Um conto de reliberdade

O desejo de tocar o céu novamente era o que me mantinha viva…

Um pássaro canoro voava manso e cantava tão bonito de fazer inveja em pássaro-lira. Era tão livre que nem nome tinha. Dia desses foi engaiolado… A tristeza e a solidão lhe alvejaram. Suas penas perderam o viço. Suas pequenas garras se envergaram. As penas caudais, que antes se abriam verticalmente, penderam. Cabeça baixa, como se algo procurasse no fundo da gaiola, mal piava. Um pio triste e melancólico… Não comia, nem bebia. Só contemplava o verde lá fora.

Em dias de sol e brisa fresca, o homem punha a gaiola na goiabeira. O pássaro, que agora é “descanoro”, se debatia entre as hastes finas da gaiola. Suas garras deformadas se agarravam às barras de sua cela como se pudessem curvá-las. Tamanho desespero era ignorado por seu senhor. Cansado, o pássaro desistia, fechava os pequenos olhos e sentia a brisa balançando as poucas penas que lhe restavam. Tentava cantar, não de alegria, era súplica. Um pio que mais parecia um grito. Nada de compadecimento. É só um pássaro…

Alguém disse que o pássaro precisava de mais espaço, só assim voltaria a cantar. O homem lhe fez um viveiro. Pobre pássaro! Com esperanças renovadas, despertou suas asas e alçou voo. Deparado com novas grades, estatelou-se no fundo de sua nova prisão…

Por dias, semanas e meses, mal se movia. Era refém da nostalgia. Seus sonhos eram de um tempo em que voava livre e ninguém o nominava. Não vivia sozinho como agora. Tinha companheiros com quem dividia as árvores, as frutas e sementes, o verde e o azul, o sol e a chuva… O desejo de tocar o céu novamente, com suas asas abertas contra o vento, era o que o mantinha vivo. Doce esperança!

No fundo do viveiro passava seus dias, preso a um poço de desolação. Maltratado, mantinha-se de pé só por orgulho. Lembranças do tempo em que era seu próprio senhor. O homem veio lhe alimentar. Viveiro aberto. Um pássaro doente não foge. Ledo engano! Era a chance que esperou por tempos e tempos. Uma piscadela do senhor e ele voou. Um voo torto, desengonçado, era o voo da “reliberdade”!

Uma piscadela do senhor e ele voou.

Mas ele não era o mesmo… Havia marcas… A solidão e o desamor têm lâminas afiadas que deixam cicatrizes indeléveis. As asas não eram mais as mesmas, perderam muitas penas. Sua calda pendia. Seu canto sumira. Quem era ele? Aquele que se sentia livre por não ter um nome, agora lamentava não ser de lugar algum… Pra onde iria?

Descansando num galho de árvore, reverenciava o pôr do sol, sozinho. Ninguém o reconhecia. Chegou a sentir falta do viveiro… Suspirou profundamente… Fechou os olhos, estava cansado, e sentiu que era hora de desistir… Ao menos havia feito seu último voo, livre como nasceu. Mas… O que há? Ouviu um canto e seu coração pequenino acelerou. Seu corpo minguado e esquálido foi tomado pelo canto, e suas poucas penas se eriçaram. Reconheceu o som. A música da sua origem. Encheu o peito e pôs-se a cantar… Um canto lindo, outrora sufocado pela dor, mas que não era de alívio, era de reencontro. Um reencontro consigo mesmo! Um reencontro com os seus! Um reencontro com o amor… À vida!

Um reencontro com os seus! Um reencontro com o amor… À vida!

A todas as mulheres que sofrem ou sofreram violência doméstica.

A Anderson Ulisses, meu transamado companheiro, que me deu asas para tocar o céu com sua poesia… Que me incentivou a soltar a voz e cantar meu canto de reviver…

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Categorias: Reflexões, Verso & Prosa | Tags: , | 14 Comentários

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14 opiniões sobre “Um conto de reliberdade

  1. Lindona ,
    precisei parar de chorar de emoção linda transbordante para conseguir escrever aqui…risos…
    Lindo texto , maravilindo , poesia em prosa , prosa em poesia …
    Vcs são lindos !
    Amo vcs !
    Beijos !!

  2. Daniela Paes

    Que lindo, prima! Quanto orgulho!! Te amo!

  3. Janaina Coutinho

    Nossa, que lindo!!! Sem palavras, mesmo pq eu não sabia desse seu lado. Parabéns!!!

  4. Música transamada, voemos de mãos dadas e com a outra livre pra tocar os céus! ❤ 🙂 ❤

  5. Republicou isso em It's a very deep seae comentado:
    Esse lindo conto é de uma grande amiga , a quem amo muito e de quem adoro ouvir os contos…aproveitem bem !!

  6. Reconhecer os outros em nosso planeta, saber quando não estamos sós, identificar quem quer revesar com você para o fogo da caverna ficar aceso. Manter a caverna limpa. Dormir aninhado para esquentar. Ahhh…….catar os piolhos, uns dos outros! Sim. Vamos.

  7. Flávia Belo

    UAU!!! QUE LINDO!!! Encheu meu coração de esperança de, um dia, conseguir ludibriar o dono da chave da gaiola (EU MESMA) em que, presa (e com a chave pro lado de dentro, o que é mais irritante pra mim!!!), vou, dia a dia, querendo crer que tenho de encontrar a felicidade na prisão, quando ela está na relibertação… OBRIGADA por esse belíssimo conto-poema!!!

  8. Flávia Belo

    ESCREVA, ESCREVA, ESCREVA!!!!

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