Cinco motivos para não votar no PT

Charge de Diogo. Publicada no Estado de São Paulo, em maio de 2010.

Charge de Diogo. Publicada no blogue do Estadão, em 16 de maio de 2010.

Repetidamente os jornais e revistas semanais, incluindo a mídia de rádio e tevê, bombardeiam de denúncias e críticas o governo do PT. Nas redes sociais percebemos o efeito dessas campanhas, nas mais raivosas declarações, sem que haja qualquer discernimento sobre exatamente o que se diz. Por outro lado, toda essa enxurrada de críticas não surge do nada, simplesmente inventada por intriga da oposição.

O problema talvez esteja na falta de percepção da conjuntura política do país, somada às lições históricas que são convenientemente esquecidas por alguns e rotineiramente ignoradas pela maioria, adepta a curtir, compartilhar e repetir aquilo que lhes chega aos ouvidos. Dessa forma, a política brasileira de tempos em tempos vira a briga do sujo que parece limpo por conta de seu afastamento do poder contra o ex-limpo, agora imundo, por conta de estar no comando. A oposição sempre tem seu charme acusatório, carregando hordas de incautos à repetição de chavões. Vamos ao top five das ladainhas:

1. O governo do PT é corrupto.

Eis aí uma verdade quase incontestável. Fala-se do mensalão e de seus acusados, o julgamento mais acompanhado da história do país. É, sem dúvida, exagerada a frase de Lula, que afirmou que 80% do julgamento foi político, mas achar que o espetáculo foi digno da mulher vendada que simboliza a Justiça é simplesmente ingenuidade. Basta ver que o inquérito que tratava do destino da verba do Banco do Brasil, motivo pelo qual o foragido Pizzolato foi condenado, jamais foi apresentado ao julgamento, já que envolvia pagamentos de Marcos Valério a uma empresa a quem o filho de Joaquim Barbosa era ligado.

O que cabe lembrar é que o PT não é inventor da corrupção no Brasil, apesar de praticá-la como todos seus antecessores. Contemporaneamente, há o mensalão de Minas, envolvendo os mesmos operadores, mas com políticos do DEM e do PSDB que simplesmente não ganha uma linha do noticiário ou alguma possibilidade de discussão no plenário do STF. Ou a meia tonelada de cocaína encontrada em um helicóptero com claras ligações ao alto escalão do PSDB de Minas, incluindo o presidenciável Aécio Neves. O Governo de FHC colecionou escândalos como a compra de votos da reeleição, o caso Sivam, o caso Marka/FonteCindam, Sudam/Sudene, entre inúmeros outros.

Antes que alguém diga que na Ditadura era melhor, lembrem-se de que os escândalos não eram divulgados por conta da censura (com a qual alguns órgãos de imprensa sentiam-se absolutamente confortáveis). Transamazônica, Ponte Rio–Niterói, superfaturamento de insumos, acordos para concessões de rádio e tevê, caso Luftalla, Coroa Brastel entre muitos outros, são exemplos de escândalos vestindo verde-oliva. A conclusão é a de que a corrupção é endêmica e nunca foi combatida de maneira séria e, a julgar pelo sistema político que temos, não será resolvida tão cedo.

2. O PT afundou a Petrobras

Outra crítica absolutamente válida ao PT. A empresa de petróleo tem sido administrada de maneira a deixar envergonhado qualquer Rockfeller. Prejuízos, maus negócios, inchaço de indicações políticas, tudo isso é responsabilidade única do PT. O que não significa dizer que as estatais brasileiras antes do governo petista eram bem administradas.

No governo FHC, por exemplo, os problemas de gestão e falta de investimentos na Petrobras causaram inúmeros acidentes fatais e desastres ecológicos, como o vazamento na Baía de Guanabara, no Rio Iguaçu ou o afundamento da P-36 na Bacia de Campos. E, se a questão é o orgulho nacional, é de responsabilidade da atual oposição a venda, por preço camarada, de inúmeras estatais, incluindo-se aí a Vale do Rio Doce.

3. O PT não sabe administrar.

Essa é uma acusação genérica e questionável. O PT resolveu administrar o capital de forma tão competente quanto seus predecessores. O BNDES continua financiando obras, empreiteiras e empresários que se beneficiam do sistema fiscal e de licitações, a preocupação com o mercado financeiro e austeridade é a simples continuação do legado tucano. Por outro lado, é inegável que houve conquistas, como a diminuição da desigualdade social ao longo do governo petista. Basta ver que o salário mínimo ao fim do governo FHC valia algo em torno de cem dólares e hoje chega a mais de trezentos dólares, um crescimento bastante relevante, ainda que insuficiente.

A própria crítica aos programas de transferência de renda é um tanto esquizofrênica. O Bolsa-família do PT é herdeiro do Bolsa-escola de FHC. A ampliação do benefício pelos petistas e sua capacidade em fazer publicidade do programa é que trouxe a notoriedade que o deixou na berlinda para ser alvo dos ataques raivosos da classe média em geral.

Se o governo administra mal os recursos, como é o caso da água e a anunciada crise energética que vem sendo adiada por conta das eleições (como tem gente torcendo para o desastre!), não o faz de maneira diferente de FH, que não teve a mesma competência e lançou-nos, além de uma forte recessão econômica, em um racionamento de eletricidade com direito a inúmeros apagões.

No final, em termos administrativos, PT, PSDB, DEM, PSB e outros administram o capital com a mesma subserviência aos interesses econômicos, fazendo mais ou menos concessões aqui ou ali, mas sem diferença de fundo que aponte um forte fator ideológico.

4. A política internacional do PT é um desastre.

Nesse ponto, a direita divertida (versão moderna da esquerda festiva) faz uma farra. Fala do apoio à Cuba, da proximidade com “governos ditatoriais”, como nos casos da Venezuela, Bolívia e Irã, alinhamento com a China e Rússia e uma pá de outras acusações, com maior ou menor fundo de verdade.

A política externa do PT diferencia-se de sua antecessora, por conta da afirmação do país como potência emergente, deslocando o eixo liberal, centrado na dependência dos Estados Unidos, para um multilateralismo, junto a outras economias emergentes como China, Rússia, Índia e África do Sul. O protagonismo brasileiro na região e um papel mais destacado em grupos como o G20 fazem parte desta inserção mais “autônoma” do país.

Pegar uma ou outra relação ou declaração como fator de crítica é não perceber o caminho estratégico definido para as relações internacionais, além de ser extremamente estúpido, já que o governo do PSDB também tinha sua linha de atuação clara: apoio ao livre comércio e a construção de abertura na economia. Algo que favorecia demais os Estados Unidos e prejudicava o próprio empresariado nacional.

Quanto aos apoios, é interessante lembrar que FHC apoiou o ditador peruano Alberto Fujimori (chegou a condecorá-lo com a medalha da Ordem do Cruzeiro do Sul!). Em 1999, o PSDB trouxe médicos cubanos para atuar em Tocantins, medida aplaudida pela revista Veja, a mesma que critica o mesmo projeto por conta da autoria diferente. A própria questão de investimentos nos países “fechados” é idiota: o BNDES de FH financiou a linha de metrô da Caracas chavista, além de manter parcerias e intercâmbios com a ilha de Fidel.

5. O PT é comunista e coloca os camaradas no governo.

Essa é acusação de que eu mais gostaria que fosse verdade. O PT está a anos-luz do comunismo, tendo, inclusive, retirado a palavra “socialismo” se seu programa. A relação com os trabalhadores é perversa, cooptando lideranças sindicais de maneira similar àquela feita por Getúlio em seu Estado Novo. Os trabalhadores têm poucas conquistas trabalhistas e são calados pela força do mercado, pelo aumento do salário mínimo e pela desarticulação de sindicatos e movimentos representativos.

A reforma agrária é assunto que passa longe do governo, que busca neutralizar o MST por meio de promessas e rodeios, desejando apenas evitar os conflitos em que apanhasse “pela esquerda”, demonstrando seu total afastamento das lutas populares, trabalhistas e camponesas. A maquiagem do PT em suas relações com os movimentos sociais é tão ruim quanto o enfrentamento direto de FH, que reprimia com violência os trabalhadores, culminando na fatídica chacina de Eldorado dos Carajás. Além disso, aposentados e professores foram vítimas de xingamentos por parte do sociólogo da Sorbone, entre inúmeros outros ataques.

 

Haveria possibilidade de se elencarem inúmeros outros motivos para não se votar no PT. Nem no PSDB. Nem no PSB. Nem no DEM. E por aí vai. O que a história política brasileira nos mostra, em especial nestas décadas de “afirmação” de nossa democracia, é a falência completa do sistema representativo. Assim, há mais de cinco motivos para acreditar que a solução está longe de passar pela urna eletrônica (uma das mais inseguras do mundo!), ou na simples escolha de alguém para mudar os rumos do país.

O messianismo da chegada de alguém que resolverá tudo leva ao simples populismo. Só a organização dos trabalhadores e explorados pode modificar de fato as relações sociais do país. Escolhe-se mudar o nome do problema com a ponta do dedo em uma tecla; escolhe-se resolver o problema de braços dados com seus iguais.

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Categorias: Política | 6 Comentários

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6 opiniões sobre “Cinco motivos para não votar no PT

  1. Daniel Do Val

    Visão distanciada e segura. Senti falta de mais linhas dedicadas à solução possível. Dale.

  2. Considerando a realidade política em nosso país, penso ser perigoso não diferenciar PT de PSDB. Então diminuição da miséria e ganho real do salário mínimo é controle social? Penso que se controla mais com a miséria (na casa de 80 dólares fechou o governo FHC). Estamos em processo, vamos ver onde chegaremos com o PT. Mais 12 anos e 700 dólares de mínimo, seria bom. Vamos ver.

  3. Josiane Santos

    Nunca vi tanto desleixo com educação e saúde,mas dinheiro para os estádios na hora. Corruptos e ladrões,sim o paí indo para lama a cada dia.

  4. João Correia Defreitas

    Não sei quem escreveu isso, mas é a mais pura verdade. Parece que não se pode mais confiar em nenhum partido político no Brail. Será que a estrutura política brasileira é que está errada? Talvez. Só sen poide afiermar sem êrro que o opovo está saturadi, cansado e em situação limite e isso é extgrfemasmente perigoso, pois a turba em estouro nãoo raciocina e pode cometer os maiores atropelos. Precisamos, urgentemente, de um projeto de salvação nacional ou entraremos emc caos lógo.

  5. Equívoco Humano

    Tenho que concordar, apesar de achar que o texto em parte pega muito leve com o PT. Entre Copa, Mensalão, Petrobrás, 39 ministérios, Mais Médicos, Porto de Cuba, fica bastante claro que o PT não sabe efetivamente administrar, que é extremamente corrupto, que é subserviente a ditos “socialistas”, que usa a máquina pública como cabide de emprego. Mas qual partido é diferente? Pode não estar importando e pagando médicos sem revalida de Cuba, mas se o dinheiro escapa por outro lado, o resultado é o mesmo. O nosso novo e já combalido processo democrático enfraquece a ponto de pessoas esclarecidas acreditarem que na época da ditadura era melhor. Como se abrir mão de liberdades individuais, fosse alguma garantia de honestidade e transparência. O máximo que se alcança com isto, é facilitar e esconder mais a corrupção. Também não vejo como solução esta conversa de trabalhadores uni-vos, temos exemplos históricos que mostram sempre resultados desastrosos e sanguinários. Precisamos passar por uma mudança de cultural, tirar a política da mão de todos estes velhos caciques, que se alternam dividindo o erário público de acordo com o resultado das urnas. Alianças políticas são determinadas por distribuições de ministério, não por proximidade ideológica. O PMDB, por exemplo, é eterna base do governo, seja qual for o partido. O primeiro passo para mudança seria que o judiciário e o MP fosse realmente independentes. Eleições internas, para cargos mais altos, nomeações do executivo nunca mais. Legislação dura para crimes de colarinho branco, afinal o dinheiro roubado, é o que falta nas filas do SUS e nas escolas públicas.

  6. Palhaço

    O sistema político brasileiro realmente está um lixo e caminha ainda mais para o abismo. Mais de 30 partidos políticos, sendo que todos tem apenas um ideal, chegar ao poder e enriquecer os representantes do povo. Brigam entre si antes das eleições e ao passar esse período de treta, se unem para dividir o bolo. Estamos fadados ao fracasso, necessitamos urgente de uma reforma política, judiciária, legislativa/tributária e executiva. Porém caso haja uma reforma quem a fará? Eles mesmos que estão lá em cima no poder, tirarão um pouco da pressão que há dentro da panela e claro não se prejudicarão com reformas que não os convém.

    Humildemente ao meu ver, fiz uma lista de 10 sugestões de mudanças que já dariam resultados imediatos. São eles:

    1- Apenas dois Partidos Políticos
    2- Diminuição de salários e benefícios para os representantes do povo
    3- Corte nos cabides de emprego e cargos nomeados
    4- Políticos devem obrigatoriamente ter uma faculdade em seu curriculo, para prefeito e cargos superiores, obrigatoriamente pós graduação
    5- Leis duras e severas contra a corrupção (crime hediondo) – Pena de morte
    6- Privatização de presídios e penitenciárias
    7- Utilização de serviços públicos devem ser obrigatórias para os representantes do povo e seus filhos e familiares (hospitais e escolas)
    8- Diminuição da maioridade penal para 12 anos
    9- Pena de morte/prisão perpétua para crimes hediondos (assassinato, latrocínio, sequestro, estupro e lembrar novamente a corrupto)
    10- Reforma tributária

    Agora, creio que é mais fácil o Brasil falir do que acontecerem mudanças que realmente faça um país com tantas riquezas, extensa área territorial, povo trabalhador, dar uma reviravolta e se tornar uma grande potencia.

    Será que precisamos de uma guerra civil para mudar a atual situação? (os índices de morte no Brasil mostram que somos campeões comparados até com locais em que há guerras)

    Será que precisamos de um Bin Laden terrorista contra governo corrupto?

    Cade a força do povo?

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