Antologia parapoética brasileira, comentada

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Nova vertente de transversismo! A poesia está no ar e no blogue. Há tantos textos eivados do mais puro lirismo que passam despercebidos ou são simplesmente esnobados. É aa parte desses que pretendo me dedicar aqui. Pra isso, reuni algumas pérolas de nosso cancioneiro, em ritmos, influências e sotaques musicais bem distintos e pretendo dar a elas uma análise despretensiosa, mas aa altura do lirismo que, enfim, evocam, inerentemente.

Iniciemos com um épico.

Temporal (Art Popular)

Faz tempo que a gente não é aquele mesmo par
Faz tempo que o tempo não passa
É só você estar aqui
Até parece que adormeceu
O que era noite já amanheceu

Cadê aquele nosso amor
Naquela noite de verão
Agora a chuva é temporal
E todo céu vai desabar

É, até parece que o amor não deu
Até parece que não soube ama..a..a..ar
Você reclama do meu apogeu ( do meu apogeu )
E todo o céu vai desabar..ah ah ah ah ah…
Ah ah ah ah, ai… desabou (Me iludiu)

Ah… que raro deleite, não? Bem, no melhor estilo do analista literário britânico Jack, vamos por partes. A letra da canção inicia-se com um eu lírico desconsolado, lamurioso com o atual estado de seu enlace amoroso, como inequivocamente expresso nos dois versos introdutórios. A esses, segue-se o terceiro verso, com a permanente expressão da angústia humana diante da passagem do tempo. Na sequência, o enigmático quarto verso. A quem pertence o protagonismo do adormecimento? AA figura amada? É uma possibilidade, claro. Mas, como revelará uma possível leitura do refrão não há de ser a única- e eis que antecipamos aí o grande “Enigma do apogeu”, como, afinal, ficou popularizada a referida passagem. Mas, chama atenção também o rebuscado jogo semântico do quinto verso que parece instaurar um contrassenso. Mas, só os parvos que tentam analisar “noite” conotativamente em sentido negativo e “amanhecer”, positivo caem nesse engodo. Aqui a poesia fala mesmo do fim da noite, como momento literal de compartilhamento da cama, ora. Atenção, aa rima entre “adormeceu” e “amanheceu”, padrão rímico a se repetir.
“Cadê aquele nosso amor”? Afastamento acentuado pelo pronome “aquele”, marcando o típico eu lírico sofrido-na merda. Notem que, agora, a chuva, convertida em temporal, deve ser entendida conotativamente. Muita, muita dor.
Ao chegarmos ao refrão, aí sim deparamos com as finas formas poéticas do texto. Aqui o eu lírico abandona sua postura de menininho chorão e parte pro confrontamento com a figura amada em passagens antológicas. Primeiro a rima riquíssima, quase superfaturada e fraudulenta entre “deu” (um verbo), com toda sua vasta polissemia (afinal, “não deu”?) e “apogeu” (um substantivo), de fazer inveja ao príncipe dos poetas, Olavo Bilac. E eis que deparamos com o aflitivo “enigma do apogeu”. Há aqueles que, despeitadamente, afirmam que quem compôs essa letra não sabe o que signifique apogeu, mas isso não passa de maledicência. Assumindo, portanto, que, de fato, a palavra corresponda a “ápice”- afinal, sabe-se lá que jogos sofisticados de sentido podem ter sido feitos com o apogeu- quem essa figura pensa que é? Além de levar o eu lírico ao estado de beicismo intenso, ainda reclama de seu “apogeu”? Ora, que figura mais periclitante será essa?! Isso tudo nos leva aa inevitável pergunta: o que, no fim das contas, terá desabado, após a reclamação injustificável sobre o apogeu desse inconsolável eu lírico?
Agora, voltemos nossas atenções ao consagrado clássico de Cumpadi Washington e Beto Jamaica, poetas não reconhecidos da contemporaneidade.
Dança da cordinha (É o Tchan)

Passa negão
Passa neguinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Passa negão
Passa loirinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Passa loirão
Passa loirinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Passa loirão
Passa neguinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Essa é a nova onda
Que eu vou lhe ensinar
Por debaixo da cordinha
Você vai ter que passar

Remexendo ao som do Tchan, Tchan, Tchan
As meninas e o rapaz
É o bicho da cara preta
Mostrando como é que faz

Passa gordão
Passa magrinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Passa gordão
Passa magrinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Passa negão
Passa neguinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Passa gordão
Passa magrinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Vai, vai, vai
Baixando
Vai, vai, vai
Passando
Vai, vai, vai
Que eu também vou

Essa aí passou!
Essa aí passou!
Essa aí passou!

