Um amor de partido

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1. São sete parágrafos. Não leia tudo de uma vez, o assunto da relação entre nossos desejos e mitos e os partidos políticos novos ou tradicionais, seja na Ucrânia, no Egito, na Venezuela, nos EUA ou no Brasil é a maior das pedras em nossos caminhos. Tenha calma e preste atenção ao que lhe dizem ou escrevem na vida real, fora dos grandes meios de comunicação.

2. Uma vez uma mocinha linda como hoje é a Sininho disse em um debate, sendo palestrante, no microfone: “eu amo o PT”, jamais esquecerei, ela era eu. Aquilo tudo foi um grande amor perdido, um trauma incurável aplacado pela compaixão por todos, inclusive por mim (a vida é sucessão de cicatrizes). Agora, esse negócio abrigado pela mesma sigla, o PT atual, toca em meus sentimentos de uma forma indecidível. Ora desprezo, ora revolta, muitas vezes saudades, ora uma expectativa ambivalente, “seria bom se o PT significasse uma estratégia hiperinteligente…”. Vejamos: o filósofo Argelino e professor na França, Jacques Derrida, construiu uma ideia conhecida como “os indecidíveis”:

O Tema do espectro, no livro Espectro de Marx, de Jacques Derrida, não é novo. Inscreve-se como marca ao mesmo tempo pura e impura na cadeia do discurso desconstrutivo. Na sua articulação com outras cadeias desse discurso, funciona como os demais operadores textuais, a que Derrida chama de indecidíveis, e cujo número, por definição, nunca está fechado, uma vez que a experiência do indecidível torna impossível a totalização. (Evando Nascimento, Paula Glenadel, organizadores … Em torno de Jacques Derrida; RJ, 7letras, 2000)
Jacques Derrida

3. Indecidíveis seriam acontecimentos, processos ou sentidos na história humana, nos quais encontramos a ausência de uma síntese dialética compondo um valor único, da situação ser boa ou má, justa ou injusta, excluída ou incluída, dentro ou fora, honesta ou desonesta, digna ou indigna, tragédia ou epopeia. Diz Derrida que “no jogo dos indecidíveis, uma coisa sempre se relaciona afirmativamente com seu contrário, abrindo-se ao advento da alteridade absoluta, para além da determinação histórica mesma dos gêneros, fundada no génos grego (indicativo da produção, do engendramento, da geração e consequentemente da filiação)”. Poderíamos usar como exemplo o modo como tentamos pensar a separação de um casal amigo, ou quando precisamos entender um grande erro cometido por nossos pais ou nossos filhos. Tem algo a ver com as noções taoístas (uma religião milenar oriental) de valor: não há bem que não abrace um mal como fonte de entendimento e, mais que isso, que não articule suas entranhas com as interioridades mais essenciais do seu oposto. Por aí, mais ou menos. Ou seja, há situações paradoxais, mais facilmente explicáveis pelos romances psicanalíticos do que por teses baseadas em dogmas tais como os embalados pelas palavras “progresso” e “atraso”, “conservador” e “revolucionário”, “atual” e “antigo”, etc. A História (com agá maiúsculo) não se move em uma linha reta, do primitivo em direção ao superior, do arcaico em direção ao moderno, conhecimento esse que os seres humanos estão começando a ter diante do autoextermínio de um mundo capitalista adorador das novidades de um progresso em direção aos mitos dos paraísos.

