O cinema de Lars, sempre apetitoso

Depois de um ano, quase, sem ir ao cinema, resolvi estrear 2014 com estilo : fui ver a Ninphomaníaca do meu  amigo Lars.  Alguns, eu sei, não o chamariam de estiloso e o filme não agradou tanta gente, mas para mim seria obrigatório em qualquer caso, mesmo suspeitando que não  ia gostar. Era o que temia, de tanto  ouvir falar mal. Não desanimei.  Tenho um tipo de relação com alguns demiurgos da literatura e do cinema que chamaria de amizade colorida, não fosse o fato de minha existência ser ignorada por todos eles. Minto. Houve uma exceção que só agravou a meu fetiche. Anos atrás encontrei Peter Greenaway em uma destas espantosas esquinas do acaso, em uma galeria inacreditavelmente vazia e embora tudo que ele quisesse fosse saber minhas impressões sobre a exposição de sua obra,  por dez minutos senti que minhas fantasias  tinham alguma razão: Peter ( me chame de Peter, só Peter é bom) me pareceu tão cortez , intenso e amigo chegado  quanto minha imaginação o tinha desenhado.

Lars, ao contrário, deve ser uma destas pessoas que me poria nervosa com sua simples presença. Frio ao expressar-se, atormentado até o último fio de cabelo, exalando uma energia reprimida na economia dos gestos. A quem o conhece, peço o favor de não destruir minhas ilusões.  Não assisto entrevistas, nem tenho interesse por ler nada sobre estes meus afetos “ à traição”. No fundo, talvez, para não me arriscar a este papel de  fã que se torna especialista da vida particular de quem tem como profissão, justamente, falsear tudo que viu para melhor dizer o que sente. Para quê ? Eu sou da opinião que nenhuma narrativa ultrapassa aquilo que é o “real” de qualquer autor, o mundo tal como ele o vê e sente. O que não está na obra não me interessa, o que ele pretendeu dizer não foi o que me disse,  a miséria miúda comum a qualquer vida humana me cerca por todos os lados e quem quiser me eleger como confidente  sempre pode encontrar minha pessoa ou telefone.

Mas confesso que durante parte do filme, o Lars me perturbou. Não a sua narrativa mas sua sombra, imaginada atrás de cada plano. Eu juro que tivesse seu número ia telefonar. Escuta aqui, meu bem, como é que você teve coragem  ? Você estava se sentindo péssimo quando escreveu e rodou isto, não? Sim, Lars, desta vez se superou em crueldade.  Não que eu estivesse me sentindo incomodada com alguma outra coisa além das gargalhadas de uma parte da plateia lotada. Qual foi a graça, alguém pode me explicar, eu  gritaria para a turma do fundão, se o pudor não impedisse. Mas aos poucos, acho que fui percebendo. Eles riam do que seriam piadas, fosse a protagonista um homem e fosse aquele um filme americano estilo “ American Pie”. E não era ? A provocação veio de um coleguinha, na mesa do bar, após a sessão. Na opinião dos meus companheiros de copo, Lars cedeu à grande máquina de roliúdi e resolveu explorar o filão do sexo e das séries. Foi a minha vez de rir. O pior de tudo é que no fundo, também pode ser lido assim por quem o queira.

Lars, você se revelou uma pessoa má, como bem colocou na boca e com o tom exato da  impecável atuação de Charlotte Gainsbourg.  Você é mau porque não teme revelar a compulsão amoral que anima todos os grandes criadores. Tudo que mais lhes importa é contar a história, dar à história elementos que prendam a atenção de quem acompanha a narrativa, lapidando quaisquer arestas que impeçam a fábula de fluir por trás da trama ao mesmo tempo que espalha confeitos para que os gulosos devorem pelo caminho. Sei que muitos disseram que o filme provoca tédio mas também se pode confundir com tédio certa repulsa que vem embutida nas incômodas revelações do nosso inconsciente. Como quando o psicanalista insiste que tentemos interpretar aquele sonho tão repetido, tão idiota, tão sem sentido.  Mas o que me causou espanto, mesmo, foi pesquisar na web as críticas que fizeram ao filme e descobrir  infinitas variações exploratórias de aspectos psicológicos da protagonista. Bravo, Lars, aparentemente todos a compraram como verossímil, muito mais personagem que alegoria. Nesse mundo mergulhado em dúvidas e confusões morais, sofrimento psíquico e busca desenfreada pelo prazer e pela “ felicidade”, não vi  ninguém  que  tenha lido a sua narrativa  como um sonho experimentado em um set analítico : inconsistente, recheado de citações , de insights e metáforas, significantes deslizando  para outros significantes, descaradamente declarados. Claro que, como sempre, você teve o cuidado de sobrepor camadas e mais camadas de detalhes banais que se confundem com realidade, símbolos e mais símbolos do real e cada um puxa o fio que lhe apetece.  Eu vou  confessar que até o meio dele, tinha esperança de poder sair dali levando apenas uma profunda crítica existencial ao estado do mundo. Mas Lars, o maquiavélico, não me deu a menor chance, ao acabar com aquela declaração da Joe durante sua suposta trepada, agora sim, com o suposto amor.

Tive de recordá-lo todo antes de dormir e acabei por achar que Walter Benjamin ia ficar tarado pelo seu filme. Não tenho notícia de nenhum outro  em tempo distante ou recente capaz de alegorizar tão bem o totalitarismo de um mundo feito de imagens, em que não se pensa e as relações de produção  afetam até os mais privados afetos. Que grande sacada a comparação do flerte que antecede à concretização da cópula com a técnica das pescarias e o comportamento dos homens aos peixes, sempre tão famintos, morrendo pela isca. Que sensacional aquela paródia de tragédia realizada impecavelmente por Ima Thurman, encarnando a heroína pequeno burguesa, patética medeia. Nenhum outro filme, que me lembre, ( talvez os de Pasollini?) fabulou tão bem a eterna angústia que habita o vale dos desejos, que nenhum passeio epicurista pelo jardim do saber aplaca. E menos ainda, tenho notícia de alguma obra cinematográfica recente capaz de demonstrar com inteligência e lirismo brechtiano, como o mundo –feito-puro-mercado-de-troca   é uma máquina de produzir dor e desespero à bruta.

Espero ainda ter a oportunidade de ver a versão integral, a tal com  cinco horas. E aguardo  o volume II  ansiosa para ver se Lars vai surpreender mostrando que seu filme, como o desejo, não  era nada disso e que o sentido está  sempre além. Em qualquer caso, que venha a sequela,  como se diz em Portugal,  a sequência  ampliada do seu mais recente drama ou do nosso inquietante momento histórico. Estou sempre  pronta para sua devoração, Lars.

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Categorias: Cultura, Sociedade | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “O cinema de Lars, sempre apetitoso

  1. Belíssimo texto. Eu esperava um tédio e quando ele se insinuou, o filme acaba e me deixou com a sensação de que estava assistindo um curta.

  2. Ah, o tempo, essa prova dos nove dos sonhos e do cinema….

  3. Surfei no teu texto como um surfista em mar clássico, aquele que todo o surfista sonha em encontrar pela frente. Delícia pra ler várias vezes.

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