Malditos favelados: a gênese do filho da puta!

11 de abril, 4 da matina. A indecência da tal “Favela da Telerj”- afe, lembrar desse cacareco estatal- acabou. Retornemos aa paz  e aos tormentos de nosso dia a dia. Há problemas realmente sérios e muito maiores nesse país que podem- eles sim- afetar o bem estar do cidadão de bem que contribui com impostos escorchantes. Mais uma favela, mais tráfico, mais bandidagem, desvalorização de nosso suado pedacinho de chão conseguido com mérito e honestidade de quem trabalha e rala, só pra dar um teto aa sua família. Um projeto de decência ao alcance de todos. Por que alguns optam pelo roubo, pela vadiagem, por quebrar as regras e querer pular etapas? Estamos livres, enfim, daquele antro horroroso, fétido e podre, podridão em todos os estágios e formas imagináveis. Favelados, ora. A gente mais asquerosa a se ter por vizinho. Sejamos francos, sem hipocrisia ou direitinho humanoide, quem quer uma favela imunda na vizinhança? E os tiros? E os traficantes? E as drogas? E nossas famílias? Quem as vai defender? Uma favela hoje, uma UPP amanhã! Por que essa gente miserável, vendo a vidinha desgraçada que tem, não toma noção e para de ter filhos? Só aumentando o potencial exército do tráfico! Hoje, o 7º filhinho, amanhã chiclete no sinal, um pouco depois trombadinha, pivete, bandidinho! Redução da maioridade penal e um monte de blablabla contra. Estudar, batalhar na vida… ninguém quer. Só peixinho na mão. Bolsa família: fábrica de bandidos! “Mais filhos no mundo! Já há quem os sustente.”.  E não me venham dizer que o favelado é como nós. Não, não e muito não! Em nenhum sentido. A assimetria das casas tão torta quanto suas vidas! Tudo errado. Até estética de cinema isso já virou. É cada vez mais difícil ser de bem nesse país: um triunfo destemido a cada dia, heróis de nós mesmos.

—————————————————————————————————————————————————–

09 de outubro, 1897.

“Enfim, arrasada a cidadela maldita! Enfim, dominado o antro negro, cavado no centro do adusto sertão, onde o Profeta das longas barbas sujas concentrava a sua força diabólica, feita de fé e de patifaria, alimentada pela superstição e pela rapinagem!”

Olavo BILAC. Cidadela Maldita. Estado de São Paulo, 09/10/1897.

Sobre os mesmos acontecimentos (a chacina promovida pelo exército republicano),

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram qua­tro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados… ”

Euclides da CUNHA, Os Sertões, capítulo A luta, publicado em 1902.

——————————————————————————————————————————————————-

Sempre parece haver a visão do escroque e, por vezes, uma minimamente humana a qual, aas vezes, consegue algum espaço de divulgação (no caso do Euclides, até uma senhora divulgação, infrequente até). Seja em Canudos, seja na Favela da Telerj, a história é sempre da petulância do pobre em ousar estar num espaço em que não deveria. Bilac “Príncipe e Playboy dos Poetas”, positivista de cinco costados, sempre esteve ao lado do discurso do poder, de elite, neorrepublicano, positivista, “Ordem e Progresso” aos extremos. A ele, devemos o serviço militar obrigatório. Obrigado, Bilac! Euclides, jornalista do Estado de São Paulo, enviado aa zona de conflito, era um homem falho- como a própria história de sua vida comprovou-. Porém, capaz de vivenciar, pela sensibilidade, o quanto de vida autêntica estava em jogo em Canudos. Não se trata de se Euclides era melhor do que Bilac e em qual aspecto. Trata-se de um ter sido fdp e o outro não.

Há duas semanas, houve um ato em homenagem aa Ocupação Manuel Congo, na Cinelândia, em seus heroicos 6 anos de resistência e de luta cotidiana. Esse ato foi realizado pelo mandato Renato Cinco, em plena escadaria da Câmara de Vereadores, uma vez que o plenário, em ato semi-inédito, recusou o requerimento para entrega de Medalha Pedro Ernesto pela Câmara. Escandaloso, mas não surpreendente. É lógico demais. Como os vereadores que sustentam todo o esquema fisiologíssimo da Olímpica & Imobiliária Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro S.A. poderiam reconhecer mérito numa ocupação? Como diria Justo, que ao menos era, de fato, Veríssimo: “Pobre que se exploda!” Na cidade-sede da bolha imobiliária em expansão, em que a especulação é lei divina, não faz sentido permitir ocupações. Ordem e Progresso neles! Pezão neles, com patrocínio, apoio e divulgação de Eduardo Guerra & Paes ®. “Vai ser pobre bem longe daqui!”.

manuel congo

Se se pudesse, em termos de opinião social, exterminar a pobreza matando-se os pobres, isso seria feito. Se se pudesse armazenar quem nas favelas vive ou quem precisa ocupar terra e imóvel, apenas pelo direito de sonhar em ser humano, em cavernas subterrâneas, se faria isso. A pobreza do trabalhador só deve ter, pela lógica de nossa sociedade, uma vazão: justificar cada vez mais riqueza doutros os quais não querem ver, a menos que pintados de ouro, aqueles que lhe originam e justificam a riqueza. Não há condição divina em se ser rico ou pobre. Há a nossa sociedade cruel e devastadora de gente.

