Não bastam flores! (E basta de espinhos…)

dia mulher

Dia Internacional da Mulher! Por que e pra que mesmo? Flores? Parabéns por ser mulher?! Um dia pra se comer fora?! Nada contra as flores, muito menos contra demonstrações de apreço e atenção no convívio humano, em geral, por sinal. Sempre achei esse um dia de se manifestar algo como “Solidariedade na luta por ser mulher, se afirmar como mulher”, algo desse gênero… Digo, por experiência própria, que as interlocutoras, comumente, estranham uma saudação dessas e a julgam até desatenciosa, no mínimo. Ora, 8 de março (data que só existe como reconhecimento duma óbvia inferioridade social, como o são outras tantas: consciência negra, dia do trabalhador, dia do índio, etc…) é uma data de luta forjada no seio do movimento feminino socialista (Não creio na versão das operárias incendiadas. Para saber mais sobre esse possível apagamento e reelaboração histórica, ver em http://www.piratininga.org.br/novapagina/leitura.asp?id_noticia=3969&topico=G%EAnero).

Eis uma das questões centrais que pretendo aqui falar. Machismo não é coisa de homem. O machismo é um valor estrutural em nossa sociedade. Ele tá entranhado em homens e mulheres. A identidade entre machismo e homem oculta uma parte importantíssima do combate a esse valor: a própria mulher, ficcionando uma vítima que, na verdade, também é agente ativíssimo e algoz no processo de difusão do tal valor. Vou ser mais contundente: somos todos e todas machistas, inerentemente! Cabe, dialeticamente, em meio aas próprias distorções machistas, a um sem número de mulheres a devida formação dos machistas, meninas e meninos, da próxima geração. Claro que há de se ter gradações e níveis de consciência bem distintos nesse processo. Mesmo o movimento feminista, por exemplo, fundamental na história de parte do séc. XIX e de todo o XX, não se pode (ou poderia) enxergar como a salvo disso. É o inimigo adormecido (muitas vezes, acordadíssimo) dentro de si mesmas. Claro que é parte da luta feminina e feminista a desconstrução cotidiana da manutenção e proliferação desses valores.

Vivemos há incontáveis gerações, num mundo em que, sem meias palavras, mulher nada importa, atrapalha até. Não há formatação de sociedade que lhes seja aprazível, convidativa ou acolhedora. Ser mulher há milenares séculos é ser sombra, só muda a intensidade e o apagamento da penumbra. O que sempre contou, em nossos mundos, atravessando distintas sociedades e estruturas de organização social, é a buceta. Dela, a mulher é somente empalidecida metonímia. Desde Helena, a buceta vem promovendo guerras, gerando horrendas disputas de poder, ceifando vidas, consagrando os que vêm a ser os poderosos de cada sociedade. Isso nada tem a ver com a mulher. É uma questão, rigorosamente, masculina, tanto que se desvincula a mulher de sua representação sexual concreta e simbólica. O homem, que já se dissociou há muito de seu órgão sexual (afinal, tipicamente, homens fazem sexo com seu pau e não com o seu corpo), aplica aa mulher a mesma lógica que se cristalizou masculina, seja na vivência, seja na forma socialmente ordinária de viver seu prazer sexual, seja representação simbólica. Em nosso mundo de mercado objetificador, isso é ainda mais agressivo. O corpo da mulher, artigo de apreciação pública, tem preço e valor, tanto ao todo, como em suas partes: açouguização do ser.

Eu, particularmente, creio, tal qual num ato de fé de difícil atestação material, que há ter havido uma época da história do homo sapiens- devidamente apagada, triturada, carbonizada- em que a mulher era naturalmente sentida como superior. Isso me parece indiciado em narrativas míticas ancestralíssimas, anteriores aas etapas de maior sistematização dessas narrativas míticas, como os casos de Gaia, Lilith, Ganga, dentre outras deidades femininas. Isso sem falar na óbvia superioridade conferida pelo poder maior da “engravidação”, naturalmente, indispensável ao homem, aas sociedades humanas, aa nossa espécie. É um poder de tal forma vigoroso e transformador que há de ter sido abafado, em prol dum paradigma que elegeu a força física, determinantíssima em períodos pretéritos da humanidade, como referência de poder. Mas é na mulher que o mundo se inicia. O próprio homem daí provém, não apenas em sentido restrito.  O sexo masculino, biologicamente, é uma mutação do feminino, sexxo (com duplo X e tudo) básico do homo sapiens.

[Digressão, pero no mucho: isso tudo porque não falamos na possível necessidade de se abafar toda a torrente de vivência de prazer, orgásmico mesmo, que cada mulher, potencialmente, pode vir a ser. Uma manifestação tão sentida e tão integral que traz em si poder pra abalar o limitado e pouco sensível mundo de patriarcados. E ela só precisa de liberdade e de libertação pra se fazer plena.]

"A origem do mundo", Gustave Courbet, 1886.

“A origem do mundo”, Gustave Courbet, 1886.

