As mortes em séries da classe média brasileira

marcha da família maçon

classe média 2

 

 

 

Não vejo a classe média brasileira como um “judas”. Em um país de tradição escravista a classe média é fruto de migrantes dos “de baixo”, pessoas com origem nas camadas vinculadas às memórias e identidades dos escravos, indígenas perseguidos e brancos pobres e abandonados, ou fruto de migrantes dos “de cima”, pessoas que perderam sua inclusão entre os nobres e decaíram “às galés”. Há quem diga ter a classe média iniciado sua formação no segundo império brasileiro, quando já havia a grande preocupação com a busca pela “modernidade”, palavra da qual derivam todos os ideais alimentados por todas as classes médias da história da humanidade. Dizia Oliveira Vianna, um jurista autoritário pensador do tempo do Estado Novo de Getúlio Vargas, que o Brasil padecia de ter seus brancos cruéis demais, exagerados era o termo, e seus negros servis demais. E, ainda, dizia que o mestiço brasileiro – característica da maioria da população até hoje – era possuidor de um hibridismo de linguagem, intenções e caráter que lhe conferiam uma personalidade ambivalente, difusa, molenga, polimórfica. Digo isso, e não irei adiante, para demarcar um pensamento de que o furo é muito mais embaixo quando vemos uma meia dúzia de bizarros personagens levantarem a bandeira da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, e irem às ruas neste março de 2014 em várias cidades do Brasil.

A tradicional classe média brasileira parece estar morrendo coletivamente e em acontecimentos dramáticos individuais, ou em família, em pequenos grupos ou em aglomerados de tipos sociais – como os servidores públicos por exemplo – não raro em situação de total solidão e deprimente abandono. A família tradicional de classe média está sob pressão de um novo e estranho alargamento das faixas populacionais subalternas e de outro leve e controlado adensamento da minúscula classe superior, detentora dos meios de participação social na condição de ator e não a de mero espectador, plateia, audiência, seguidores da opinião publicada. Eu gostaria de entender o aspecto melancólico dessas manifestações inglórias de uma direita sem poder algum, ou de qualquer coisa representando uma fração das forças policiais. Sabendo que seriam pequenos, destoantes, desengonçados eles foram assim mesmo para as ruas e isso sempre foi um enorme privilégio da esquerda, das feministas, dos anarquistas e de quem tinha moral sobrando para demonstrar sua fragilidade e pequenez. Também no tempo de Getúlio Vargas integralistas disputavam aos tapas e violências banais os espaços nas calçadas, junto a comunistas e socialistas sem poder. Note-se, também no tempo de Vargas havia comunistas e integralistas no poder e entre os “de baixo” e os “de cima”, neste caso, não havia (também) confiança e nem representação. O que marca o momento em que vivemos é a existência de multiplicidades tanto entre os “donos do poder”, como referia o imbatível Raymundo Faoro, quanto entre os subalternos, os zé ninguém. E aí temos classes médias em todos as cores de tribos, exércitos, bandos e religiões, não sendo um atributo próprio da classe média marchar com a família por deus e pela liberdade, até porque cada setor desses dos do meio tem seu próprio deus, seja ele qual velho barbudo ou bigodudo for, ou Marx, ou Nietzsche, ou Stalin, ou Gandhi, ou Jesus em sua figura paterna, e cada qual tem a sua própria concepção do que possa emanar da palavra “liberdade”. Noves fora, zero.

