições todas de mulher : criança não escolhe hora pra ter febre, pra certas coisas com marido não se pode contar, e a TPM então…  Mulher sofre. Não eram do tipo que falavam mal uma da outra e também nisto se pareciam. A patroa e a empregada só desabafavam de vez e quando. Uma se magoava porque a outra não tinha lhe dado o macacãozinho velho ( ainda novo! ) do Joãozinho para o outro João. Só porque distraída doou tudo para o orfanato que a cunhada ajudava. E a patroa também tinha motivo porque apesar da empregada tratar seu João com muito carinho,  não tinha o direito de surrupiar shampoo do frasco, que ela não era boba e percebia.  Porque nos meses que o João ficou sem creche, foram poucas as vezes, por acaso , que a patroa permitiu que ela trouxesse seu João? A gratidão da empregada, portanto, deveria ser enorme mas não era bem assim. Um dia ela levou uma lata de Sustagen para o filho, No outro sumiu um termómetro de não se achar nunca mais, quem mais podia ser? Durou 2 anos no emprego, até a patroa desistir de ser roubada. Mandou embora porque naquele tempo empregada não tinha direito a nada e depois de tanta ingratidão, tinha cabimento ?

Perderam-se de vista, Uma só foi lembrar da outra depois de saber que no posto de gasolina do filho João- presente de aniversários pelos seus 18 anos-  havia um outro João, imagine, na faxina ! E não é que era o mesmo filho, daquela que tinha feito as primeiras mamadeiras do menino? É que esse mundo é muito pequeno, mentiras tem pernas curtas e até as pedras se encontram!

Se bem que a mãe do João nunca chegou a descobrir que seu filho tinha aprendido com o pai a fraudar o combustível. Como também não soube porque o tal João que lavava parabrisas  se sentiu tão à vontade pra levar pra casa umas latas de lubrificante . Coisa pouca, pra vender na favela e fazer um extra para a mãe que estava velha. E o patrão percebia, é claro, que não era bobo. Mas não era verdade que quando teve incêndio e o João tinha perdido o barraco,  o patrão tinha lhe dado um milheiro de tijolos e dois sacos de cimento ? A gratidão do empregado deveria ser enorme mas não foi bem assim que aconteceu.  João estava de cabeça quente no dia que o outro João resolveu lhe mandar embora depois de ser chamado de ladrão.

João matou o patrão com a arma que ele tinha comprado para defender o posto de ladrão.

Morreu um, o outro foi pra prisão.

Podia ser diferente, sem tanta reprodução.  Foi o que disse a mãe que ficou sem seu João. A outra devia ter sido esterilizada, era sua opinião.

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