Claro, óbvio e evidentíssimo que, não vivendo apenas em meio a parâmetros de natureza, mas sobretudo de cultura, a igualdade, com respeito aas diferenças, é a única referência a ser perseguida e, me parece, que estamos tão distantes disso… Ora, basta nos darmos conta de que a tão propalada presença feminina no mercado de trabalho traz tantas vezes a necessidade de se deixar outra mulher suprindo-lhe tarefas domésticas em casa, ou leva aa dupla, tripla, quádrupla jornada de trabalho, numa situação em que, mor das vezes, o papel masculino, quando existe, não passa de “dar uma força pra ela”.

A (des)construção que há de ser feita é missão da pujança da grande Gaia. Ultrapassa a luta pelo fim da exploração do homem pelo homem. É algo duma envergadura que exige laços irmanados entre homens e mulheres, numa perspectiva de superação humana e solidária duma ruptura que fez as mulheres seres humanos de segunda classe (aas vezes, terceira ou quarta, se objetos de outros fatores de discriminação social). Vejam que até as poderosas amazonas de Temiscira, guerreiras valorosíssimas, vivendo exiladas dos homens, sucumbiram a Héracles, sendo praticamente exterminadas. Isso não é um problema só da mulher, da mesma forma que o machismo não é só do homem. e tampouco pode ser encarado como concessão masculina. Pelo contrário, é uma dívida humana milenaríssima. Fala-se muito em perfis femininos em toda parte, ao longo da própria história das artes humanas, geralmente, por homens. Na verdade, há perfis humanos, tantas vezes, confinados na roupagem, sempre na moda, de ser mulher.

É verdade que o percurso histórico de ser mulher tem avanços e reveses (É sempre bom lembrar que o percurso de lutas femininas antecede em muitíssimo a luta feminista!). Não fosse, por exemplo, a predominância de Atenas, como modelo civilizatório a todo o Ocidente, quão distinta não poderia ser essa história. Em Esparta, a mulher era cidadã, condição essa de todo inexistente em Atenas.

Que seja festa ao que se conquistou e se pode conquistar! Que seja extravasamento do tênue afrouxamento dos grilhões paralisantes! Que seja celebração ao que há por se ganhar! Que seja plenitude das parcerias tantas que há por se fazer e construir! Mas que seja pra autocriticamente mudarmos a nós e aas meninas e aos meninos que continuarão esse caminhar.  São muitas lutas diretas e indiretas, pessoais e sociais, com nós mesmos e com os outros. Minha solidariedade participante a todas essas lutas!

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Categorias: Reflexões, Sociedade | Tags: , , , | 11 Comentários

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11 opiniões sobre “Não bastam flores! (E basta de espinhos…)

  1. Oi , Anderson !
    Vc tem razão ! Não bastam flores e chega de espinhos !
    Muito grata por vc não me dizer : feliz dia internacional da mulher !
    O seu texto expressou o que sinto sobre isso !

    Um grande beijo !

  2. Maria

    Anderson! parabéns! Seu texto é perfeito – adorei isso – O que sempre contou, em nossos mundos, atravessando distintas sociedades e estruturas de oraganização social, é a buceta. Resumiu tudo!

  3. Agradecido pela leitura, meninas! E que bom que meu texto foi feliz! 😀

  4. DANIELLA OLIVEIRA

    Justo. Adorei!

  5. Sonia Mara

    Obrigada pelo seu texto. É o que tento dizer todos os anos, quando o meu facebook fica cheio de posts fofinhos, com flores, com parabéns. Eu me sinto sufocada tentando explicar: eu não quero parabéns por ser mulher. Eu quero que este dia não precise ser lembrado, por não sermos mais discriminadas. Enfim, você disse tudo isto e mais ainda. Obrigada.

  6. andreabdeoliveira

    É preciso ter coragem pra romper com as mazelas sociais e culturais! É preciso ter coragem pra reconhecer em si mesmo essas mazelas! É preciso coragem pra propor uma “desconstrução da manutenção e da proliferação dos valores machistas” perpetuado a séculos e, principalmente, é preciso coragem pra dizer que essa manutenção e proliferação tem sido feita por homens e mulheres há muitas gerações! Um texto brilhante e de admirável generosidade e companheirismo, somando força à luta das mulheres! Vou compartilhá-lo com o desejo de que esse texto seja transformador para meus amigos e que inspire minhas amigas a buscarem o “afrouxamento das correntes”! Desejo que homens e mulheres sejam sobretudo parceiros, e que busquem, nessa parceria, educar nossos meninos e meninas para que respeitem as diferenças buscando igualdade de direitos, de fato, lado a lado! Estou muito orgulhosa de ser sua companheira! Orgulhosa de ser sua mulher e, nesse caso, não há machismo algum, já que sua visão de mulher é, reconhecidamente, de alguém que tem tanto valor qto vc! Bjs, Odisseu!

  7. Daniella e Sonia, obrigado pela leitura! Sonia, satisfação pelo significado que o texto alcançou pra você.

  8. Ah, Música, que lindeza densa essa! Minha companheira de caminhada e transformações! ❤

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