Paradoxos

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O paradoxo não mora, surge. E como para ele não há solução, permanece. E as pessoas (sim, são pessoas) sem casa vagam mendigando atenção. Antes vagavam mais solitárias e desorganizadas. Mendigavam talvez outras coisas. De qualquer forma todos sempre lhes foram surdos. E cegos. Talvez bem mais que isso.

E, como em qualquer paradoxo, parece não haver solução. A proposta pasteurizada como fala de telemarketing pede cadastros. Entraremos em contato. Como? Para alguns, aquelas pessoas são números em estatísticas. Para outros nada são, nem mesmo estatística. Para muitas das vozes de “bens”, são aquelas pessoas o problema.

Em primeiro lugar, se a acusação era a de que esse grupo “oportunista” buscava especular no mercado imobiliário de baixíssima renda, parece que estão levando bem a sério a questão, pois bancam estar na rua, sob violência policial, há uma semana.

A visão de que todos aqueles e muitos outros são sanguessugas das “benesses” do governo com suas bolsas e auxílios, que matam de inveja quem ganha vinte vezes mais que isso, não se coaduna com a imagem dos trens, ônibus e metrôs lotados no início de cada manhã. Já que são tão beneficiados e vivem às custas do resto “trabalhador” da sociedade, que mórbido prazer justifica enlatar-se diariamente para “passear” pela cidade?

Paradoxos, inúmeros paradoxos. E eis que, enxotados da prefeitura, encontram caminho na igreja. Sim esta que há séculos se diz ao lado dos pobres, apesar de todos os acordos com os poderosos. A notícia diz que os “desabrigados da Oi” atrapalharam os ensaios da Paixão de Cristo.

Ora, mas não é a igreja que louva sua figura central como um pobre carpinteiro, sem endereço fixo e que passou pela planeta a pregar para os pobres? Não era mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha que um rico entrar no reino dos céus? Parece que a agulha hoje tem uma abertura por demais larga. Ou os camelos mudaram de lado.

Em meio à intoxicação por chocolates, os fiéis, em plena páscoa, não conseguem fazer a si mesmos a pergunta de que lado estaria o seu salvador em uma situação como essa? Será que creem que a mensagem mudou e que agora o filho de deus estaria ao lado dos vendilhões do templo? Nada me parece mais adequado que dizer que aquela gente estava atrapalhando a encenação de páscoa. Pura encenação, nada mais.

Há quem reclame de sua demanda por urgência e de que há uma “fila” para as casas. Ora, será que a burocracia deve se sobrepor às necessidades? Se não são todos iguais na espera, devem ser tratados na medida de sua desigualdade, esse é o princípio da justiça.

E é daqueles que nada têm, dos que não conseguem acesso ao básico da dignidade humana, é deles que se quer cobrar o comportamento ético impoluto. Não protestar, aguardar, submeter-se. Não roubarás. Mas também não morarás. E isso vindo daqueles que, sem pudor, vendem sua ética por centavos a cada mp3 baixado. A ética é um prato que só deve ser servido ao vizinho.

Baderneiros, vândalos, desabrigados por que não vos acostumai com a penúria? Por que não aceitais a invisibilidade social? Por que insistis em sobreviver? Por que atrapalhais o trânsito e enchei de medo o passeio de quem trabalha dignamente? Por que nessa visão, sobram as afirmações estúpidas “se der trabalho ninguém quer, querem só a moleza”. Até porque, dentro de casa, com comida e salário, é fácil fantasiar a moleza alheia. Trocar de vida eu nunca vi ninguém cogitar. Vai ver porque não deve ser tão mole assim.

A ironia final surge do poder público, que anuncia que fará casas populares no terreno ocioso da Oi. Oi? Como é? Chega a soar como piada que quarenta oficiais de justiça com apoio de centenas de policiais promovam uma agressão contra gente simples para depois dizer que se fará ali exatamente o que se queria que fizesse. Mas agora sem os pobres, sem os desabrigados.

Só para inventar mais paradoxos.

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Categorias: Política, Sociedade | Deixe um comentário

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