Culpabilização da vítima: um denominador comum

 *por Andressa Maxnuck  

Imagem Andressa

Recente pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) cunhou, em bases estatísticas, uma problemática amplamente conhecida, em bases empíricas, pelas mulheres brasileiras: a tolerância social à violência contra mulheres e a sua culpabilização por esse tipo de agressão. De acordo com a pesquisa, imperativos como “Se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros” e “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” são aceitos, no todo ou em parte, por número expressivo de brasileiros em 2014. Trata-se, portanto, de discurso que identifica a vítima como provocadora da agressão que sofre e que posiciona o agressor como sujeito que age guiado por motivação involuntária – e, como corolário, inimputável. Não é outra a mensagem transmitida pelos 58% dos entrevistados, ao afirmarem que concordam totalmente com a afirmação de que a mulher só é vítima de agressão sexual por não se comportar de maneira adequada: a culpabilização feminina pela violência sexual de que é objeto. Sob essa lógica, as mulheres – ensejadoras de sua própria agressão – é que deveriam saber se comportar, não os estupradores, uma vez que os homens são incapazes de – e tampouco responsáveis por – controlar seus apetites sexuais. A violência configuraria um corretivo: a mulher mereceu ser estuprada, uma vez que não impôs barreiras ao homem para que não acessasse seu corpo. A temática da violência sexual feminina foi abordada recentemente pelo longa-metragem Cairo 678, do diretor egípcio Mohamed Diab

Baseado em historias verídicas que são parte da realidade urbana e social do Egito, o filme desenvolve os casos de três mulheres, de distintas formações e classes sociais, que foram vítimas de abuso sexual. Uma das personagens, Fayza, é bolinada diariamente no coletivo que toma a caminho do trabalho (o 678, que dá título ao filme), sendo acusada de histérica por revoltar-se contra as agressões que sofre correntemente. Seba, outra personagem, também não escapou ao abuso, a despeito de sua superior condição econômica: foi violada durante a comemoração da vitória da seleção egípcia de futebol, no meio da multidão, sem que o marido a pudesse defender. Nelly, a terceira delas, foi vítima do ataque de um homem, testemunhado por sua mãe, e, embora intente realizar uma inédita denúncia por assédio sexual, é desencorajada a levar o processo adiante todo o tempo, seja por seus convivas, seja pelas autoridades que a deveriam proteger. Nota-se, nos três casos, que a vergonha pelo ataque recai sobre as vítimas, mais do que sobre os agressores.

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Igual situação foi noticiada há poucos meses na Arábia Saudita. Em sondagem do Centro para o Diálogo Nacional do Rei Abdulaziz, foi registrado que 86,5% dos homens creem que o fato de as mulheres utilizarem rímel em excesso é uma das causas do aumento dos casos de assédio sexual em locais públicos naquele país. Registre-se que o rosto – e em geral apenas os olhos – é a única parte do corpo que as mulheres sauditas podem mostrar em público. Questiona-se, nesse sentido, a validade do argumento dos respondentes brasileiros quanto à provocação ao estupro tendo por instrumento as vestimentas usadas pela mulher – ou, no mínimo, o relativismo cultural a respeito de comportamento feminino inadequado.

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Outro caso de agressão sexual à mulher, levado a extremos de gravidade e de crueldade, foi divulgado na Índia em janeiro deste ano: uma mulher sofreu um estupro coletivo, como punição determinada pelo conselho tribal de seu povoado, sob a acusação de ter se relacionado com um homem de outra tribo. Autoridades policiais afirmaram que, após a descoberta da relação entre a moça oriunda da tribo santhal com um muçulmano, o casal foi amarrado a duas árvores diferentes. Uma reunião do conselho tribal determinou aos cônjuges o pagamento de 25 mil rúpias (R$960) como pena. Como os pais da jovem não podiam arcar com os custos da sanção, foi-lhe imputado seu estupro por 13 homens do povoado. A mulher se recupera do ataque em um hospital.

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Esse breve exercício de identificação de similitudes entre países tão distantes geograficamente e no todo variados em relação a construções histórias e costumes revela uma impressionante paridade: seja no Brasil, no Egito, na Arábia Saudita ou na Índia, a culpabilização da vítima de violência sexual é um denominador comum. Embora se vistam de formas distintas e possuam variáveis liberdades – econômicas, políticas, sociais – em cada um desses países, as mulheres são, de modo contumaz, reconhecidas como as ensejadoras das agressões sexuais a que são submetidas. Trata-se de reflexo da preponderância do ordenamento patriarcal em nossa sociedade, corroborado na desvalorização de todas as características ligadas ao feminino e na falta de reconhecimento da mulher como sujeito de direitos.

Pesquisa IPEA – Tolerância Social à Violência contra as Mulheres:

http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/140327_sips_violencia_mulheres.pdf

Matéria da Carta Capital sobre a pesquisa brasileira:

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/para-o-brasileiro-se-a-mulher-soubesse-se-comportar-haveria-menos-estupros-2334.html

Artigo da Veja legitimando a violência sexual no Brasil:

http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2014/03/28/a-culpa-do-estupro-nao-e-da-mulher-mas-a-da-confusao-e-da-pesquisa-do-ipea-essa-sim-merece-ser-atacada/

Crítica ao longa-metragem Cairo 678:

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-193512/criticas-adorocinema/

Notícia sobre pesquisa na Arábia Saudita:

http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=3622664&seccao=M%E9dio+Oriente

Notícia sobre estupro coletivo na Índia:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/01/1401657-mulher-sofre-estupro-coletivo-apos-ser-condenada-por-tribo-na-india.shtml

ANDRESSA

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos.

*Nossa convidada Andressa Maxnuck:

“Andressa Maxnuck acredita na transitoriedade e na impermanência. Desse modo, pensa que faz mais sentido apresentar-se como um work in progress do que como uma obra estática. Feita a ressalva, elege como metodologia a caracterização em 3 tempos – futuro do pretérito, pretérito perfeito e presente (sem o preciosismo de pontuá-los com marcos iniciais e termos finais e sempre tendendo as locuções verbais ao gerúndio).

Queria ser diplomata, spalla de uma orquestra, bailarina de dança contemporânea e geógrafa. Queria saber dançar tango, cozinhar (com maestria ou, ao menos, de modo palatável), pintar quadros, fazer paradas-de-mão, falar 10 idiomas, escalar e ler 4 livros por semana.

Já foi advogada, grunge, porta-estandarte de bloco sem autorização para desfilar, voluntária em organização internacional, intérprete da equipe de produção do CSI Miami, moradora das Filipinas, o último lugar no campeonato de natação da faculdade e quase sempre o personagem masculino nas peças de teatro compulsórias do colégio. Já soube jogar volley, dropar de roller, tocar pandeiro e falar francês com mais fluência.

Vem sendo acrobata amadora, servidora pública, aprendiz de budismo tibetano, foliã de carnaval inveterada, fã do Queen e do Secos e Molhados, leitora de escritores latino-americanos, anti-sexista, apreciadora de sabores exóticos, amante de viagens para lugares inóspitos e prolixa. Vem sabendo muito pouco.”

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5 opiniões sobre “Culpabilização da vítima: um denominador comum

  1. Entendo perfeitamente. Bastante violento, um silenciamento sem direito a adeus; na verdade um medo enorme. Compreendo. De qualquer forma, foi um prazer, uma grande aprendizagem, um momento de grande crescimento para mim. Realmente, alguns amigos iniciaram comentários de que o debate sobre a classe média mostrava um desentendimento, eu achei que poderia ser assim mesmo, uma reunião de falas diferentes. Um pouco cômico este final…risos…meio monty piton…um desespero assustado e abrupto. Nos encontramos por aí, então. Boa sorte cariocas queridos. Sucesso!

  2. Roberta

    Vem sendo amiga e acima de tudo um denominador incomum!
    Muito orgulho! Te adoro por todos esses seres que compõe a sua unicidade humana! Bjão, beta

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