Vai, vai, vai
Baixando
Vai, vai, vai
Passando
Vai, vai, vai
Que eu também vou

Essa aí passou!
Essa aí passou!
Essa aí passou!

Essa é a nova onda
Que eu vou lhe ensinar
Por debaixo da cordinha
Você vai ter que passar

Remexendo ao som do Tchan, Tchan, Tchan
A menina e o rapaz
É o bicho da cara preta
Mostrando como é que faz

Passa negão
Passa neguinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Passa negão
Passa neguinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Passa gordão
Passa gordinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Passa gordão
Passa magrinha
Quero ver você passar
Por debaixo da cordinha

Vai, vai, vai
Baixando
Vai, vai, vai
Passando
Vai, vai, vai
Que eu também vou

Essa aí passou!
Essa aí passou!
Essa aí passou!

Vai, vai, vai
Baixando
Vai, vai, vai
Passando
Vai, vai, vai
Que eu também vou

Essa aí passou!
Essa aí passou!

Aqui, deparamos com uma plena convocação libertária. A cordinha é, antes de tudo, um instrumento e símbolo de nivelamento e equiparação social. Todos passam por ela igualitários: o loirão, o negão, a magrinha e tantos outros. Não há racismo, lipofobia, preconceitos de quaisquer ordens. E aqui salta aos ouvidos a rica intertextualidade com o prestigiado compositor Chico Buarque que cantarolou, em projeção de futuro, “Vai passar”, como antecipação da vindoura alegria popular nas ruas. Pois que os libertários poetas Jamaica e Washington, mais avançados do que Chico, conclamam o momento exato dessa celebração: “Vai, vai, vai… passando”, numa festa de democracia plena, sob os auspícios do “bicho da cara preta”, em plena identificação da efetiva matriz étnica popular brasileira. É a alegria espontânea a cada passada, transfigurada na superfície textual pelo recurso da repetição enfática: “Essa aí passou, essa aí passou, essa aí passou…”. É o Tchan libertando geral! É “a nova onda” de transformação social!

poesia

E, como comprovação de que esta nossa análise estilística se volta aos mais variados, abrangentes e representativos exemplares de nosso cancioneiro, um exemplar representante de nossa MPB.

Táxi Lunar

Ela me deu o seu amor, eu tomei
No dia 16 de maio, viajei
Espaçonave atropelado, procurei
O meu amor aperreado

Apenas apanhei na beira-mar
Um táxi pra estação lunar

Bela linda criatura, bonita
Nem menina, nem mulher
Tem espelho no seu rosto de neve
Nem menina, nem mulher

Apenas apanhei na beira-mar
Um táxi pra estação lunar

Pela sua cabeleira, vermelha
Pelos raios desse sol, lilás
Pelo fogo do seu corpo, centelha
Belos raios desse sol

Apenas apanhei na beira-mar
Um táxi pra estação lunar

Muito já se disse sobre a esfíngica letra da música assinada por Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença. Ora, afinal, o que nossos três grandes prestigiados compositores pretenderam com essa letra? Essa pergunta ecoa há muito, de norte a sul. Por que 16 de maio?! Espaçonave atropelado?! Sol lilás?! E o que a bela linda criatura, nem menina nem mulher tem a ver com o tal táxi pra estação lunar?! Ora, como assim “táxi lunar”?!

Há os que advogam ser essa letra, na verdade, exclusivamente de Zé- bem ao feitio de sua obra- e Geraldinho e Alceu, então, teriam disponibilizado seus nomes em uma época em que o compositor paraibano estaria mal das pernas e da cabeça. Em que pese essa versão ter sustentação na biografia do querido Zé, não nos esclarece de que se trata afinal a poética composição.

Há também aqueles que sugerem uma autêntica manifestação neodadaísta aí. Mas, tal interpretação soa muito simplista e escapa também da análise devida.

Em verdade, apesar das inúmeras teorias interpretativas sobre a letra da canção, trata-se dum ousadíssimo libelo, em plena ditadura militar, pela legalização da maconha, quiçá sabe-se doutras substâncias. Vejam vocês quanto destemor desses compositores. E, afinal, se a censura da ditadura deixava passar o tanto que deixava do Chico Buarque, imaginem “Táxi lunar”, ininterpretável pros toscos censores.

Por fim, elencamos aqui, com a licença do aparentemente antitético neologismo, um verdadeiro neoclássico!

Eguinha Pocotó

Vou mandando um beijinho
Pra filhinha e pra vovó
Só não posso esquecer
Da minha eguinha Pocotó

Pocotó pocotó pocotó pocotó
Minha eguinha pocotó

O jumento e o cavalinho
Eles nunca andam só
Quando sai pra passear
Levam a égua Pocotó

Pocotó pocotó pocotó pocotó
Minha eguinha Pocotó

Um belíssimo exemplo da riqueza e polissemia de nossa cena musical. Pois vejamos… Logo, aa abertura do texto, a simpática eguinha assume, para o eu lírico, a mesma importância da filhinha e da vovó, numa clara referência aos direitos animais ora tão em voga. A simpática Pocotó, então, extravasa o plano meramente onomástico e se torna uma contagiante interjeição com uma carga de sentimentalismo de difícil tradução. Com a entrada em cena do jumento e do cavalinho e  a tematização do cruel risco do flagelo contemporâneo da solidão, temos, diante de nós, um painel idílico. Aqui o apelo a uma vida de tom pastoril é claro e a nossa aclamada Pocotó ocupa aí a surpreendente condição de Musa, tal qual Marília, de Dirceu, numa elevação talvez só vista, em relação aos animais, na caracterização da cadela Baleia, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Eis que a conclamação de ambiência bucólica eclode em nova ênfase interjecional. É uma retomada dos típicos valores da estética árcade em nosso mundinho contemporâneo. Literalmente, como dito, neoclássico!

E você achava que No meio do caminho, de Drummond era um exemplo de texto, recorrentemente, injustiçado, hein?!

Por hoje, é só, pessoal.

Na próxima Antologia parapóetica brasileira, comentada:

– Ragatanga: uma canção satânica?

– Djavan: trilharemos as movediças dunas das composições do alagoano…

E ainda, o axé-marxismo…

P.S.: texto dedicado a meu cumpadi Wellington Silva, que, com certeza, adentrará o espírito das análises aqui empreendidas.

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Categorias: Cultura, Verso & Prosa | 15 Comentários

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15 opiniões sobre “Antologia parapoética brasileira, comentada

  1. Luciana

    Muito bom, adorei ver o seu jeito de interpretar as músicas! Só achei forçado o da eguinha pocotó… Kkkkk mas amei todas! Nunca tinha visto nessa perspectiva! Bjo grande!

  2. Luiz Constantino

    Muito, mas muito engraçada mesmo. E como o nosso cancioneiro extremamente popular é uma inesgotável fonte de piadas, sugiro os novos fenômenos de audiência, que infelizmente ouvi nesse último carnaval, a contragosto: Lepo Lepo, de uma banda genérica baiana qualquer e Beijinho no Ombro, da mais nova diva e musa Valesca Popozuda, com toda a sua correção gramatical, lógico

  3. Hummm… primeiro preciso conhecer essas pérolas, mas tudo pela arte, né? 😛

  4. Eu adoro baladas românticas. Gostaria que vc abordasse essas músicas que a gente nem sabe direito a letra, em geral em inglês, e que dão a impressão de que o orgasmo feminino não é tão difícil de acontecer, bastaria que os homens se movessem no ritmo dessas músicas que as mulheres bobas cantarolam as melodias sem nem saber o que as letras significam. Tipo Alicia Key, por exemplo, que eu faço o CD correr de novo e de novo e de novo, que nem criança pequena. (rsrsrsrsrsrsrsrs)

  5. Hummm… crítica literária internacional…

  6. Giselle

    Sensacional. Acredito que o clássico “Xibom bombom”,de As meninas, seja um clássico do axé-marxismo. Lepo Lepo canta o amor verdadeiro e desinteressado, uma boa pedida!!!!

  7. Com todo meu ” accent ” …risos…você escreve demais !! Risos…
    Parabéns da amiga baiana que fala ” oxente “…risos…mas morre de vergonha das letras da axé – alguma coisa não music …risos…
    Beijos ,
    Ana

  8. Obrigado pelo permanente prestígio e apoio, Ana! 😉

  9. Helena Ventura

    Simplesmente brilhante, Anderson! Parabéns!

  10. Pingback: Antologia parapoética brasileira, comentada, 2ª parte | transversos

  11. maria

    Quando vi o nome TEMPORAL encheu meus olhos achando que era uma grande pérola cantada por o grande Zé Ramalho.

  12. Não gosto de mulheres, tenho nojo de todas!!!

  13. Gabriel

    Apogeu eh bem claro, apogeu a a maior distancia entre a dois astros, Lua e Terra por exemplo, ou seja, ela reclama quando ele ta distante…

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