Desocupem a ideologia

Saiam de meu terreno em que não quero nada fazer. (foto: uol.com.br)

Saiam de meu terreno em que não quero nada fazer. (foto: uol.com.br)

Era mais uma manhã. A cidade olímpica mal amanhecia e já se comprometia a reafirmar quem pode ou não fazer parte de seu projeto. Excluídos de todas as décadas, de todos os governos, de todas as economias deviam ser excluídos também de sua ousadia: tentar ocupar um terreno abandonado há vinte anos.

A violência policial de praxe já não assustava mais. Afinal, eram pobres, pretos, vândalos, gente que nunca trabalhou e que queria receber de graça o que outros levaram a vida de suor para conquistar. E o pior da notícia era o trânsito. Por conta daquele bando de vagabundos não se conseguia da emergente Barra chegar-se ao centro da cidade. Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego, disse Chico em outros tempos.

A cidade não tem espaço para todos. Só alguns eleitos devem nela ficar. Não importa a que preço. Pinheirinho, Telerj, não faz diferença o nome ou o lugar, a política é a mesma. Ideologicamente – o mais triste – é perceber o apoio de setores da sociedade às ações, justificando-as pelos mais absurdos e medievais argumentos. É de se perder por completo a esperança na humanidade.

Quando o direito à propriedade sobrepõe-se ao direito à vida, percebe-se que a sociedade jamais será verdadeiramente humana. Qualquer justificativa para a defesa da propriedade advém da importância descabida do “ter” como consequência meritocrática de uma vida individual, dissociada de qualquer processo histórico necessário a sua construção.

E é assim que a população marginalizada torna-se vagabunda e aproveitadora. Querem ganhar uma casa sem esforço, viver com bolsa-família sem trabalho, enquanto quem produz sustenta com os impostos essa corja. Apesar de ouvir com frequência essa manifestação raivosa de preconceito, ainda não conheci nem um indivíduo sequer que quisesse trocar de vida com esses “aproveitadores”.

Casa própria, bolsa-família e uns biscatezinhos de vez em quando. Por que será que ninguém quer largar as oito horas de trabalho incessante, uma vida de economias e prestações para adquirir a casa própria para usufruir dessas maravilhosas benesses ofertadas pelos governos? Ora, hipocrisia, faça-me um favor!

Ninguém vai para uma ocupação, sujeitando-se aos perigos que a envolvem para virar um empresário do aluguel social. Só o trabalho de preparar um terreno alagado e sujo, com exíguos recursos existentes e construir um pequeno barraco inseguro para viver já não demonstra a tal veia empresarial.

Ainda que existam os aproveitadores – sim eles estão por toda a parte, apesar de mais frequentemente trajarem ternos – há inúmeros meios simples que a burocracia do estado pode impor para garantir o atendimento a quem precisa e evitar qualquer tipo de especulação com terrenos ou casas fruto de ações sociais.

Aqueles que colocam a lei como justificativa para condenar uma invasão – afinal, ninguém pode tomar o que é dos outros não é? – leem somente os artigos que lhe interessam. Afinal, não é a própria Constituição Federal que, em seu artigo quinto, inciso XXII afirma que “a propriedade atenderá sua função social”? Ora, em que medida um prédio (outrora público, pertencente à companhia de telefone do estado do Rio de Janeiro) abandonado há vinte anos cumpria sua função social? Por que a prefeitura não cobrou da Oi sua obrigação de manter ativo e dentro do plano diretor da cidade o terreno que avoca como sua propriedade?

Mas nunca vemos a mesma gente de sempre criticar quem lhe está acima. Entretanto, construir casas para ceder aos pobres? Que absurdo. Curioso, porque governos estaduais e municipais sucedem-se na doação de terrenos para clubes de futebol, empresas, eventos religiosos entre outros. Nesse caso, é estímulo à economia. Casa para pobre é prêmio para vagabundo.

Gastar 26 milhões no terreno alagado (à toa, pois não se conseguiu fazer a obra e o evento foi transferido de lugar) para a Igreja Católica utilizar na Jornada Mundial da Juventude é justo. Desapropriar um terreno abandonado, com base em princípios constitucionais não é. Realmente chegamos a um ponto em que as pessoas nem sabem mais o que defendem, além de seus próprios interesses e contra qualquer direito de quem não deveria fazer parte de sua sociedade.

Esperemos agora, com o terreno desocupado, o projeto de utilização do espaço pela Oi. Será mais uma escola “privado-público” que realiza com o governo estadual do Rio? Será um espaço lounge? Provavelmente não, pois o bairro suburbano não possui perfil para sofisticações. Sendo assim, ele continuará abandonado. Mas com um dono ativo, que quer ver de perto seu pedacinho de nada não render fruto algum.

Contra os inimigos (inclusive os de classe), a lei. A seu favor, nem a lei. Ainda que o belo artigo sexto de nossa constituição elenque os básicos direitos: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.”

A lei, contudo não é para todos. É apenas para os eleitos. Para quem move o país, paga impostos e sustenta a nação. Direitos para quem é direito. Para as pessoas de bens. Triste saber que essa gente educa seus filhos nessa cartilha. Nada é mais improdutivo que o coração daqueles miseráveis que nada têm além de dinheiro.

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Desocupem a ideologia

  1. Alexandre Bollmann

    Hannah Arendt questionava (por outras razões) que sociedade é essa que nem todos tem direito a ter direitos. Enquanto a OI continua fazendo o que quer, violando item do Código de Defesa do Consumidor e sendo condenado a pagar indenizações irrisórias, que saem mais barato do que investir num serviço de melhor qualidade, aproveitadores são os que ocupam um terreno desocupado paara poderem habitar! Seria cômico se não fosse trágico!

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