Cada macaco no seu galho

 

MACACOS ME MORDAM! Eis que o mico da semana foi a campanha “Somos todos macacos”. Eu, pelo menos, muito convictamente assim achei. Vamos aos fatos:

1. Daniel Alves, em aparente ato contínuo, come uma banana que fora arremessada em sua direção, durante partida pelo campeonato espanhol no domingo.

2. Muito pouco tempo depois, o ídolo duma nação, o sr. Neymar Jr., obcecado pela temática simiesca,  lança a campanha #somostodosmacacos.

3. Na madrugada de domingo pra segunda e ao longo da própria segunda, a hashtag alcança o 1º lugar no Brasil e na Espanha, o 2º em Portugal e o 4º no mundo.

4. No alvorecer da segunda-feira, já há camisa da campanha, devidamente grifada pelo sr. Luciano Huck, o modelo do homem de bem brasileiro.

5. Ao longo de toda a segunda, proliferam-se celebridades, desde as de 15 minutos aas “oficiais” perfiladas em fotos com bananas (?!).

Toda essa gente “bela” e “fresca”, quase platinada que nunca levou dura de polícia, nunca foi tomada por entregador em portaria de prédio, nunca foi confundida com rapaz das entregas de compras no mercado posando de “somos todos macacos”, com seu ícone de conscientização e criticidade em punho erguido: a banana. Sinceramente, vão exercitar a cavidade derradeira, né? Uma banana pra essa galera!

somostodosmacacos

#somostodoscinicos?

E antes de prosseguirmos, bora esclarecer uma questãozinha. Eu creio mesmo que o gesto do Daniel Alves, sujeito por quem eu nem nutro simpatia- como quase todos os jogadores do time da CBF, tenha sido verdadeiramente espontâneo, ou seja, tacaram a tal banana e ele, num desabafo até, foi lá e a comeu num gesto que poderia até ser tomado como de desconstrução, embora duvide que tenha tido esse sentido. Aliás, naquelas circunstâncias, não cabe qualquer cobrança desse ou daquele gesto político ao atleta. No mais, cada um, uma atitude. Balotelli, craque da Itália, por exemplo, já disse que senta a porrada em quem lhe tacar uma banana. Enfim… voltando ao gesto-gênese de toda a história da macaquice-fashion, acho que o Daniel Alves só tentou banalizar o ataque. Foda foi depois, o Neymar, via sua agência de publicidade, bananalizar tudo!

Darwin-macaco

Somos todos macacos, Seu Darwin?

No fim das contas, não havia nada de humanitário, mas sim monetário na hashtagagem toda. E tal qual num circo, multiplicaram-se os macacos de auditório, em versão virtual.

É uma pena que toda essa gente tão sensível aas questões raciais no Brasil e no mundo não tenha tido essa marqueteira ideia aa época do menino preso ao poste. Podiam ter lançado a campanha #somostodosmarginaizinhospretostrancafiadosaoposte.  Coisa linda que seria, não? Mas, se conheço bem o país em que vivo, oportunidade não faltará. Aliás, era uma boa também uma campanha de apelo a PM do Rio nesse sentido. Por que não se oferecer bananas aa PM, sob o slogan “Você também é macaco”? Seria terno até, quiçá terno de madeira.

não somos reinaldo azevedoHá quem argumente ainda, até certo ponto bem compreensivelmente, que tudo isso ao menos serviu pra pautar o debate sobre racismo com força no globo nesta semana. Sei não. Por um lado, talvez tenha tido, nalguns cantos, sem dúvida, efeito positivo. Mas, por outro lado, se pegou um tema hipersensível- e com razão de sê-lo- em nosso dia a dia e artificializou-se uma série de pseudoagentes antirracismo, tal qual estivéssemos reagindo ao ataque puramente xenófobo, dum europeu a um brasileiro mestiço, e então todos nos sentíssemos atingidos… Tem algo errado aí. A apropriação do discurso de solidariedade na luta antirracista feita por tradicionais agentes dos valores hegemônicos tanto raciais quanto de classe… É o tipo da ampliação de debate que acaba criando falsos e hipócritas consensos e que pouco têm a ver com nosso cotidiano real. Além disso, num discurso que assume o racismo, a título de lhe tentar tornar galhofa, mas sem que os discriminados sejam os agentes dessa desconstrução. Ou seja, nem pra isso a negada tá em primeiro plano. Os que são reais vítimas de racismo não carecem de ventríloquos, ainda mais dos que só falem bobagens de todo descomprometidas.

danny bananinha

O primeiro produto da linha “banana”, da grife Huck.

Há ainda outro lado de toda essa questão. O racismo incontrolável e crescente no continente europeu e que, lá, confunde-se intimamente com xenofobia sim. Óbvio que por trás disso tudo está a crise inerente e inescapável do modelo “União Europeia”. Todos são europeus, mas alguns (ou muitos) se sentem mais europeus do que outros, ainda mais perante imigrantes doutros continentes. Isso sem falar que, secular, e talvez milenarmente, há ódios xenófobos bem nutridos na Europa. Os muçulmanos, nessa linha histórica, talvez sejam das vítimas preferidas desse ódio. Mas, mesmo dentro do continente, a questão é complexíssima, a região dos Balcãs e seus povos que o digam.

[Este mês de abril, o gorila Ambam, único ereto conhecido na Terra, completou 24 anos!]

Pensar que somos todos, originalmente, negros. O homo sapiens sapiens, negro de nascença, teria levado, biologicamente, 20 mil anos pra embranquecer, degrad(u)ando-se em pigmentação, especialmente nas latitudes mais setentrionais da Europa, como meio natural de se nutrir do “escasso” sol da região. Conseguimos nos últimos 10 mil anos transformar, pela cultura, a sabedoria da Natureza numa estupidez grotesca. E ainda metemos o coitado do macaco nessas histórias…

planet-of-the-apes

 

P.S.: enquanto isso, em Cuba, outrora uma republiqueta das bananas, o 1º de maio, sem modinhas.1º maio cuba 2014.

 

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Categorias: Reflexões, Sociedade | Tags: , , | 6 Comentários

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6 opiniões sobre “Cada macaco no seu galho

  1. Se por um lado as redes sociais são boas em trazer certos assuntos à tona, em outras causam apenas a banalização dos mesmos (nesse caso, “bananalização”). Nunca vi tantas pessoas “engajadas” em uma causa. Realmente é MUITO difícil tirar uma foto comendo uma banana e posar de anti-racista…
    Mas fico me perguntando por que essa mobilização não atingiu outras classes que também são vítimas de preconceito. Ainda não vi ninguém postando #somostodosbaleias para se solidarizar às pessoas com problema de obesidade. Também não encontrei, até agora, a hashtag #somostodosveados contra a homofobia (nesse caso, fico imaginando o que farão com a banana…) e nem #somostodoshipócritas…
    Pois é, temos muito que melhorar ainda…

  2. Brilhante como sempre Anderson !!!
    Que levemos livros para os jogos de futebol, e os joguemos ao campo…..vai que alguem ali resolve pegar pra ler né ???

  3. Pingback: “Dá o fora, macaca” ou a bananização do mal | transversos

  4. Pingback: CLIPPING ESPECIAL – DAS LUTAS 3 | Das Lutas

  5. Muito bom seu texto…Estou gostando muito do blog

  6. Pingback: Somos todos macacos? Subsídios para pensar a respeito | A vida, o Universo e tudo mais

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