Favela nem existe mais, ora. É “Comunidade”, agora. Favela é feio. Favela era aquela coisa romântica, de paz do mundo lírico de Cartola. Mas, aquilo nunca existiu. Desde os primeiros processos de perifização no Rio de Janeiro, remontando aa chegada da falsária família dita real, com seu selo de despejo “PR”, passando, um século depois, pela derrubada de mais de 600 estabelecimentos no Centro da Cidade no governo Pereira Passos, além da implosão do Morro do Castelo, que serviu pra muito aterramento na Zona Sul, é assim que esta cidade trata, há 200 anos ininterruptos, a pobreza: pondo-a pra longe, da vista, dos negócios, da circulação das “famílias de bem”. Por essa lógica, pobre não deveria existir mesmo- ainda que seja a sua pobreza que gera a condição supostamente  natural e divina em que tantos se veem.

Enquanto isso, o sonho de quantos é enriquecer, em lugar dum mundo justo e equilibrado? Quantos leitores, mesmo críticos, neste trecho agora lido, passam a desdenhar dessa opinião, tomada como ridícula, inclusive e, talvez, sobretudo?

A favela, ops, comunidade… é uma concessão, desde que se mantenha em seu devido lugar. Quando se desejar se pode até ir a ela, despojar-se em seu entretenimento alternativo vário. E, claro, de tempos em tempos, há de se demonstrar, aos favelados, os quase-ninguém que eles são: achaque, violência oficial e, óbvio, extermínio pra conter essa massa.

favela

“E que não se leve a favela ao asfalto, por favor! Sem funk perto de nós, esse ritmo suado, preto, pobre, ignorante  e fedido Se o quisermos o procuraremos, quando nos interessar.”. Tudo aquilo o que lembra preto e pobre vale quase nada como vida humana e perspectiva de dignidade.

favela 2

Zoo humano a céu aberto. Enojantemente.

A Favela da Telerj é resultado direto do Rio Surreal de que tantos se queixam- desconfio que muitos até com beicinho e tudo. O mundo é feito de seres de carne e osso, com realidades e necessidades muito concretas, inclusive, muito mais sólidas do que daqueles que talvez não saibam o que é necessidade de verdade. Ninguém vai pra favela porque quer ser vítima de abuso policial ou mal visto. É a outra face do Rio-Cartão Postal, seu outro lado da moeda. Não há como dar coroa sempre. Uma hora, isso acaba e vai dar cara na cara cínica de muitos. A favela tem que acabar sim, mas para não ser mais, no pensamento dos supostos donos da cidade, depósito do que se vê como desprezível e descartável lixo humano.

Na Favela da Telerj, talvez houvesse “gente de mal”. Mas, por detrás das máscaras da hipocrisia do “bem”  há muito mais.  Os moradores denunciam um nível de brutalidade abismal. Fácil de acreditar. Muito. E não falo do lugar dum escrevinhador que julga isso de longe apenas. Já participei de ocupação. Sei que, longe das câmeras, as balas saem da mundo da ficção, não importando idosos ou crianças. É a lei do desvalor da vida. Como o reles chão tem valor!

Perigosos ocupantes da Favela da Telerj.

Perigosos ocupantes da Favela da Telerj.

Não há idealização de visão idílica de Rio de Janeiro que compense ou justifique isso. Esta cidade é tenebrosa! Maravilhosa, sem poréns, só a quem é muito cínico, inocente útil necessariamente imbecilizado ou filho da puta! Que me possam perdoar as putas.

Anúncios
Categorias: Sociedade | Tags: , , , , , , , , | 8 Comentários

Navegação de Posts

8 opiniões sobre “Malditos favelados: a gênese do filho da puta!

  1. Márcia Alves

    Muito bom! Estou emocionada, obrigada por me ajudar a tirar o nó da garganta e o aperto do peito! Muito triste acompanhar daqui esse processo e não poder ajudar com as próprias mãos! Ver a extrema direita crescer não só no Brasil e ter uma classe media como porta voz é devastador! Mas que nunca precisamos de poesia na alma e a certeza da luta para barrar as atrocidades humanas! Muito obrigada Meu querido !

    • adam

      DEixa de ser burra mulé, que extrema direita o carai, no Brasil só há esquerda, esquerda da esquerda, centro da esquerda, direita da esquerda, extrema esquerda etc, vai estudar burrinha, tu não sabe o que é direita, vai pesquisar vai,

  2. Cristiane

    Bravo!
    Lindo texto Aderson .Parabéns.

  3. ismael

    Excelente texto! Pena que a extrema-direita segue seu crescimento com o auxílio de uma classe média burra, como diz a outra leitora! Parabéns!

  4. Pingback: Da Lei Áurea ao racismo cordial (Cordial pra quem?) | transversos

  5. Pingback: Rio, feliz 2016! 450 anos paespalhando desigualdade, agora com um presente de grego. | transversos

  6. Pingback: Da Lei Áurea ao racismo cordial (Cordial pra quem?) | FeminAGEM

  7. Sergio

    “Vem morar na favela. Aqui o estado é mínimo”
    ERRADO. O que é mínimo são as benesses do Estado (que são destinadas aos próprios políticos e seus apadrinhados), bem diferente. Se o estado realmente fosse mínimo, haveria livre comércio, empreendimento, iniciativa privada gerando serviços livremente e gerando empregos e renda para a população.

    É justamente por causa do estado que o Brasil é a merda que é, com as suas favelas e sua população analfabeta, mas claro, de alguma forma vocês dão um jeito de sugerir que a culpa é do livre mercado, mesmo sendo essa a 118a economia mais livre do mundo. Façam-me o favor, seus idiotas úteis.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: