Vistam-se, mulheres!

Nana Queiroz, jornalista e organizadora da campanha "Não mereço ser estuprada"

Nana Queiroz, jornalista e organizadora da campanha “Não mereço ser estuprada”

Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser estupradas. E se elas soubessem se comportar, haveria menos estupros. Os homens devem ser a cabeça do lar e os casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família. Afinal, em briga de marido e mulher, não se mete a colher e a roupa suja deve ser lavada em casa, pois o que acontece com o casal em casa não interessa aos outros. Ela que se dê por satisfeita em realizar o sonho de toda mulher: casar-se.

Por incrível que pareça, o parágrafo anterior deverá fazer bastante sucesso. Todas as suas frases foram retiradas da pesquisa do Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS/IPEA) cujo tema era “Tolerância social à violência contra as mulheres”. O detalhe é que as sentenças selecionadas retratam a opinião da maioria dos entrevistados.

Vivemos em uma sociedade conservadora, cujos valores morais e sociais ainda se atrelam a modelos atávicos, muitas vezes ditados por religiões e tradições que em nada se adequaram a novos tempos. Pelo contrário, buscam impor ideias limitadoras das liberdades individuais e a diminuição do papel social das mulheres, imputando-lhes a culpa que, desde a gênese da crença, recai sobre elas.

Por isso, aceita-se que os homens não controlem sua voracidade sexual e as mulheres, que “provocam mostrando o corpo”, “não sabendo se comportar em sociedade”, mereçam o estupro. Assim, poderão aprender a se comportar, segundo essa psicótica visão dos fatos. A pesquisa chama atenção para o fato de que “católicos têm chance 1,4 vez maior de concordarem total ou parcialmente com essa afirmação, e evangélicos 1,5 vez maior.”

É isso que se ensina aos filhos no seio das famílias constituídas por “pessoas de bem”? É essa a mensagem de amor ao próximo que se constrói às custas das incontáveis doações de fiéis e isenções fiscais? É evidente que não apenas os religiosos – em especial aqueles das duas seitas cristãs citadas – concordam com tais absurdos, o pensamento machista vive igualmente em espíritas, umbandistas, candomblecistas, budistas, judeus, muçulmanos, agnósticos ou ateus. A democracia brasileira só encontra pluralidade plena em seus preconceitos.

Mas não há dúvida ser a visão conservadora de constituição da sociedade – a família encabeçada pelo homem – que permite o florescimento deste tipo de ideia. E como os pensamentos retrógrados não costumam sair sozinhos pelas ruas, trazem todo o tipo de preconceito social, racial e sexual consigo.

Sim, as coisas são interligadas. Culpar a vítima é não enxergar o problema. Isso vai do estupro ao assassinato, do roubo às agressões. Contra tudo, mais violência contra os inimigos estabelecidos, já que as “pessoas de bem” não se comportam assim. Desta forma tudo vale contra quem não é igual. O homossexual que sofre agressão homofóbica ouve: “ora, agarrando-se ou desmunhecando no meio da rua, queria o quê”? O pobre, independentemente da ação, é suspeito ao entrar no shopping ou no ônibus. E o que dizer do negro que vem do outro lado da rua à noite? Não é por conta da hora ou o lugar errado. No Brasil, a razão é ter a cor errada.

Fechem os vidros. Atravessem a rua. Alonguem as saias (ou vistam uma calça). Levem os meninos ao puteiro. Celebremos a hipocrisia. A culpa? Sempre haverá quem diga que é do governo. E de mais ninguém. Uma entidade amorfa que deveria resolver todos os problemas. E que não resolve. Críticas. E se tentar resolver, mais críticas. É mais simples culpar qualquer sigla que admitir a falência moral de quem defende e ostenta sua falsa moral. E contra as siglas, urnas e tudo o mais que envolve a democracia, os tanques militares. Eternos guardiões cívicos das virtudes sociais.

Houve quem comemorasse a pequeníssima adesão às marchas com deus pela família (e pela propriedade, obviamente), mas não há o que festejar. Quem é hegemônico no pensamento social não precisa manifestar-se. Eles já têm a imprensa e outros meios infalíveis de controle ideológico. A prova disso são os resultados dessas pesquisas.

Diante de resultados constrangedores, a reação surge nas redes sociais e enfrenta a estupidez do pensamento conservador. A organizadora da campanha “Não mereço ser estuprada” – mobilização impensável (ou dispensável) em uma sociedade minimamente decente – sofreu ameaças e “votos” de estupro e de outras agressões provenientes tanto de homens quanto de mulheres. O mínimo que se espera de alguém de bom senso ao ver essa situação é a revolta.

Enquanto houver vozes defendendo a execução de pessoas, cerceando direitos, impedindo igualdades, impondo privilégios, escravizando almas, adiando conquistas, manipulando informações, escondendo intenções e comandando veladamente a sociedade, as ruas não serão lugares tranquilos. Mulheres, vistam-se de luta. Operários e excluídos, uni-vos. Temos um mundo a tomar.

O link da pesquisa: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/140327_sips_violencia_mulheres.pdf

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Categorias: Sociedade | 5 Comentários

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5 opiniões sobre “Vistam-se, mulheres!

  1. “A democracia brasileira só encontra pluralidade plena em seus preconceitos.” Resumiu em uma frase um fato tão inerente a nossa sociedade. Gostei do texto. Mais uma vez.

