Pulando o carnaval…

Ô, abre alas, que eu quero passar…

Dias de momo! E eu na contramão foliã. Nossos malemolentes leitores, bons sujeitos que são, estão a se entregar ao samba e suas circunvoluções enquanto o blogue fica aas moscas. Mas, vamos que vamos.

so que nãoFalando assim, pareço um ranzinza do carnaval. Na verdade, sou muito agradecido ao feriado e aa perspectiva cervejista da data e de seus prolongamentos. Então, de forma alguma, é uma queixa.

Além disso, acho mesmo que, em geral, o envolvimento com o carnaval tem a ver com momento de vida e tal. Eu tô num momento em que procuro me desmuvucar, o que é um tanto difícil no Rio. Curioso, ainda lembro da época em que ninguém passava carnaval no Rio, a não ser que fosse pro Sambódromo. Como isso mudou em- sei lá- uns 15 anos ou 10 anos…

De todo modo, este carnaval será a última grande oportunidade se sair mascarado sem apanhar, com toda a legitimidade de Estado possível. Há quem diga que vem aí o Programa MAIS MÉDICI, a ser implementado pelo governo Dilma da Silva logo no alvorecer do ano legislativo, com uma celeridade raras vezes vista em nosso parlamento.

[REM das antigas, em ritmo carnavalesco]

Mas, voltando aas minhas pretensões descarnavalescas, é difícil ficar na contramão dos blocos de Momo. Claro que dá pra se montar um carnaval com filmes, roque, jogos e cerveja. Mas há um apelo inegável que impele a sair. Além, é claro do calor venusiano que faz no Rio, o que me impede de fazer minha fantasia jedi pro carnaval…

Acho que carnavais nerds e ou roqueiros nunca vão rolar, né? Embora nunca seja tempo demais, sempre…

carnaval-chewbacca

Ô, sabre de luz
que me conduz
A Força
que me faz sonhar…

Mas voltando ao apelo do carnaval, a institucionalização da transgressão é, sem dúvida, um aspecto interessante da festa, desde as Saturnálias em Roma, possível origem tanto do carnaval quanto das festas de fim de ano.Há também a origem nas festas a Baco. Mas, uma hipótese não necessariamente exclui a outra.

Há um autor da Linguística e da Teoria da Literatura, Mikhail Bakhtin, russo (ou soviético, como prefiro encarar) que teorizou vários interessantismos sobre as representações simbólicas do carnaval. Atualíssimo. Ele destaca, por exemplo, a importância do grotesco, do disforme como elementos de expressão popular legítima. O autor trata da questão em duas obras: A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, o contexto de François Rabelais e Problemas da Poética de Dostoiévski, sua obra de doutoramento, cujo título acabou por ser negado na academia de Moscou.
Para Bakhtin, o carnaval, em seus vários formatos ao longo da história e em diferentes locais, sempre correspondeu a uma expressão organizada e coerente de mundo. Nas palavras da então doutoranda Claudiana Soerensen (UFBA), em seu artigo A carbakhtin carnavalnavalização e o riso segundo Mikhail Bakhtin, na revista Travessia (ed. XI):

O carnaval na concepção do autor é o  locus  privilegiado da inversão, onde os marginalizados apropriam-se do centro simbólico, numa espécie de explosão de alteridade, onde se privilegia o marginal, o periférico, o excludente.
O espetáculo carnavalesco  –  sem atores, sem palco, sem diretor  –  derruba as barreiras hierárquicas, sociais, ideológicas, de idade e de sexo. Representa a liberdade, o extravasamento; é um mundo às avessas no qual se abolem todas as abcissas entre os homens para substituí-las por uma atitude carnavalesca especial: um contato livre e familiar entre os homens.

Não vou aqui entrar na discussão sobre a etimologia da palavra carnaval e suas muitas versões. Isso justificaria, no mínimo, um artigo acadêmico aa parte. O carnaval, independente disso, é a sobrevivência do pagão no mundo cristão. É a concessão para que se fuja da regra. Mais que isso, é a institucionalização do desregramento. São dias sem lei. Uma necessária negociação para manutenção duma Pax, desde Roma. Você que trabalha encarcerado num terno e gravata, que vive esmagado e humilhado nos transportes, que precisa cumprir hora pra garantir o lucro de outrem, pode sair aas ruas vestido com um fraldão, pode se travestir, quase que se despir. No carnaval, a (i)lógica é outra. Uma festa, em metalinguagem, ao próprio festejar. Uma celebração a que ainda haja celebrações, numa vida de opressões. Assim fora em Roma, em toda a Idade Média, e assim o é no mundo capitalista.

