Estado de sítio

Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

O toque de recolher é tácito. O ar pesado não permite sorrisos. Outrora ouvia-se um excesso de tiros, hoje talvez haja menos disparos. Mas, os homens armados continuam a circular por becos e vielas. A lei do silêncio ainda vigora. Parece apenas que mudou o dono do morro. Na tevê, fala-se que a paz chegou. Um dos poucos meninos a ter um dicionário em casa, vê no sentido do verbete a incoerência da realidade.

As favelas cariocas viveram décadas de abandono, comandadas por violências das mais diversas. De um lado, o estado intencionalmente ausente; de outro, o crime organizado assumindo o controle de um território desprezado pela sociedade. A desigualdade empurra a pobreza para cima dos morros. Faltam transportes, oportunidades. É melhor manter-se por perto. Ainda que em casas precárias, sem saneamento básico, em becos sem calçamento.

Um território fértil para o crime, um isolamento oportuno para vários setores da sociedade. O tráfico prosperou como negócio e trouxe índices inaceitáveis de violência. Em determinado momento, passou a incomodar o asfalto. E surge a “pacificação”. Como se realmente estivéssemos em uma guerra, como se houvesse um espaço a retomar. Ora, só se retoma o que já se teve. E as favelas do Rio jamais estiveram sob o olhar do poder público.

Instaurou-se nas comunidades um verdadeiro estado de sítio. A chegada da UPP não se confunde com a chegada do Estado. É o momento de exceção, da suspensão dos direitos e garantias. No fundo, é a simples troca de cor do comando. As fardas azuis funcionam como investigadoras, promotoras e juízas de um espaço que, em verdade, continua sem lei.

A “conquista” do território é, ao fim e ao cabo, uma simples vitória militar, bélica. E, como nesses casos costuma ocorrer, a comunidade vira o espólio dos conquistadores. Sabinas raptadas, saques e autoritarismos diversos. Vive-se a ditadura do poder, tal qual era antes das ocupações. Com o agravante de ser operada por agentes do estado, servidores públicos que, em lugar de “serivir”, impõem pela força o que suas limitadas mentes julgam adequado para a situação. Daqui do asfalto, contudo, melhorou. Elogios e propagandas. E, por isso, não se entende porque tanta revolta contra uma política de segurança tão “eficaz”.

Poderíamos todos colocar a culpa pelos “desvios” nos soldados da Polícia Militar. Individualizar os erros é a melhor forma de encobrir qualquer crítica à política adotada. A PM faz nos morros o que foi treinada para fazer. Não se pode levar um açougueiro à sala de cirurgia e esperar que demonstre a competência do cirurgião. Militares existem para a guerra e é a avaliação de que vivemos em uma que está errada. Não precisamos de mais armas, senão de lápis. Educação, saúde, saneamento, presença real do poder público integrando a favela à cidade, isso é conquista. A truculência da polícia traz apenas o medo e a dor. Tiro, porrada e bomba. Do despreparo e da incompetência, surgem as balas perdidas, as crianças mortas, tudo o que será “investigado” e que jamais terá resultado.

Entretanto, a sociedade precisa de polícia. Não de uma polícia militar, invenção única e atávica do Brasil, mas de uma polícia civil bem treinada, numerosa, investigativa, preparada e, talvez, apoiada pela ostensividade de um patrulhamento por guardas locais. Urge acabar com a militarização da polícia, com os treinamentos que buscam retirar a humanidade dos que dela fazem parte, com o medo transmitido pela farda que se faz constantemente o uniforme oficial do crime.

É tapa na cara, humilhações, invasão de domicílio, apreensão de bens, sequestro de pessoas, tortura e tantos outros absurdos na “abordagem” policial, que não caberiam neste texto. Não há mandados, nem lei. Vale o discernimento do imbecil com a arma na mão. E tome corpos jogados no chão. Absurdo? Bandido bom é bandido morto, vão gritar excitadamente as pessoas de “bens” do lado do asfalto. Mas, e se não era bandido? Era amigo, conhecido ou deu bom dia. Dá no mesmo. Aos olhos da família tradicional, está plenamente justificada a ação.

E só é assim, porque é na favela. Entre bandidos e relacionados com bandidos, Ipanema, por exemplo, tem boa parte de sua população. Desde os que financiam pela compra aos que encomendam armas e drogas em nome dos chefes. Ou melhor, os verdadeiros chefes (ninguém imagina que o jovem bandido gerente do tráfico é poliglota e tem contatos internacionais para a compra de armas sofisticadíssimas e diversos tipos de droga, não é mesmo?) Mas jamais haverá uma operação policial no lugar em que se emoldura o mar pela janela. O Estado é o defensor do capital; a polícia, a sentinela da propriedade privada. Não importa que custe a vida de alguns. Porque para alguns a vida não vale absolutamente nada mesmo.

A polícia militar fluminense mata mais que qualquer outra do planeta. E não se pode esperar algo diferente dela. Os policiais são treinados e criados como assassinos. Como verdadeiros capitães-do-mato para exterminar sua própria gente, sua origem social. Não há saída para as polícias militares, senão seu fim imediato. Não há pacificação pelas mãos de quem não sabe o que é paz. Não há remorso na corporação que só sabe servir de capataz.

Um dia, a favela há de fazer parte da cidade. Até hoje, todas as “soluções” para seu problema apontam para sua própria existência. Já se buscou removê-la, já se cogitou pintá-la de verde, para escondê-la em meio à vegetação. Sem lei, abandonada pelo Estado, reduzida a gueto. Agora, ocupada militarmente, na imposição ditatorial do interesse do capital. É a materialização da incompetência e do descaso de toda uma sociedade, durante mais de século de discriminação. É o estado de sítio promovido dentro daquilo que se finge chamar de democracia.

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