  2. Alexandre Bollmann

    Amigo Walace, mais um texto brilhante. No entanto, gostaria de ponderar sobre um dos dados da dita pesquisa. Apesar de não ficar dizendo isso toda a hora, apenas por não julgar necessário, sou católico praticante, já tendo participado de diversas formas dentro da Igreja, e penso que essa pesquisa tenha tomado por base os chamados “católicos do IBGE” que, infelizmente, são maioria. São pessoas que se dizem católicos, mas que não possuem uma prática de vida coerente com a fé, a qual não vivenciam, mas dizem professar. Qualquer forma de cristianismo que se pretenda séria deve se colocar frontalmente contrária às práticas violentas e criminosas, sobretudo no que se refere aos crimes contra a dignidade sexual. Jesus ensina que o bem feito a alguém , sobretudo àqueles que mais sofrem, é também feito a ele próprio. E a mesma coisa acontece com o mal. Trabalho no Poder Judiciário e os crimes sexuais são muito mais comuns que as pessoas imaginam e tem um potencial destruidor imenso sobre a subjetividade e a saúde psíquica de suas vítimas (isso quando não decorrem também graves consequências físicas). São crimes realmente abjetos. Concordo plenamente quando se diz que a banalização de tais crimes é consequência de uma cultura machista da sociedade. E também aí vejo uma incompatibilidade entre religião e cultura. A despeito de discussões científicas sobre a origem humana, considero o livro de Gênesis muito interessante do ponto de vista alegórico e observo que, se por um lado, o homem teria sido criado primeiro, por outro, a mulher é criada a partir de um osso da costela, retirado de perto do coração do homem. Veja, nem osso da cabeça (para que não estivesse sobre ele), nem do pé (para que não estivesse abaixo), mas da costela, para que caminhassem lado a lado. Desculpe-me pela digressão teológica, mas estou de saco cheio de pessoas que se dizem católicos, só falam e fazem m…, e depois quem tenta ser coerente é que tem de aturar essas estatísticas e generalizações.

    Abraço, Alexandre Bollmann.

  3. Concordo totalmente com sua análise real, Walace. Já escrevi artigos semelhantes sobre essas questões, que muito me tocam.

  4. Sabe Walace, aqui na praia do Rosa, onde moro, as mulheres anda muito de roupas curtas, as mais novas (até os 35 anos) dentre as nativas. As velhas andam com vestidos leves no verão e vc vê muitas sem sutien, com os seios de índias bem desenhados em um pano fino, e elas têm 60, 70 anos. As migrantes – gaúchas, paulistas, cariocas, argentinas, uruguaias – andam de tudo quanto é jeito, de saia curta, de abrigo e meias com chinelos. É um lugar pequeno e os homens respeitam muito e tudo o que acontece toda a comunidade fica sabendo. Não é que não sejam machistas, mas eu acho que as grandes cidades têm um perfil diferente dos pequenos lugares. E acho que se fizessem a pesquisa aqui, acabaria dando um resultado parecido. Eu não gostei dessa pesquisa, ela pode ter sido induzida para gerar um tema predominante no FB e na web brasileira, na véspera da data do golpe militar. As mulheres são muito agredidas no Brasil, sem dúvida, mas existem vários cenários e a coisa não é tão estanque. O teu texto está emocionante e a atitude de muitos homens na web também. Mas o número de comunidades onde a mulher pode se vestir de um modo mais livre é bem grande, no Brasil. Os estupros são de vários padrões, os caras psicopatas que atacam mulheres e meninas nas ruas, nos cantos escuros e em sequestros, estupram e matam são um tipo que os presidiários matam na cadeia, até onde eu sei. Mas a faixa de homens que molestam meninas e meninos dentro dos lares, e são os próprios pais, tios, irmãos, vizinhos, é enorme, assustadora mesmo. Então, o resultado da estatística é distorcido, porque toda a população brasileira conhece relatos dos casos dentro dos lares e das famílias e todos fingem que aquilo não aconteceu, ou que era mentira da menina ou do menino. E são essas pessoas que, em tese, responderam ao questionário. E, é óbvio, não importa a roupa que a menina, ou o menino estão em casa. Então essa pesquisa evidentemente foi distorcida. A maioria da população brasileira sabe que o estuprador ataca preferencialmente crianças. Essa estatística diminui a dignidade da população brasileira e coloca a grande maioria como perversa e má, ou adepta de fundamentalismos tacanhos. Não vou partir da estatística para falar sobre isso. As mulheres andam bem despidas por aqui e nossos homens são respeitosos, embora machistas. E é uma comunidade de analfabetos funcionais, ou analfabetos integralmente. Aqui os estupros são no meio dos turistas bêbados e drogados, nas festas em danceterias. E estes são universitários. Abração.

  5. Grasi Taís Aragão

    E o que dizer sobre:

    De 3.810 pessoas entrevistadas, 2.476 pessoas aceitam que “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e como explicar que 66% de 2.476 eram mulheres?

    Preconceito, Religião… ?! Não importa, o importante é que essa mentalidade não é propriamente do homem… É a mentalidade de uma sociedade conservadora e hipócrita. Porque em 2011, mais da metade das vítimas tinha menos de 13 anos de idade e 15% dos estupros foram cometidos por dois ou mais agressores.

    O agressor não vê se é criança, se é mulher já feita… Mulheres são estupradas em lugares em que a burca é obrigatória. Mulheres são estupradas antes mesmo de se tornar mulheres. Mulheres são estupradas de calça jeans. Mulheres religiosas são estupradas. Freiras são estupradas. Mães são estupradas. Donas de casa são estupradas.

    O Brasil precisa crescer e muto!!!

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