Adeus, tristes

Outra vez acontecem eventos Brasil afora para lembrar a maldita, esta abjeta que como os vampiros fantasmáticos vegeta nas catacumbas com o espírito envolto em trevas de onde sai, de vez em quando, para nos assombrar. São desfiles, palestras, esclarecimentos, lágrimas para os mortos, mais um ritual fúnebre para a dita dura a maldita, a má e maldita dura ditadura, dura, duríssima. Não adianta, saibam os cínicos que mamaram daquele leite fétido, tentar abrandá-la para aliviar suas próprias culpas e as daqueles a quem servem. Digam, a quem servem,desgraçados? Desgraçados no sentido literal da palavra: coisas ruins, incapazes de sentimentos de graça, de gratias, gratuitos. Putos, moleques, inconsequentes, serviçais sem consciência. Servem à mesma ordem que plantou essa semente que nos rasgou o peito e os sonhos. Anos tão desgraçados que a memória quase esgarça mas não leva, não apaga, não lava porque é memória de sangue e sangue mancha, é nódoa eterna o fraterno, destes milhares de filhos e filhas assassinados por aqueles a quem ainda pagamos soldo.

Tropa de covardes-facínoras que mataram a quem deviam proteger, antes forjando – usando perfídia, loucura, crime- a ideia de que eram inimigos, os únicos inimigos que enfrentaram em suas miseráveis carreiras de fracassados soldados. Para isso aprisionaram os verdadeiros valentes que, ao contrário deles, eram honrados e se negaram a colocar suas patentes a serviço da torpeza. Com torpes não compactuam os homens de respeito e soldados covardes só merecem desprezo. Homens valentes jamais torturariam, despedaçariam corpos e almas, estuprariam e esfolariam mulheres e homens desarmados. Coisas como estas são obra de covardes, falsos soldados, guerreiros- engodo.
Traidores. Traidores do Presidente a quem tinham jurado subordinação, traidores da República, traidores da Constituição, faltando à palavra empenhada, aos juramentos prestados, incapazes de honrar a única coisa de que poderiam ter se orgulhado em suas vidas ociosas de botas lustradas, fazendo mesuras e recitando palavras vazias sobre guerras que nunca lutaram. Traidores dos patriotas, dos defensores da nação e dos mais fracos. Traidores-covardes-em-armas apontadas para desarmados camponeses e camponesas que marchavam há décadas pedindo justiça. Há décadas! Pedindo o quê? Ouro para fazer medalhas? Clubes para jogarem cartas, arrotarem grosseria e soltarem flatos? Ladrilhos para suas piscinas, diamantes para suas amantes, carros possantes, casas de praia? Não, traidores, os trabalhadores pediam terra para plantar. Terra para que, comos filhos desta terra (esta terra destes filhos que os traidores tinham jurado defender), pudessem plantar alimentos, pudessem trabalhar. E tanta terra havia, Deo Gratias!, mas preferiram levar Seu nome à lama, onde se lambuzaram como porcos, apupados por galinhas carolas que mal entendiam de bordados, de cacarejar estultícias e explorar a menina na cozinha que limpava também suas fossas.

Traidores. Traíram e traíram de novo, quando faltaram à palavra dada de convocar novas eleições e juntaram-se a bandidos, a descendentes de assassinos de nativos, a fascistas recém-chegados, a ambiciosos sem escrúpulos, a todo o tipo de escória que sempre andaram nestas terras a vadiar, escravizar, estuprar e matar há mais de 500 anos. Todos cheios de posses roubadas, títulos roubados, nomes imundos que mandam escrever em placas. Estes, os seus nobres sócios, seus empolgados apoios!

Traidores. Trazedores de dores. Traíras. Assassinos de pobres desarmados, de padres desarmados, de estudantes desarmados, professores desarmados, jornalistas desarmados, advogados desarmados, assassinos de brasileiros mantidos miseráveis nos cafundós a quem não foram capazes de prover míseras cisternas para que não morressem de sede! Trocando nossas matas por cascatas de mentiras e dólares, mancomunados com águias a quem ofereceram nosso fígado, mastigando nossa carne para dar de comer ao condor, lambendo botas do império para ganhar farelos, maus conselhos, tapinhas nas costas, enquanto o mundo inteiro zombava das suas parvoíces de brutos que de nada entendiam além de pregar a ordem. A ordem, imaginem, a ordem! Babacas cheios de botões de lata posando no espelho, arrotando valentia e entregando o país à agiotagem, para que todos os cafetões se forrassem de dinheiro enquanto o povo se esfalfava para sustentar toda a corja. Batalhão de incompetentes