Mas é evidente a redução do espaço social para a cultura tradicional das classes média, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Uns brincam nas mesas de bares comentando o “enchinezamento” do mundo, ou seja, já percebemos que coisas endeusadas pelas classes médias, tais como Declarações de Direitos Humanos e Constituições de Repúblicas estão sendo atropeladas pelos tanques da “celeridade”, da “eficiência” e da “produtividade”, a partir do exemplo chinês, no mundo todo. No Brasil, há várias mortes da classe média em séries de acontecimentos diferentes. Há uma morte coletiva anunciada pelos já famosos rolézinhos, que não obstante sejam coibidos, reprimidos, reconduzidos a um controle, já são um acontecimento terminal do templo da classe média brasileira, o shopping center, que nunca poderia ter sido chamado de “supermercado de lojas”, necessariamente teria que carregar um nome em inglês. Uns dizem que essa morte do shopping se dá porque o dito é um lugar de meditação individual egocêntrica, e o rolézinho aparece à superfície a partir de uma formação migratória da margem, dos periféricos ao sistema de consumo, que se movem por necessidade e tradição em bandos, uma andarilhagem nômade, movimento coletivo.[superfície aqui significa aquilo que é visto por todos, que consegue ser falado por quem controla a circulação de imagens, discursos] Ora, diz essa leitura (veja Paul Virilio ) que a contemplação dos shoppings não é “dromo”, é introspecção individual, mesmo quando ocorre em pequenos grupos de familiares: sempre há o sujeito ego ação, o personagem que está escolhendo a roupa, o objeto, o sorvete, o desejo enfim. E, na classe média brasileira, a escolha é de um sujeito, o que entra na loja, o que diz “aqui”, o que celebra o ritual. O rolézinho é um “todo o mundo” e se aproxima mais do assalto em bando do que da liturgia do recebimento da hóstia, na comunhão católica.
Há várias mortes sobre as quais não falaremos aqui: a morte da música pensada e entendida, a morte da leitura premiada e formadora de hegemonia discursiva, a morte do amor iluminista, e outras tantas mortes, inclusive a morte de um determinado tipo de corpo autônomo. A classe média era, e ainda se mantém, um acontecimento articulador de um espaço público no qual era tecido o cotidiano de um viver republicano, um lugar de direitos comuns dos quais estavam exilados tanto os pobres, por carência de exercício de direitos, quanto os ricos, por terem sua abundância de poder protegida por altos muros. Agora o espaço público está metamorfoseado em espaço de uma guerra civil latente, lugar de circulação de guerreiros, soldados, bandidos, forasteiros. Um lugar já invadido pela ausência de direitos própria dos que antes eram os chamados excluídos e agora são os novos seres do meio, esse lugar sendo já uma enorme parte, ou melhor dizendo, o lugar nomeado como o dos 99% perdedores no sistema capitalista tardio. É por isso, pela perda de importância política da classe média em seus ideais que as ruas começam a ser ocupadas por outras identidades que não a de classe média bem sucedida, os vândalos de todo o tipo, seja de direita ou de esquerda. Ou até mesmo o povo das drogas, por que não incluí-los nesta análise?

É isso. Deixo o debate começar aqui. Só gostaria de finalizar iluminando uma das séries das mortes da classe média brasileira: a morte dos velhos estudados e bem profissionalizados, em geral reacionários, machistas, homofóbicos (mesmo os que praticaram seu homossexualismo clandestino), tradicionalistas e positivistas. Talvez seja pecado dizer, mas os velhos pobres habitam mundos nos quais as comunidades são mais agrupadas em sentimentos de solidariedade e mútua proteção. Eles são muito úteis, não raro, e servem para ajudar com as crianças, com os inválidos, com as limpezas, as rezas, os cultos e bênçãos pagãos. E quando morrem, isso lhes acontece de um modo mais súbito, já que não têm acesso ao atendimento médico e hospitalar de alta qualidade. Já os velhos da tradicional classe média brasileira atual vivem em um mundo no qual a família perdeu o sentido, vivem solitários em apartamentos bem mobiliados e com direito aos melhores hospitais e médicos de plantão. Habitam um mundo onde se dá todo o valor ao corpo ágil e rápido, competitivo e exato, produtivo. Os velhos da classe média não morrem de uma vez, vão morrendo aos poucos desde os cinquenta anos, em meio a toda a cara tecnologia para mantê-los vivos em uma sociedade que despreza a velhice, a memória, a experiência, a lentidão.