4. Talvez devêssemos tentar interpretar o Partido dos Trabalhadores como um indecidível, no sentido de um fenômeno multifacetado abrigando diferentes e mesmo antagônicos significados. Ele foi construído no fluxo de uma história na qual os atores estavam envolvidos em circunstâncias de muito medo e ansiedade sim, mas também de muitas convicções baseadas ainda em ilusões da sociedade industrial e de consumo; não havia tempo e potência para experimentar fórmulas diferentes no mesmo espaço político. Os dirigentes do PT o moveram como generais à frente de um frágil exército: com urgência, hierarquia rígida, obediência absoluta, sigilos constantes, fidelidades incondicionais (não obstante toda a esculhambação aparente). Esse exército formado intuitivamente e sem reflexão aberta (os congressos eram missas, rituais de apresentação de seus inúmeros sub-partidos, envolvidos com macro-acordos previamente definidos), pública e transparente sobre seus métodos não poderia se erguer sem carregar um discurso homogêneo e simplório, falaciosamente contrário ao discurso que era feito pelos inimigos: as falas dos neoliberais e as falas dos moralistas, conservadores e perversos/profissionais de plantão. Sobre isso faço um alerta: é preciso debater e refletir séria e profundamente sobre o tema da clandestinidade, do segredo, pois as coisas escondidas têm sido ou frágeis demais, impotentes, ou qualidade e método dos donos do poder. Voltando. Assim, o PT ergueu um discurso contra a ditadura e contra a livre-iniciativa do grande Capital, em um primeiro momento, falou outro discurso da governabilidade necessária perante a grandeza bélica dos exércitos inimigos, em um segundo momento, e falou um terceiro discurso da necessidade do uso da hipocrisia e dos meios obscuros para derrotar a miséria e a pobreza, em um terceiro momento. Falou, enfim, aquilo que conseguiu falar para tomar o poder enquanto corria, de armadura pesada, montado em cavalo magro e cansado; com medo e fúria de gladiador. O segundo Partido dos Trabalhadores inicia seu percurso contra os tradicionais coronéis de plantão, patriarcas sádicos de sempre e seus exércitos de apáticos capangas, mercenários e torturadores, à luz do dia e em pleno sol, subitamente com os rostos barbudos e brabos substituídos por sorrisos e maquiagem de madame como se as novas máscaras fossem aplacar a violência cotidiana dos neogerentes sobre os subalternos e permitissem o início de um caminho sem traumas rumo a uma sociedade feliz. “Sem medo de ser feliz” era a bandeira, enquanto o medo era alimentado nos locais de trabalho como o fogo no vento.
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5. Agora tudo aquilo é percebido por nós em um quadro carregado de paradoxos, bizarrices, mediocridades, esvaziamentos de beleza, desaparecimentos sucessivos de causas, motivos, bandeiras. Agora o mundo é outro planeta, e ninguém imaginava que junto a todas leituras marxistas da época (a maioria delas se modelando ao projeto PT e Frente Popular) engendrava-se, invisivelmente, a revolução da informática, ela mesma o maior indecidível de todos os tempos humanos, dona de si, imprevisível. Essa nova tecnologia contaminou toda e qualquer ciência, arte e pensamento humanos, da biologia à música. Se você procurar nos jornais, revistas, artigos e teses escritas de 1988 até 2013, por qualquer um dos agrupamentos da esquerda brasileira, até mesmo os trotskistas e comunistas mais resistentes, dificilmente encontrará uma crítica radical ao modo como foi operada a banalização da informática no Brasil (ainda que a maioria da população não tenha acesso real ao sistema de relacionamento virtual possível com o uso da banda larga). No máximo, você encontrará dedicados comentários à necessidade de democratização do acesso aos sistemas e modos de comunicação virtual. Contra o astuto protesto da intelligentzia (ou burritzia, como disse um pensador) dirigido preventivamente a um possível “neo-ludismo” (luditas foram uns caras operários que quebravam as máquinas, na Inglaterra lá em 1812, e eram parecidos com os black bloc, só que sem máscaras), a esquerda dedicou-se em uníssono a afirmar-se progressista e apoiadora das novas tecnologias e, sobretudo, de sua disseminação entre os mais pobres e excluídos, defendendo o acesso por todos aos bens produzidos pela indústria (ao estilo Ganga Zumba). Resumindo, os brasileiros saíram do calmo e confiante planeta da datilografia em máquina mecânica, onde zelosos escriturários e secretárias exibiam seus dotes de escrever rápidas frases sem um único erro, onde a indústria do papel e da celulose quase não assustava ninguém, para adentrar em um mundo no qual quase todos os assalariados convivem diretamente com alguma tela de computador, ou algum processo controlado por um programa em seu local de trabalho. Esse mundo atual, onde o uso do papel multiplicou-se exponencialmente, fazendo com que, em cada lugar, todos atirem papéis fora o tempo todo, pelas janelas, e as caixas de correio tenham se tornado verdadeiras lixeiras de propagandas coloridas. Entre o agora e o mundo que fundou o PT existe um abismo intransponível, não explicável pelas