Comunidade-colônia

bandeira

Novembro de 2010: bandeiras içadas no alto do Complexo do Alemão

O território, alvo de disputas entre grupos de diferentes interesses políticos e, principalmente, econômicos, tinha agora um projeto baseado na paz imposta pelo poder hegemônico armado.

Seguindo a linha doutrinária de alguns pesquisadores, estaria acontecendo uma demonstração do darwinismo social, utilizando-se a força militar para submeter raças “atrasadas” e “inferiores”.

Qualquer semelhança com as UPPs não é mera coincidência. Os trechos acima se referem à Campanha de Conquista e Pacificação imposta pelos portugueses às nações africanas, no final do século XIX, após perderem o domínio da colônia brasileira.

Na atualidade, a dominação bélica faz-se acompanhar da anulação cultural da comunidade-colônia, com a proibição da realização dos bailes e com os toques de recolher – forma de coibir a sociabilidade local e de anular a identidade de grupo, já tão devastada por sucessivos processos de remoção.

A cobertura dada à morte de DG (Douglas Rafael da Silva Pereira), dançarino do Esquenta e motoboy, é importante para dar visibilidade a um caso que, em outras circunstâncias, seria menosprezado. Estar no quadro funcional da Globo confere a ele, junto aos discursadores conservadores de plantão, o status que lhe pertence, o de representante da juventude massacrada pela violência policial. Como no curta-metragem abaixo, em que DG encenou a própria morte. Ah, essas relações complexas entre vida e arte…

Não sei como alguém pode chamar a UPP de projeto (social, ainda por cima). O poder armado mudou de mãos, a população colonizada continua acuada e, depois da instalação do microQG da UPP, o que se veem são lojas abertas na comunidade.

 

casa e video alemao

Casa e Vídeo no Complexo do Alemão

Existe uma parcela considerável de moradores que integra “a nova classe média”, segundo parâmetros meramente econômicos. Muitas vezes, eles não têm mais o que gastar (como a classe média que não mora nas comunidades), mas possuem crédito. A capacidade de endividamento é grande, os juros são extorsivos, a sociedade de consumo bombardeia os sentidos, as necessidades se alargam. Pronto! O morador agora promovido oficialmente a consumidor já pode acreditar que é tratado como um cidadão. Isso, claro, na visão de quem está a uma distância bastante razoável da favela, que só enxerga o morador na figura do porteiro ou da empregada doméstica, ou que só conhece o lugar em fotos de Favela Tour.

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E não é que fazemos o mesmo nos espetáculos de capoeira na Bahia?

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Safári humano: vergonhoso!

 

 

 

 

 

 

 

 

Os editoriais de jornais cariocas deram o tom da discussão de ontem para hoje. O Globo, no seu “Cobrança vital às autoridades fluminenses” incensa o projeto (?) UPP e credita a “grupos com interesses convergentes” os “ataques organizados”. O JB (seria ele parte desse grupo?), em “Os césares do Rio, uma cidade em chamas”, destaca a mudança apenas aparente nas favelas, os abusos sempre cometidos e a existência de uma versão que não corresponde à realidade, a inventada por governantes e reproduzida à exaustão pelo que o JB chamou de “grande mídia”.

Nas nações africanas dominadas por Portugal até a segunda metade do século XX, as lutas pela independência deixaram marcas profundas em democracias ainda mais incompletas que a nossa. A ditadura salazarista foi encerrada, graças também aos soldados rebeldes, na revolução mais bonita de que já se ouviu falar, a Revolução dos Cravos.

25-a

Militares e crianças em feliz comunhão: mas será o benedito?

 

Olhar para a história de que somos feitos propicia a reflexão, a avaliação e a tomada de decisões. No momento, me cabe o sonho de que amanhã, dia 25 de abril, os PMs defenderiam a própria desmilitarização, distribuindo panfletos, sorrisos e flores nas comunidades.

 

 

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