Efemérides caleidoscópicas

 

Tudoaomesmotempoagora!

Facebook, perfil 57421, postagem 1352. Estava no link sagrado, confirmado pelo google e pela wikipedia, o portal das grandes verdades, páscoa é época de renascimento e de alegria. O dito cujo milagre da ressurreição, versão zumbi-clean católica.

jesus shopping

E na santa sexta, nada de carne! Aliás, uma dúvida… Consumir a hóstia na sexta santa pode? Ela não é o corpo de Cristo transubstanciado? Canibalismo o ano inteiro, vá lá (já naturalizamos esse gesto grotesco católico), mas na sexta da paixão, acho vandalismo!

Se não se é cristão, ainda resta o chocolate, brinde do salvador mercado. Mas, se, exoticamente, como eu, por exemplo, se abomina chocolate, o que há de restar, afinal? Em tempo, se já temos que engolir, amargamente, toda a exacerbação comercial da páscoa, ao menos tenhamos algum ponto de coerência: pelo ornitorrinco da páscoa!

Restam enfim reclamações… nem tanto, no Rio, é um megaferiado! Salve Jorge! (Ou “Salve, Jorge”? Depende da intimidade com o santo…). E viva o sincretismo em que vivemos, em que pese a defasagem de tolerância. Adicione-se aí, no calendário feriadoso, Tiradentes, o bode expiatório mais ilustre da história nacional. Maldito seja Silvério dos Reis, esse Judas neoclássico que, numa atraiçoada só, pôs fim ao Neoclassicismo in terra brasilis. Não soubemos mais de Marília ou de qualquer outra musa. Dirceu e os seus exilados e a poesia árcade degredada do país. Versos banidos a literal peso de ouro. E os livros de história ainda tratam o episódio por Inconfidência!

E o dia seguinte ao feriado de Tiradentes, sarcasticamente, enforcado. Só faltava mesmo 22 de abril ser feriado. Deveria, pra se reverenciar os mortos do “Descobrimento”- outro problema nomenclatural. Ah, mas já temos o honorífico Dia do Índio, 19 de abril, hoje. Então, tá tudo certinho! Pinturas ridículas, mãozinha espalmada na boca alternadamente. Tá feita a justa homenagem aos indígenas, esse bicho exótico em extinção no país ao qual, francamente, não damos a mínima mesmo. Essa data malfadada criada no governo Vargas, já que estamos no mês de lembrar de ditaduras.

colonização

Não foram só os colonizadores. Também somos nós, dia após dia.

Quantas datas espremidas em tão poucos dias. Quantas significações represadas, imprensadas…

Isso tudo sem falar no nascimento e morte de Shakespeare em 23 de abril, mesmo dia do padroeiro da Inglaterra, São Jorge, por sinal. E, de quebra, mesmo dia, inclusive no mesmo ano, morria Cervantes… Quanta genialidade enclausurada em tão curto intervalo de tempo. E, agora, lá se vai García Márquez, Gabo, a nos deixar por centenas de anos em solidão. Ele que nos presenteou com seu realismo fantástico a colorir, em palavras, nossa circundante realidade nua e crua. Ser e não ser e tantas outras questões…

garcia marquez 2

Tudo isso sob os auspícios da deusa Bastet, divindade felina egípcia cujo dia foi 15 de abril, terça última, mesmo dia do eclipse lunar, vejam só. Logo, aa deusa que é lunar. Aliás, Bastet é uma das raras exceções de meu convictíssimo ateísmo. Bastet, São Judas Tadeu e a Força! Minha santíssima trindade!

bastet 2

No universo do desfantástico realismo, seguimos nossa via crucis de injustiças sociais, sem salvadores, entre a cruz e a espada, no cadafalso das hipocrisias de nossa sociedade, em meio a tragédias nem um pouco cômicas, quixotescas aventuranças em vidinhas de tão pouca poesia. Vivemos uma história sequestrada, por sete vidas! Aguardando, ativamente, a ressurreição do ser humano, pleno, enfim. Ressurjamos!

via crucis

No frigir dos ovos, mesmo os pascais, o capitalismo é o grande judas do ser humano que se queira plenamente humano.

pascoa

P.S.: e na Santa sexta, no Rio, a Catedral fechada e cercada de polícia para não abrigar os despejados da desocupação da Telerj. Haja me(i)a culpa! É muita ressurreição por vir…

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2 opiniões sobre “Efemérides caleidoscópicas

  1. Flavia brgo

    Acho que há tantas coisas grotescas no catolicismo: Vaticano, movimentos contra métodos anti concepcionais, canonização… comungar, visto assim, como gesto canibalista, é mesmo grotesco… mas pra mim tem outro sentido, algo que beira uma tentativa desesperada de aproximar meu mestre espiritual, Jesus, de meu corpo e de minha alma, bastante feridos… ou algo como tentar conter um lado meu que creio ser mal, evil, sei lá, faz sentido pra mim… mas olhe, Anderson, eu te compreendo nas suas indignações religiosas e no qto elas NÃO fazem o menor sentido pra vc! o que aqui interessa de verdade: a VERDADE por detrás de coisas que são verdadeiras sandices sociais… e vc as VÊ! VÊ e DIZ/ESCREVE! Vc é ácido, sarcástico, corrosivo na medida exata para fazer chocar/chacoalhar e ao menos fazer vislumbrar num horizonte infelizmente não tão próximo, mas antes esse vislumbre do que NADA… q é o q vivemos:NADA! Ausência da “ressurreição HUMANA”, como disse Andrea Oliveira no “feice”. Amei a introdução que vc fez à postagem, Andréa! Anderson Ulisses, nada de “deusa gato” egípcia! Vc é ATEU, nada de Deuses, hein! Bem… pensando bem… se é um gato, rsrsrs, então dá pra deixar passar, né?! Kkkkkkkkk! E aquela foto daquelas 2 crianças chorando abraçadas àquele coelho assustador! Kkkkkkkkkk! Tenho uma foto exatamente assim, eu e meu irmão, chorando no colo do papai noel… e olha q o Noel é menos assustador q esse coelho pavoroso… sei lá, aquele vermelho vivo da roupa, velhinho de barba branca… e sobre esse ainda há uma lenda correndo por aí de que houve um senhor q passava o ano fazendo brinquedo pra entregar às crianças da vila onde morava, não sei onde, europa, acho! Algo assim!

    Viva o ornitorrinco da páscoa!!! Parabéns Anderson, pelo texto, por VER e DIZER! Já fui mais assim,…. agora… ando no alto de um muro, de um lado a realidade, do outro a alienação em doses homeopáticas diárias para eu não pular do precipício… como disse certa vez, cada um com seu cada um, suas histórias de vida, seus condicionamentos por anos e anos e anos de opressão, dor, desafios! São TANTAS histórias por esse mundão a fora! Seu texto, mais uma vez, é um texto necessário! Seu texto é uma reflexão sobre as verdades por derás das máscaras sociais… e ferramenta para fazer um trabalho de desestruturar atitudes robotizadas, humanizado, ressucitando o q há de essência humana em nos.;

  2. Flávia, obrigadão pela leitura, observações e ponderações! Mesmo. 🙂

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