[Mantendo o tom carnavalesco…]

Fosse apenas uma festa pagã, não teria a força mobilizadora que apresenta e, justamente, nos países de mais base cristã, especialmente católica. Assim, o carnaval é a sobrevivência ancestral, consentida. A vista grossa pro povaréu libertar seus fantasmas. É dar as unhas pra não dar os dedos e, logo, preservar todos os anéis.

bacanalticiano

Celebração a Baco na antiga Roma, na representação de Ticiano.

“Faz o que tu queres, pois é tudo da lei”. Ou quase tudo.

Por isso tudo, a última chance e chancela aas máscaras. E, é óbvio, carnaval é um baita negócio também. Ainda mais quando se é “o país do carnaval”; ainda mais quando o país é vendido midiaticamente no globo, ainda mais em ano de Copa, ainda mais com tanta perspectiva de lucro. É… é preciso dar um fim aos protestos mesmo. Se já se tem carnaval, o que mais se pode querer, afinal? A velha ingratidão popular, mascarada e travestida de insatisfação, ora.

[Só canções de carnaval]

Uma coisa que eu jamais entendi é a calendarização do carnaval. E não adianta se dizer que é 40 dias antes da dita Semana Santa. Ok, e o que estabelece a data da tal semana? Fica tautológico, não? Além disso, sempre pensei que, num mundo como o nosso em que tempo é dinheiro mesmo e no qual há se de manter o ritmo de produção, a aceitação dessa oscilação de calendário todo ano, com certeza, é por um cálculo de custo-benefício que só confirma toda a permissividade e efeitos compensatórios ao sofrer cotidiano que tomam curso no carnaval.

Marchinhas

Os comportados foliões de um século atrás.

Bom carnaval! Que o palhaço tenha uma mão generosa e gentil para com vocês! De minha parte, vou pular este carnaval.

P.S.: 25 curiosidades (algumas delas curiosíssimas mesmo) sobre o carnaval em http://www.historiadigital.org/curiosidades/25-curiosidades-historicas-do-carnaval/

P.S.2: Em tempo, feliz aniversário, Rio de Janeiro, apesar do surrealismo, apesar da desigualdade e injustiça sociais, apesar das farsas pra que és usado, apesar da repressão, apesar dessa Copa, apesar da cidade partida, apesar de Paes, apesar de Cabral. É muito a pesar mesmo!

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Categorias: Reflexões | Tags: , , , , , , , | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Pulando o carnaval…

  1. Luciana Melo

    Realmente, assim como o verão na Europa, aqui no carnaval, tudo é liberado… As pessoas se libertam das máscaras para colocar fantasias…

  2. Flávia belo

    Falando em máscaras quem se lembra dos clóvis e dos bate bolas? Lembro q minha mãe costurava essas fantasias pro meu irmão e eu queria tb. Anos 80. Até q proibiram as máscaras devido ao número de estupros e assaltos q ocorriam e eram atribuídos aos clóvis! Enfim, hoje as máscaras são outras… E igualmente criminalizadas. Mas eu amava o carnaval do subúrbio da minha infância… Pq o subúrbio hoje tb é outro. O carnaval tb é outro. Hoje odeio o carnaval. Pq não é mais um evento onde TODOS se encontram e superam desigualdades e todos se tornam um só, uma massa única de foliões, ricos, pobres, católicos, ateus,etc, mas hj é um evento onde o sambódromo virou o grande e poderoso templo, talvez o único onde tds querem estar… E haja grana pra conquistar um lugar onde se consiga ver ao menos os penachos das cabeças dos desfilantes… Pra VER mesmo o desfile… Tem q ser rico. Tô fora dessa palhaça, no alto de uma montanha de Tere, próxima do dedo de Deus, lembrando quando carnaval era algo muito próximo do descrito por Backitim (sei q errei feio o nome dele, mas foi o q minha memória fraca me permitiu lembrar, desculpem-me os grandes intelectuais de plantão q ficarão aterrorizados)… Mas lembro com carinho dessa leitura q fiz há tantos anos… Lembrava tanto de um carnaval que eu, agora prestes a completar 40 anos, tenho o privilégio de ter vivido… E que meus filhos talvez jamais viverão!

  3. Pingback: Festa pra russo ver… | transversos

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