Nós, os outros e a moral

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Algumas palavras correm o risco de perder o sentido por conta de uma apropriação ideológica horripilante. É o caso de moral, que, tomada pela classe média, abrange, não a noção filosófica amparada no respeito às diversidades de forma a tornar possível a convivência, mas sim noções preestabelecidas que dividam as pessoas em duas classes bastante demarcadas politicamente: nós e os outros.

O primeiro grupo é formado por pessoas que julgam ter aspirações mais elevadas. Compartilham gostos com ares de supremacia valorativa, acreditam na igualdade de oportunidades, na Família, em Deus, nas Marchas e na Lei de Talião. Acorrentam menores a postes ou punem exemplarmente ladrões de shampoo. Gostam de pobres, desde que eles reconheçam que precisam estar nos recintos como a copeira na reunião de executivos. Calada, discreta e prestativa. Bem educada.

O segundo é formado por pessoas abertas a revisões permanentes de aspirações. Gostam do que lhes afeta os sentidos, alguns acreditam em Deus, alguns em deuses, outros são ateus. Acorrentam-se ao silêncio temerário de encontrar-se entre o poder do tráfico armado e o poder armado do estado (muitas vezes sem encontrar qualquer diferença entre eles). Ou rebelam-se contra execuções. Ou resolvem exercer algum poder simbólico dando rolezinhos nos shoppings. Em ambos os casos, são criminalizados. E as ditas culturas de paz não são canções de acordar. Apenas adormecem ruminantes.

“Nós” e os “outros”, reforçados limites que sempre me fazem lembrar das reflexões de Zygmunt Bauman sobre a dimensão opressora da despersonalização. Os outros são os anormais, os ímpios, os bandidos, os transgressores, os bêbados, as putas, as crianças abandonadas, os que podem ser torturados, os que podem ser banidos, os que podem ser mortos.

O outro é a Cláudia, o outro é o Amarildo, o outro são as vítimas da Chacina da Candelária, o outro é o menino imobilizado na Praça Sãens Pena.

De acordo com a moral volátil, para dominar o território acidentado do Rio de Janeiro, algumas baixas de civis são inevitáveis. Fazem parte do risco calculado das operações de segurança pública. |Para a moral volátil, o torturado já tinha errado e isso justifica toda a sorte de atrocidades cometidas contra ele, incluindo a omissão do cadáver. Para a moral volátil, crianças pelas ruas são como ervas daninhas, precisam ter suas raízes arrancadas. Para a moral volátil, é de pequenino que se torce o pepino. Ou o braço, ou o pescoço.

E assim a noção de que o brasileiro é um povo pacífico sucumbe junto com essa moral arrevesada, amparada na luta de classes, que se finge ocultar.

Outros textos sobre “os outros”: O cabelo, o sexo e a viga; Vozes autorizadas: o poder que cala; O carnaval que ninguém viu;

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Categorias: Crítica, Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , , | Deixe um comentário

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