Então, resumindo, os velhos da classe média desse país escravista e futeboleiro, das grandes mídias tirânicas, estão chegando aos oitenta anos abandonados desde os sessenta e sem função nenhuma, nem mesmo perante filhos, netos e bisnetos. Eles são aquela velhinha do filme “feio, sujos e malvados” de Ettore Scola, na cadeira de rodas, que os familiares apenas desejam receber a grana da aposentadoria (no caso da nossa classe média, a pequena herança). Eles mesmos, esses velhos, são os jovens que apoiaram o Getúlio Vargas, que cresceram com ele, que reconheceram na Ditadura Militar os jovens tenentes formados na coluna Prestes, aderindo ao milagre econômico da década de 1970. E, mesmo os que odiaram o Lula desde o início, reconheceram na fase sorriso e gravata do ex-dirigente sindical uma possibilidade de continuação do projeto desenvolvimentista e ordenador, que afinal era tudo o que esses agora velhos entenderam, desde quando foram adolescentes em um país de centralização imatura, sempre frágil e fake, imerso desde sempre em coronelismos imortais. Tornaram-se esses velhos um fluxo coletivo de autoritarismo tacanho, moralidade ambivalente e paradoxal e, emersos de um cristianismo ibérico inquisitorial, supreendentemente tornaram-se agnósticos e ateus em conjunto. Uma vitória significativa de um determinado positivismo renitente e tupiniquim.

feios e sujos

Assim, temos, ao lado dos presídios onde se degolam presos mais frágeis, ao lado das escolas onde se mantém crianças e adolescentes contidos e adestrados, ao lado dos trabalhos onde se mantém um gado humano humilhado e sempre classificado como moroso, negligente, desleal, temos – para a classe média brasileira, a verdadeira – hospitais e médicos bem remunerados e procedimentos para prolongar apenas a existência do corpo físico em pé, ou em cadeiras de rodas, ou em camas de geriatrias. Esses velhos, hoje, são chamados pela grande mídia de “melhor idade” e estão tomados por uma demência provocada não apenas pela fragilidade de seus cérebros, mas, sobretudo, pela total ausência de função social deles, tanto material e cultural quanto política, já que eles são conservadores, moralistas e autoritários de um modo fora de moda. Todas as paranoias explodem nessas famílias de classe média verdadeira que a grande mídia se esforça por expulsar do lugar social dos não comentados, blindados e não criticados, o lugar dos âncoras, dos atores famosos, dos grandes jogadores, dos grandes músicos, os que têm iates e BMWs, o que mantém essa antiga classe média como alvo de todas as críticas comportamentais desde a grande mídia até a grande esquerda tradicional, que se detém a tirar a pele com “gilete” dessa subcultura já desnecessária ao projeto neopopulista chinês dos integrantes ( à esquerda e à direita) do bonde “Lula lá”. Assim, desmoralizados, os velhos mortos-vivos, internados em clínicas, estacionados em frente à televisões de última geração ou, finalmente, entubados e suas famílias mergulhadas em múltiplas e criativas psicoses de grupo, ficam meses, às vezes anos, em uma espécie de campo de concentração da nova tecnologia geriátrica, da melhor idade, ocupada em produzir índices de expectativa de vida para futura manipulação.

Havia algo de absurdo nas passeatas da “marcha da família” do mês de março de 2014 no Brasil; havia uma evidente estética de um fracasso, uma paranoia esquálida e decadente. Eram poucas, agoniadas, infelizes e envergonhadas pessoas. Foram acontecimentos por demais bizarros para que deixássemos de nos preocupar com eles. Havia algo de muito preocupante na decrepitude simbólica daquela gente. Talvez eles representassem uma velha direita morrendo para dar lugar a uma nova direita que não se chama assim. Talvez fosse a representação de uma das mortes da classe média de tradição, anunciando um tempo Mad Max e Matrix, sem classes médias.

Anúncios
Categorias: Sociedade | Tags: , , , | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: