Des(ocupa) geral!

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*por Mariângela Marques

Aquele carro estava queimado, completamente destruído pelas chamas que haviam se apagado em algum momento de sua humilde existência enquanto trabalho humano materializado e subsumido pelo fetiche de um veículo automotor, mas, ainda assim, foi um ato de vandalismo depredar o que já estava depredado.

(Aqui caberia uma foto que, infelizmente, não se encontra mais facilmente porque, provavelmente, pegou mal o infeliz comentário do dito cujo que chamou de vândalo quem vandalizou o carro já vandalizado).

Aquele prédio estava vazio, sem nenhuma utilidade “público-privada”, e podia servir de moradia para uma mísera (porque é miserável, pobre mesmo!) porcentagem da população fluminense e/ ou carioca que não tem teto para se proteger dos momentos em que “está chuviscando” (aproveitando-me do cenário do Rio de Janeiro e sua linguagem própria para fazer valer sua cultura popular), mas sua pretensa invasão, já que este fato nunca será tratado como ocupação para os olhares atentos dos moralistas de plantão, foi um ato de vandalismo.

E aquele morador que, cedinho, quando foi questionado pelo repórter global, mostrou os cartuchos de pistola e cilindros vazios das bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral e reclamou da incursão policial [porque até mesmo para este simples trabalhador, policial militar não invade, ele ocupa para restabelecer a (des)ordem] reclamou da violência com que foi iniciada a operação de desocupação (não seria correto chamarmos, então, de desinvasão?) e reclamou, inclusive, da possibilidade de haverem três crianças mortas no “prédio da Oi”, como devemos tratá-lo? De acordo com quem o questionou, o rapaz estava um pouco exaltado e, por isso, a PM precisaria confirmar o que estava evidente.

Tem também os ônibus queimados e apedrejados e que, de acordo com a nota pública da Rio Ônibus, foi um ato, de novo, de vandalismo, que gerou para o Estado do Rio de Janeiro um custo de, aproximadamente, R$350 mil por ônibus e, se calcularmos, são, então, uns R$5.250.000,00, porque, parece, foram 15 ônibus queimados. Quanto é que foi desembolsado para custear a desnecessária reforma do Maracanã, futuro palco do último jogo da Copa? Ops, melhor não voltarmos a este assunto, o da Copa do Mundo, porque, senão, irão reclamar da nossa insistência em apontar todos os aspectos negativos (se é que houve algum aspecto positivo) deste evento em nosso país e, aí, Pelé e Ronaldinho, assim como a Xuxa, vão brigar.

Tudo bem, vamos falar do lado que, eleito democraticamente, também democraticamente tem-nos feito aceitar, amordaçados (temos que dar vivas à reimplementação da Lei de Segurança Nacional), esta atitude corriqueira e, talvez, natural, das instituições da sociedade civil, sendo elas: polícias militares que garantem nossa segurança; secretarias de habitação que, arbitrariamente, remove famílias das regiões centrais para os bairros mais distantes e inabitáveis, sem nenhum tipo de saneamento básico, das grandes cidades brasileiras, como ocorria constantemente com as favelas que incendiavam, sem querer, nos bairros centrais de São Paulo; secretarias de educação, saúde e qualquer outra coisa social que derrubam hospitais ou, simplesmente, privatizam, através das “Fundações”, os antigos hospitais de infectologia, como ocorreu no Rio de Janeiro ou que devolvem dinheiro federal porque não sabiam como administrar os milhões de reais destinados para as escolas públicas do norte fluminense, como ocorreu em Campos dos Goytacazes na prestação de contas do ano de 2012, salvo engano.

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Se tivermos que falar deste lado democrático da nossa sociedade liberal, então sentemos e, calados, comecemos a ler nossa literatura, completamente inserida na nossa realidade social, política, cultural e histórica, porque n’O Cortiço, Aluisio Azevedo já fazia alusão à miséria dos “sem nada”, Jorge Amado tornava nossas vidas barrentas e vermelhas com Seara Vermelha e Oduvaldo Vianna Filho fazia paródia (séria e sem achincalhamentos globais) da Grande Família exemplar brasileira. E como não poderia deixar de ser citada uma mulher, Esther Largman aproximava as Jovens Polacas: da miséria na Europa à prostituição no Brasil ao que, historicamente, vimos reproduzindo sem, nem sequer, darmo-nos conta: o pré-conceito!

Salvemos os nossos, porque os deles já estão guardados em cofres e contas poupanças bem recheadas. Des(ocupem)!

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E, em tempo, parabéns Beckham. Imóvel novo no Vidigal, hein! [(in)justamente divulgado no dia seguinte à desinvasão mais violenta que o Rio de Janeiro já viveu].

 

Tristan Mari

 

*Nossa convidada Mariângela Marques:

Mari foi a maneira mais fácil de todos me chamarem, porque, na escola, lembrar meu nome completo era tarefa difícil para as demais crianças. E assim fiquei conhecida por mim mesma.

Sou Mariângela Marques, paulistana de nascimento, carioca de coração, fluminense por necessidade financeira e Lusitana desde quando entrei no Canindé pela primeira vez e o Candinho fez da Portuguesa de Desportos um time respeitável na grande capital Sul Americana, mas continuo sendo a Mari, intensa, agitada, fotográfica e nunca fotogênica, viciada numa ótima cerveja bem gelada acompanhada de papos intermináveis com minhas (e meus) amigas (os). Deleitem-se!

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Categorias: Sociedade | Tags: , , , | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Des(ocupa) geral!

  1. Fico orgulhoso mais preocupado com tudo isso.

  2. Vamos da resposta nas próximas eleições, tirando todos de la e por sei la quem talvez deixar sem político, nossos deputados e senadores prefeitos governadores presidente vereadores sindicalistas só pensam em vantagem própria, um Brasil tão lindo não merece ser massacrado por esses INDECENTE. É esse meu desabafo.

  3. Pingback: Quando começamos a defender a morte, ao invés da vida. | transversos

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