velhas teorias (o economicismo marxista predominante na década de 1960, por exemplo). Não que Marx e Lenin deixem de ocupar seus lugares devidos na história e muito menos que não se deva estudar e entender os mecanismos estruturantes da concentração de renda e produção das dívidas públicas e da miséria. O que é preciso deixar claro é a inutilidade dos discurso simplórios, uniformizadores, costurados a partir de lógicas oriundas de um mesmo e tradicional maniqueísmo. É nesse sentido que o ambiente singelo e de fácil descrição no qual foi criado o Partido dos Trabalhadores se desmancha abrindo todos os espaços para uma nova era, agora Matrix, Blade Runner, e as demais séries fantásticas representantes, na ficção, de um mundo real e vivido por todos nós, caleidoscópico o tempo inteiro, nos espaços públicos e nos espaços privados, que doravante passam a se confundir a todo instante.
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6. É esse derradeiro indecidível (o novo mundo informatizado), que faz o Partido dos Trabalhadores guardar uma estranha semelhança, ao modo de um fractal, com a imagem de uma velha prostituta obesa, de 60 anos, dona de um bordel de madeira à beira de estrada, sentada em seu balcão de bebidas. Ela poderia ser chamada de “Lindinha” e ter sido uma linda e famosa ninfeta da zona portuária, prostituída ainda virgem e transformada em uma antiga cafetina pelo passar do tempo e pelas conquistas da vida vivida. Em sua companhia um amigo antigo, caminhoneiro curtido e marcado, velho frequentador, dono de um caminhão com um para-choque traseiro onde se lê: “Sem Deus não vá”, bebendo uma pinga e falando “E aí, dona Lindinha, tudo bem?” (Fractal é uma figura descoberta e nomeada pela geometria, e que significa a repetição de um mesmo tipo de desenho em sucessivas escalas. Por exemplo: um homem que é filho, neto, bisneto, tetraneto e tataraneto de alcoólatras e também é dependente químico. Isso é um fractal de alcoolismo. A mesma coisa para filhos e netos de obesos, cardíacos, fóbicos e tantos outros destinos infelizes). O PT que temos agora é a representação de um conformismo produzido pela desilusão humilhada, pragmática e, sobretudo, cética amadurecida a partir da derrota de uma inocência que irrompeu no Brasil com um número muito consistente de ativistas, heróis, mágicos, alquimistas, poetas, artistas, pensadores, ideólogos, amantes e profetas vivos e capazes de agir. Ele, aquele ingênuo e simplório primeiro partido dos trabalhadores, já naif mesmo no seu próprio nome (porque nunca foi uma questão de trabalhadores versus patrões, nunca teria sido algo tão bobinho, era sim uma evolução contínua do Capitalismo contra a espécie humana), foi a ponte de passagem, no Brasil, dos tempos da ditadura militar para os tempos da dissolução simbólica e senilidade do império capitalista industrial e financeiro, e jamais seus fundadores poderiam supor a grandiosidade do verdadeiro e superior indecidível que viria a ser a evolução apocalíptica do mundo informatizado. Já sabemos que o modelo de informática atual desestabiliza toda e qualquer memória (pela velocidade das práticas e das séries de versões modificadas, pelos excessos de informação que destroem a memória secundária), todo e qualquer padrão, e não se responsabiliza pelos resultados, alicerçando um sistema de gestão social baseado no controle cotidiano da totalidade dos territórios públicos e privados e baseado no monitoramento de possíveis desastres, hecatombes, desabamentos e degenerações em séries (ver Giorgio Agamben) visando uma intervenção curativa ou redutora de danos.
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7. Esse texto acabava com um parágrafo esperançoso, apontando para as possibilidades de beleza estética e ética dos novos movimentos sociais demarcados pelas jornadas de junho de 2013, mas precisei revisá-lo e repensar nossa (minha e tua) disposição para desconstruir até mesmo Nietzsche, em seu pensamento sobre o eterno retorno, uma vez que a própria sobrevivência da espécie humana está em questão. Assim fui obrigada a decidir por um final de texto que não nos remetesse novamente à “Lindinha”, a jovem mulher-menina ingênua e extravagantemente bela, vítima da inveja e da perversidade do desde sempre violento mundo humano, isto é, vi-me obrigada, por pressão dos indecidíveis valores que desabam sobre nós todos, a não retomar a métrica do poema do jovem primeiro PT, aquele tão dinâmico e honesto movimento partidário e social da década de 1980. Não vejo outra alternativa a não ser a de convidar todos nós a pensar, pensar, pensar e meditar. Sair dos bordéis de estrada, de todos eles, tantos que são e tão plantados em nossas atitudes cotidianas, sejamos muito jovens ou muito velhos, e ir em direção aos caminhos, às encruzilhadas, com poucos objetos e, de preferência, sem “lenços e documentos”. As piores máscaras, as mais danosas, foram encravadas em nossas identidades desde nossos antepassados mais remotos e permanecem atuantes por trás das barbas ou das caras escanhoadas, dos lenços e gorros pretos ou das caras pintadas, dos cabelos compridos ou raspados, das tatuagens ou das gravatas.

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Categorias: Sociedade | 7 Comentários

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7 opiniões sobre “Um amor de partido

  1. Ulysses

    Brilhante.

  2. Belo texto, Dinhah, leio trabalho dedicado por trás de todas as linhas, aquilo que eu chamo ética pura aplicada. A propósito dos indecidíveis da chamada era informatizada, queria saber se você viu o filme ” Ela” que contém muito disso que cê tá falando, em forma de fábula e tocando algo das transformações da psiquê, neste novo mundo materializado , Outra coisa que seu texto me relembrou : os próprios modelos de compreensão da ” natureza humana” seguem par e passo com estas revoluções tecnológicas. O corpo humano ( incluído o cérebro) era pensado no século XIX como um artefato mecânico. Hoje já vamos especulando sobre a “biota” que nos habita, onde uma variedade imensa de organismos vivos, determinam maior vitalidade ou declínio do nosso organismo. Talvez esteja ainda por aparecer um equivalente à teoria da relatividade para a economia e ciências sociais e por hora, apenas tateamos as variáveis. Pronto. Parei de viajar. Você não merece . O texto é muito mais lúcido que isto e já sei que vai ficar rodando na minha tela por uns dias. 😉

    • Tenho que tirar esse filme em vídeo, ou baixá-lo, pois moro no mato e aqui não tem cinema. Vou pensar sobre o que vc disse e escrever mais sobre isso usando um autor bem bom, o Paul Virilio, que escreve sobre velocidade, corpo e poder. Quero ver se mantenho esse assunto para a próxima publicação. bj

  3. Dinah
    Não foi possível ler um parágrafo de cada vez … o texto puxa e vai levando a gente para os comentários postados, numa análise meio introspectiva da decadência política do nosso tempo, que chega, como bem dizes, na “evolução contínua do Capitalismo contra a espécie humana”.
    Vamos assistir ao filme indicado pela Ana Souto.
    Tua caneta continua ótima!
    fã n. 1!!!

    • adorei a sauna, o suco de laranja, a piscina e os papos. eu aprendo muito contigo professora e juíza Ângela, espero ter uma vida longa ao teu lado. bj

  4. De certo modo, Dinah, como tudo, assim como nós trazemos a nossa própria morte desde o nascimento, o PT trazia, já na sua infância, que compartilhamos, sua face de Mefisto. Assim como o oxigênio que nos dá vida e energia, nos oxida e envelhece, o PT tinha já todas as suas caractarísitcas que hoje estão escancaradas. Por isto caí fora dele ainda nos anos 80. Nunca me senti pronto para a “democracia socialista”, onde cada indivíduo se submete às decisões do coletivo, onde, se a maioria decidisse, eu me infiltraria como operário no Pólo Petroquímico ou no Estaleiro Só (citando dois exemplos que estiveram bem próximos de mim naqueles tempos). Também trazia a visão desenvolvimentista, onde as questões ambientais, feministas, raciais, indígenas eram consideradas “questões secundárias” que tu, eu e alguns outros, tínhamos que escrever um parágrafo (depois todo podado) para o programa do DCE ou do que fosse. Também se construía, dentro da carapaça de partido de núcleos, horizontal, um partido de “tendências” completamente verticalizado, onde as diversas organizações de digladiavam para tomar o poder, nem que fosse um poderzinho em um sindicato qualquer no interior do país… Aí, minha amiga, saltei fora. Não disse, como tu, “eu amo o PT”, pois, mesmo participando ativamente, pensava, como no Tao, que tu citaste, que os dois lados antagonistas, convivem em si e a harmonia vêm justamente daí. Sei lá, te devo um café!

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