O carnaval que ninguém viu

colombina

Carnaval intrigante este que ninguém viu, que ficou no reino das possiblidades em oposição ao outro, o que dá os braços ao status quo, ignora seus garis que não sambam sorrisos, festeja o infestejável, como a reforçar nossa natureza feliz e ordeira.

Muitos dos enredos e da abordagem dada a eles é de envergonhar qualquer manifestante que tenha colocado os pés na rua no ano passado, pois possuem a incrível capacidade de escamotear completamente o momento político que estamos atravessando. Fica até parecendo que o que vivemos foi invenção do Le Monde ou do NYT.

Uma das minhas primeiras reflexões surge em forma de questionamento: como retratar a favela com sua multiplicidade cultural, sua dinâmica geográfica específica e não abordar a usurpação de direitos, o genocídio da juventude negra e pobre, o desaparecimento e assassinato dos Amarildos? O desfile mais parecia o elogio ao bom trabalho das UPPs, uma propaganda brasileira para agradar turistas que virão ao Rio na Copa. E assim a estratégia de exaltação que servia como anteparo ao crescimento do sentimento nacionalista e à dominação, antes refletida no conceito de pátria, assume seu lugar num contexto multicultural, de exaltação à favela, mátria-mor da maioria da população brasileira, como lugar de ebulição de tudo o que (não) há na periferia. Espécie de “Esquenta” com alcance internacional.

As brincadeiras exaltadas em outro desfile trazem à tona o resgate da “melhor fase de nossas vidas”.  E quantas crianças não têm acesso ou direito a usufruir a infância no país? E a exploração sexual infantil, o desaparecimento de crianças e jovens (lembrando que rico é sequestrado e pobre é desaparecido), os maus-tratos, o abandono? Está bem. Supondo que quisessem pegar um pouco mais leve nas críticas, poderiam problematizar a questão de gênero marcada nos brinquedos, brinquedos de meninos, brinquedos de meninas. Optaram por fazer uma compilação de lembranças que falasse ao coração principalmente do público entre 30 e 40 e poucos anos.

A escola da Vila visivelmente sabotada por sua própria diretoria trouxe o tema do patrimônio material (das florestas) e imaterial (dos ritos, celebrações), representado na diversidade cultural, com atenção especial a Chico Mendes e Câmara Cascudo, não nos esquecendo, é claro, que o primeiro foi assassinado por não se manter silencioso e inerte diante dos roubos e das explorações a que o povo da floresta é/era submetido. E imaginem que, nesse mesmo carnaval, Boni é homenageado e Ayrton Senna leva o caneco.  É de chorar! Porque mais uma vez o que se tem é um semióforo*, é a figura lendária que vale pelo simbólico, reforçador do imaginário da pátria campeã, lembrança compensadora de uma vitória que não se repete. De um lado, a babação metonímica a um dos grupos de comunicação mais criticados dos últimos tempos (e olha que a escola já teve seus momentos questionadores com Joãosinho Trinta, luxo e lixo, Cristo coberto); de outro, a necessidade de exaltação de uma figura heroica e a apresentação ao mundo de alguém que já era devidamente conhecido.

Sonho com o carnaval do contraponto, aquele em que a denúncia caminhe ao lado do elogio, em que as pessoas aprendam mais sobre Maricá do que apenas saber que a maravilhosa Maysa nasceu lá, que não se emplume para denunciar a exploração dos animais, que não se detenha diante de ligações intrincadas. E que se orgulhe de ser a festa onde sambaram nossos ancestrais. 

*Para Marilena Chauí, no livro Brasil: mito fundador e sociedade autoritária, semióforo é algo cujo valor não é medido materialmente, mas sim por sua dimensão simbólica e sua capacidade de ser reproduzido.

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Categorias: Crítica, Cultura, Reflexões, Sociedade | Tags: | 7 Comentários

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7 opiniões sobre “O carnaval que ninguém viu

  1. Disse muito bem. Sem retoques. Abs.

  2. Republicou isso em Borboletanoespelhoe comentado:
    É UM CARNAVAL…….

  3. Pingback: Nós, os outros e a moral | transversos

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