Queimadores de arquivos, depredadores de memória, nem meio século aplacou nossa dor, ver todas aquelas criancinhas obrigadas a marchar para enaltecer mentecaptos, cercadas de gente grande que tinha medo das suas baionetas e pelas costas os chamavam os burros sustentados por doentes mentais e corruptos. Eis as suas obras, recebam suas homenagens! Corrupção em larga escala, em todos os níveis e modos, genocídios indigenas, atentados terroristas, desemprego, desamparo, falta de teto e pão para a multidão, para uma minoria privilégios, os puxa-sacos que por lamberem os rabos daqueles seus nobres sócios, se punham com o rei na barriga e dá-lhe espora nos de baixo! Parabéns por forjarem esta corporação de homens tolos, cheios de ódio à inteligência que tentam perpetuar sua obra monstruosa, esta máquina simbólica de gerar estupidez que ainda cospe cretinos. Esta obra lhes pertence, não olhem para o outro lado, recebam os seus troféus. Este bando de ruminadores que desprezam história, filosofia, política, mas acreditam em qualquer coisa que lhes diga a tv, são seus, são todos seus, este pelotão de velhos, mesmo jovens, a repetir qualquer lorota que lhes diga qualquer mau caráter que consiga alinhavar palavras fáceis e aduladoras ao seus recalques infantis, é seu, os leve pra casa, e estes também, que se julgam os reis do trololó porque como os seus patrões mandaram, juram que dizer yes e yes, sir sem sotaque e com empáfia,  é o cúmulo da sapiência, são crias suas também, levem pra casa e bom proveito.

São obras suas estas dívidas, esta diversidade de dívidas que pagamos até hoje, assim como pagamos o preço de suas negações e mentiras, porque nem a hombridade de confessar seus crimes estes covardes tiveram. Além de todos os erros deixaram aos que vieram toda a corja que os cercava, todos os abutres que engordaram, deixaram nos chantageando para não berrarmos que era preciso julgá-los, como os outros foram julgados e presos foram e penas cumpriram. Não. Não foi possível julgá-los ou aos seus nobres sócios e saber porque dispensaram do julgamento aquela enormidade de gente. Para melhor executá-los e, fria e covardemente, perseguir quem os amava? Se foram em cinismo mudo e deixaram a mordaça, se foram sem limpar a sujeira que fizeram -os ocultadores de cadáveres- direto para seus lares, sem confessar quantos dedos deceparam para ocultar digitais, sem explicar que derretiam corpos porque nem o sagrado direito dos pais enterrarem seus filhos quiseram ceder a seus conterrâneos. Em algum momento, será que avisaram a seus vizinhos que eram incapazes de ter sentimentos humanitários por quem discordasse de suas ideias?

Espero que findo este ano e os trabalhos de passar a limpo nossa História, possamos dizer adeus a estas criaturas tristes que não valem nem mais uma lágrima. Adeus, facínoras, vão tarde. Que seus nomes sirvam de fardo aos seus, guardaremos apenas os daqueles cujas feitos de bestialidade ajudem-nos a lembrar que a brutalidade feita o Estado faz nascer homens que parecem monstros, demiurgos do desespero, a completa representação da loucura. Os anos tristes que nos impuseram podem ser resumidos no alerta que deixamos aos que não os conheceram:
A Ditadura brasileira fez prosperar os canalhas, fortaleceu nossos piores traços, usina de crimes de todo tipo, deixou rastros de sangue e apodreceu tudo que tocou e infectou. Deixou-nos ainda a tarefa de enterrar, a ela e seus feitos horripilantes, para sempre.

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Categorias: Sociedade | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Adeus, tristes

  1. Lourdes Campos

    Muito bom ler algo assim, com tantos adjetivos certeiros com todo esse cheiro acre e azedo na medida certa…Deu vontade de ouvir isto num palco…seria uma boa catarse.

  2. Adjetivos não são a classe de palavras que mais me agradam, você sabe Lourdes, mas há momentos e assuntos que merecem. bjs.

  3. Pingback: Ocupar a memória para não esquecer a nossa história | Dando Nota

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